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sua demissão do cargo de confiança e passou para a Relação de Lisboa em 26 de fevereiro de 1840 sendo transferido para a do Porto como juiz com exercicio desde 5 de maio de 1840. Em 1836 tinha redigido em Lisboa o jornal politico: 0 Independente.

A restauração da carta em 1842 desorganisou o antigo partido cartista, e reconstruiu-o com pessoal differente e com intuitos politicos mui diversos dos que haviam dirigido as reformas de Mousinho da Silveira e de Joaquim Antonio de Aguiar. Os cartistas de 1834 ficaram sendo partidarios sem partido, soldados sem chefe, ou chefes sem soldados, e na dura alternativa de sacrificarem as idéas ao nome, ou de perderem o nome para permanecerem dentro das raias dos principios.

N'esta situação, e por assim dizer sem partido politico, estava o sr. Seabra quando surgiu a resistencia opposta pela cidade do Porto ao golpe de estado de 6 de outubro de 1846. Na junta organisada então por Passos (José) coube ao sr. Seabra a pasta do reino, na qual se houve com a sua costumada intelligencia e com muita lealdade ao pensamento da junta, segundo ouvimos dizer ao sr. Passos (José). Ambos os Passos tinham pelo sr. Seabra a consideração que os homens de subido valor e despidos de miseraveis invejas, não sabem negar ao merito alheio. O sr. Seabra assim como o sr. Sebastião de Almeida e Brito não assignaram o decreto pelo qual a junta deu por concluida a sua missão. Alguns dias antes tinham-se ambos retirado em occasião sem duvida em que a prolongação das hostillidades lhes pareceria, sobre inutil, deshumana.

Estes cavalheiros nunca explicaram similhante facto, talvez porque os boatos que então correram lhes não foram desfavoraveis, e revelaram as dissidencias a que se attribuiu a abstenção dos srs. Seabra e Almeida e Brito. A imprensa tambem não quiz antecipar-se á historia na indagação das causas. Façamos á similhança do maior numero, e acreditemos que foram conscienciosos, e dignos da gravidade e bom caracter d'estes dous notaveis portuguezes os motivos que os determinaram a proceder assim. Está-lhes ainda hoje servindo de abonador a geral estima que nunca desamparou aquelles membros da junta. N'esse tempo e já desde 1845 havia no Porto um jornal intitulado: A Estrella do Norte, que pelo alcance das doutrinas, pela qualidade do estylo, e pelas informações exactas que mostrava ter dos negocios publicos, se julgava fosse inspirada por homem de grande tino e de elevada posição social. A opinião geral nomeava o sr. A. L. de Seabra, e concedeu á folha du

rante o governo da junta o caracter de jornal semi-official que outras egualmente possuiam.

A regeneração a que déra principio a insurreição que favoreceu a revolta militar do marechal Saldanha em 1851, aproveitou o talento do sr. A. L. de Seabra, e em 4 de março de 1852 confiou-lhe a pasta das justiças, que conservou durante seis me. zes até ser substituido interinamente pelo sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães, então ministro do reino.

1

Tem o sr. Seabra sido deputado em differentes legislaturas desde 1834 em que foi eleito por Villa Real, e na ultima sessão era presidente da Camara Electiva, honroso e difficil cargo em que senão serviu complacente, tambem não desgostou gravemente a opposição ou o governo.

N'esta quadra da sua vida politica e occupado com trabalhos de outra natureza, o sr. Seabra não pertence activa e energicamente a nenhum dos grupos mais vigorosos nas lides politicas, e o seu voto poderá sem admiração nem offensa das differentes parcialidades ser favoravel ora ao governo ora á opposição, mas sempre conforme com os principios da justiça cujo sacerdote é, e com as idéas liberaes a que permaneceu constantemente fiel.

O sr. Antonio Luiz de Seabra é um dos vinte e cinco pares ultimamente nomeados. Cabia-lhe de direito um logar entre os proceres do reino. Lá está.

III

São numerosos os escriptos litterarios do sr. Seabra. Talvez se deva contar em primeiro logar a traducção em verso de uma ode latina de Francisco Botelho de Moraes e Vasconcellos, publicada na Mnemosine Lusitana em 1816, uma ode em francez feita na Belgica e ali publicada, e um projecto de instrucção primaria de que fôra encarregado por decreto de 3 de agosto de 1835 e que foi louvado em decreto de 28 de setembro do mes

mo anno.

Em 1846 imprimiu no Porto em dois tomos de 8.° as Satyras e Epistolas de Quinto Horacio Flacco traduzidas e annotadas, traducção que foi recebida com grande distincção pelos cultores das boas letras patrias e latinas, a cuja curiosidade faltava uma traducção d'esta parte das obras do favorecido de Mecenas e de Augusto.

Em 1849 deu á luz um folheto de 14 paginas impresso na

Em 1834, 1836, 1838, 1852, e 1861.

typographia da Revolução de Setembro com o titulo: Observações sobre o artigo 630 da Novissima Reforma judiciaria, e em 1850 publicou na imprensa da Universidade em um volume de 8.o gr. a obra: A Propriedade, Philosophia do Direito: para servir de introducção ao Commentario sobre a lei dos Foraes. Era uma resposta ao celebre livro de Proudhon ácerca da propriedade, livro que o proprio partido liberal repelle hoje, assim como não reconhece no autor a qualidade de correligionario. Esta obra do sr. Seabra devia ter segundo volume que não chegou a publi

car-se.

Era antigo em Portugal o desejo de possuir codigo civil. Datava da acclamação da casa de Bragança. Não era só desejo, urgia tambem a necessidade, e de maneira que o Digesto Portuguez do nosso jurisconsulto Correia Telles desde a sua publicação principiou a ter no foro quasi auctoridade de lei competentemente promulgada. Incumbiu o governo esse encargo ao sr. Antonio Luiz de Seabra que em 1857 deu á luz o Projecto do Codigo Civil Portuguez impresso em Coimbra.

A esta obra acudiram com observações e reparos os srs. Alberto Antonio de Moraes Carvalho, Joaquim José Paes da Silva, Vicente Ferrer Neto Paiva, e o sr. Freitas, jurisconsulto brasileiro, dando occasião a publicarem-se varios folhetos do auctor em resposta, todos impressos em Coimbra em 1858 com o titulo de Apostillas.

Mereceria ver a luz publica a collecção dos discursos do sr. Seabra, na camara dos deputados onde as suas qualidades de orador fortalecidas por notavel instrucção lhe conciliaram sempre attenção e respeito, muitas vezes sincera admiração.

Ouvimos ha annos ao sr. A. L. de Seabra que tinha concluido um romance, em que o protogonista era o dr. Antonio Homem, mais conhecido pelo nome de Preceptor infelix e victima da Inquisição de Coimbra. Até agora não foi publicada esta obra em que tão largamente deviam manifestar-se os dotes de philosopho, de poeta e de prosador que o sr. Seabra possue.

IV

Versado na litteratura antiga e na moderna, excellente poeta da escóla classica, prosador correcto, jurisconsulto intelligente, magistrado esclarecido, orador facundo, e homem de fino tracto e boa condição, é o sr. Antonio Luiz de Seabra uma das pessoas mais notaveis, de Portugal, e uma das que com maior justiça são geralmente respeitadas.

Tem o titulo do Conselho de Sua Magestade, o de ministro de estado honorario, a grã cruz da ordem antiga de S. Thiago, a commenda de Christo, e o diploma de Socio da Academia Real das Sciencias de Lisboa.

O partido conservador e o partido progressista podem inscrever nos respectivos catalogos dos seus membros o nome illustre do auctor do codigo civil porque em ambos militou, impellido de dois pensamentos mui nobres, o de manter o throno e o de desenvolver a liberdade, ambos difficeis de conciliar ás vezes por causa das paixões humanas, mas ambos de sua natureza analogos e estreitamente unidos onde houver de realisar-se progresso duradouro, governo forte, e desenvolvimento real de publica prosperidade.

Se o sr. Antonio Luiz de Seabra conseguir, como desejamos, a approvação do seu Codigo Civil, bastará este monumento para livrar as gerações vindouras do labeo de ingratidão para com a memoria de um homem que por tantos outros titulos é benemerito da patria.

A. A. TEIXEIRA DE VASGONCELLOS.

CONTOS

DE NOITE TODOS OS GATOS SÃO PARDOS

I

A TRIPEÇA DO MESTRE BRAZ

eus nos acuda! Maria Santissima valei-nos! Chavecos mouros aqui ás barbas de Lisboa !... Abrenuncio !

-«É como lhe estou contando, sr. Angelica do Céo. Por um triz não deitam as unhas ao sr. infante D. Francisco, irmão de el-rei. Esta saltou fresquinha agora ali da casa dos tabelliães. Disse-m'a um freguez. Foi perto do Cabo da Roca.»

-«Arrebentado seja o demo! Nossa Senhora do Amparo! Mas o que ía o infante espreitar tão longe da barra? Ai, mestre Braz, aquella cabeça nunca andou certa. Sempre mettido nos mattos com os lobos, ou...>>

-«Alto! Nem pio, tia Angelica! Pela boca morre

o peixe Assente a espada na visinhança, quanto quizer, que eu tambem não sou santo e gosto de meu bocado de má lingua; mas não se metta com as vidas das pessoas reaes. Nada de graças! As paredes teem ouvidos e faz muito frio nos calabouços e enchovias.>>

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