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scilicet : Antonio de Mello e Pero Peneda, e outro moço que, por ser pequeno, não é ainda recebido : todos estes linguas.

Depois da sua chegada se ajuntaram os Padres e Irmãos que estavam polas egrejas antre o Gentio, pera com todos tratar algumas cousas necessarias acerca do modo de tratar com os Indios, e tambem pera se informar e fazer informar ao Senhor Governador d'alguma feieza e desordens que aconteceram em sua absencia antre o Gentio, por causa dos que ficaram em seu logar governando a terra não guardarem o estilo e ordem que tinha dado acerca de como se havia de proceder com os Indios ; fel-o elle com tanta diligencia que logo tornou a pôr tudo na ordem em que o deixou, dizendo que fizessemos o que faziamos, sem ter conta com ninguem. E pera se melhor poder fazer, mandou chamar os Principaes das povoações donde estão as egrejas, e de palavras lhes disse todo o necessario pera isso, dizendo-lhes que

elle iria cedo a visitar suas povoações, e assi o determina fazer ; e tem nesta parte tanto zelo que, parecendo-lhe que nos queriamos diminuir um pouco do modo que levavamos, nos tirava disso com resões que pera isso dava, dizendo que, pois tinhamos experimentado quanto fruito daquella maneira se fazia, pera que era sinão proceder desse modo? Tambem começou a procurar como se tornasse a recobrar os da egreja de S. João, que acima disse haverem fugido.

CARTA DO PADRE LUIZ DA GRÃ PARA O PADRE DOUTOR

TORRES DE 22 DE SETEMBRO DE 1561, RECEBIDA A 5 DE MARÇO DE 1562.

Estes dias passados tiveram os moradores grande requerimento com o Governador sobre os Indios, querendo que o juiz dos orphãos désse de soldada os moços e moças orphās e outros pediam tambem os casados. O Governador teve mão nisso, porque o que vir ser servico de Deus ha de sustentar com o zelo que tem da virtude verdadeiramente, que é mui fiel no serviço de Deus e gran lissimo atalhador aos males que se ordenam na terra e sabido quão maus christãos são os escravos dos Brancos e a pouca doutrina que em sua casa têm.

O Governador tomou por sua devação fazer-nos a egreja que haverá sete annos que é começada, sem nunca se poder acabar até que cahiu por ser de taipa, e a que agora faz é de pedra e cal e detrimina de a fazer mui grande.

Em tudo lhe devemos muito, e por bondade do Senhor o Governador, Bispo e Ouvidor temos mui favoraveis a tudo o que nos é necessario pera favor da conversão.

CARTA DO PADRE LEONARDO, DA BAHIA DE TODOLOS

SANTOS, DE 26 DE JUNHO DE 1562, PARA Os Pa-
DRES E IRMÃOS DA COMPANHIA DE JESUS, EM S
ROQUE.

e

Uma sentença sahiu agora contra o Gentio que cá chamam Caaête que mataram o Bispo, em que se condemna toda a geração a serem escravos, e por o Padre ser informado que toda a terra ainda nesta capitania era cheia desta mistura e o vulgo esperar que a sentença havia de sahir tanto á sua vontade, arreceioso da desinquietação que despois succedeu, fez com o Governador que antes do dar da sentença que,

ainda

que

fosse justo sahir ella, como commummente se esperava, desejava elle todavia merecessem os que se achavam nos logares onde a Companhia tem casas... elle folgou como quem não deseja pouco a quietação dos novamente convertidos e assi o fez como o Padre Provincial queria. Mas como o imigo não dorme e a cobiça seja má de arrancar donde tanto ha que reina, nem isto bastou pera deixarem de ser perseguidos, porque por fas et nefas trabalhavam muitos desalmados fartar sua sede e encher-se de peças, não perdoando a pagãos nem a christãos, e com tanta diligencia que convinha aos pobres deixar-se morrer em casa sem buscar de comer nem fazerem suas roças, ou fugirem polos matos como veados, porque tanto que sahissem das abas dos Padres e os topavam, logo eram ferrados, que não sei quem lhe dizia serem daquella casta.

Conveiu então ao Padre, como aquelle em quem esta toda a confiança de tanta orphandade, atalhar com todos os remedios, assi com bradar nos pulpitos e estranhar a crueldade, como com fazer com o Governador que tambem os defendesse e ajudasse, o que elle fez tanto que o soube, mas in manu valida com prender e castigar, com o que alguns se retiveram de sua furia e começaram a dar os que tinham, c tal houve que com medo de ser culpado entregou ao Padre 30 ou 40 peças sem lhe elle fallar

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nellas, e como que ainda se tinha por ditoso achar modo e maneira com que ellas fossem restituidas aos logares de onde eram, sem o saber quem o pudesse accusar. E tanto que polas aldeias se soube a diligencia que o padre Luiz da Grā punha em seu livramento, concorreram logo a este collegio de diversas partes em bandos e era cousa piadosa ver tanta gente, e uns pedirem filhos e outros mulheres e parentes e outros maridos, e enchia-se o collegio de gente, com o que o Padre levava tanto trabalho que se não sabia dar a conselho, e pera acudir e ouvir uns e outros era necessario não dizer missa toda a sumana e resar fóra de tempo. O Governador e Ouvidor Geral, como são todos da Companhia e de muito boas consciencias e se confessam muitas vezes em casa, puzeram dès que começaram tão boa diligencia que vai

tudo cessando, e os moradores virão a conhecer seu erro, por já alguns começarem a temer que os Indios com a perseguição se levantassem e fossem ajuntar em parte onde depois fossem trabalhosos de sujeitar de novo.

CARTA DE ANTONIO BLASQUES PARA O PADRE Provin

CIAL DE PORTUGAL, DA BAHIA, DE 30 DE MAIO DE 1564 (TRADUCÇÃO DO HESPANHOL).

Quanto ao material desta casa, porque os edificios eram de taipa e se iam cada dia arruinando, ordenou-se que se faça outra casa junto a esta : pôz-se mão já na obra e se irá cada dia trabalhando nella. A egreja que o Sr. Governador mandou fazer de pedra e cal vai-se aperfeiçoando e accrescentando cada vez mais, mostrando Sua Senhoria para isto e no mais muita ajuda e favor. Deus lhe dê por isso scu premio e galardão.

As murmurações que o anno passado se haviam levantado, fundadas nos que pretendem os seus proprios interesses dos Indios, parecendo-lhes que nós impedimos as suas ganancias com elles, hão cessado com a boa ordem que teve o Padre Provincial para lhes desarraigar esta opinião, acabando com o Governador que mandasse pôr em cada povoação um homem honrado que tivesse o nome de Capitão e fosse como que o protector delles, defendendo-os das injurias e aggravos dos Christãos. Estes, como testemunhas de vista, observando a nossa vigilancia e cuidado que com elles se tem e por outra parte considerando os insultos e oppressões que da Parte dos Christãos os Indios padecem, hão

declarado e publicamente dizem ao povo a pouca razão e a muita culpa que têm em nos perseguir, e ajudar tão pouco nesta obra de tanto serviço do Senhor.

CARTA DO PADRE LEONARDO DO VALLE ESCRIPTA DE

S. VICENTE A 23 DE JUNHO DE 1565.

As derradeiras novas dos trabalhos desta terra, escreveu largamente o irmão Joseph polo navio que digo de Luiz Alvares, porque por nossos peccados estes são os contentamentos que se offrecem pera temperar e agoar os que de outras partes terão, posto que nem estes devemos aceitar de menor vontade pois Deus Nosso Senhor assi o permitte.

Depois da partida do navio, que foi logo em Dezembro de 1564, veiu aqui ter uma canôa de Tamoyos desta fronteira, confiados nas pazes que elles havia dias bem mal guardavam, sendo consentidores de alguns do Rio e doutros que dantre elles sahiam fazerem alguns saltos e presas, em que os Christãos recebiam mui grandes perdas de gente e fazendas, pelo que se creu ser sua vinda mais a espiar que a dar aviso, como elles diziam. E sendo presos até se saber a verdade, acabou-se de fazer prestes o capitão-mór Estacio de Sá pera ir povoar o Rio, onde os determinava levar pera delles se ajudar em fazer pazes ou no que lhe bem parecesse ; mas como a ferocidade de seus animos repugna sempre a todo o bem e não soffra estar em paz, vendo que lhes seria forçado tel-a de verdade comnosco, si no Rio lhe fizessem quebrar a que com os seus tinham, fazendo-os pelejar contra elles, minaram a cadeia e fugindo por terra chegaram a suas casas alguns que mais mal podiam fazer por serem Principaes e Quireinbabas (que assi chamam aos ditosos em captivar na guerra e que dão os ardis pera ella), donde logo tornaram a se vingar com algumas quatro canôas, sem dar repouso a seus corpos fracos e magros da abstinencia dos matos, e como do tempo das pazes tinham bem sabidos os portos e rios, e vendo que toda a gente de guerra era no Rio, entraram de noite e deram em uma fazenda junto desta ilha, onde sobre commummente residirem homens brancos e escravos, se acharam então sós 4 ou 5 mulheres das mais virtuosas de toda a terra, sem um escravo que lhes defendesse uma porta; o que sabendo elles por uma escrava que logo junto da casa acharam, afoutamente lhes começaram a quebrar.

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a porta com uma camara de berço que tambem acharam, e vendo-se ellas entradas se lançaram por uma janella, donde foram presas com suas crianças e escravas.

Mas o Senhor, qui est adjutor in opportunitatibus et in tribulatione, permittiu que ao quebrar da porta, como a noite era muito serena e calada, ouvissem as pancadas uns cinco ou seis mancebos escravos e forros que estavam dali um bom pedaço, os quaes crendo ser o que era polos arreceios que já havia (posto que se não havia visto semelhante ousadia), acudiram logo e tal esforço lhes deu Nosso Senhor mediante o coração e boa industria de seu capitão, que era um Negro bautisado de pouco, o qual vendo-se fraco da doença de que então se levantava, e com quatro ou cinco companheiros contra um tamanho esquadrão, se poz de giolhos, dizendo a Deus : Pae, faze-me valente pera

destruir estes inimigos. E nisto chegando elles com os presos ao posto onde os elle esperava, tal esforço, como digo, tomou, e com tal impeto deu nelles que, além de lhes fazer largar toda a presa, os fez tambem embarcar com deixarem muitos mortos e feridos e alguns perdidos pelos matos, polos não deixar embarcar, ficando elle e os mais companheiros sãos, tirando um seu irmão que

lhe passaram as ilhargas com uma frecha ; e tudo isto foi feito por uma tão maravilhosa maneira que, a haver tempo, fôra não pequeno erro deixal-o de contar por ordem, polos muitos louvores que a Deus Nosso Senhor se devem por aquella obra sua.

Não se contentou com isto a Divina Liberalidade, porque não foi em o repartir de seus thesouros olhar o pouco merecimento dos homens, mas segundo a sua misericordia o faz com elles, como agora fez com a armada em o povoar do Rio de Janeiro, do qual nesta é excusado fallar, pois está lá o padre Gonçalo de Oliveira, que como testemunha de vista o poderá bem contar. Mas é notorio a todos serem tantos e tão evidentes os milagres que se viram na fundação deste negocio e nos combates que houve, que podem já esquecer os da India e Africa, e assi se mortificaram e quebraram tanto os animos dos inimigos que do

lá o Senhor obra em favor dos nossos, redunda a esta capitania não pequena parte da bonança de que já começa a gozar, vendo-se algum tanto desapressada das muitas angustias de que de todas as partes esteve cercada.

muito que

a

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