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como significado, o que muito tambem concorre para a sua degeneração. Não havendo, pois, uma orthographia geral adoptada, isso fez com que mais se adulterasse a primitiva linguagem.

Assim a lingua escripta pelos portuguezes, tornou-se differente da escripta pelos hespanhóes, formando como que uma terceira quando influenciada, ao mesmo tempo, por hespanhóes e portuguezes e ainda uma quarta sob a influencia franceza. Assim formaram-se não dialectos, mas corruptelas, influenciadas tambem pelo meio, que tomaram os nomes de Tupi, Tupi austral, Guarani e Omagua, que hoje, para muitos, são dialectos e mesmo linguas differentes.

Appareceram assim as Grammaticas, Vocabularios e Cathecismos (1) como os dos Padres José Anchieta (1595), Ivo d'Evreux (1614), Antonio d'Araujo (1618), Ruiz Montoya (1640), Betendorf (1678), Luiz Figueira (1687), Mamiani (1699), e outros, não fallando dos escriptos de João de Lery, Thevet, Marcgraff, Barrère, e ainda outros (2).

Mais tarde a affluencia de Missionarios Jesuitas, Carmelitas, Mercenarios, Capuchos da Piedade, Franciscanos, etc., para o Norte, todos de differentes nacionalidades, com as pronuncias proprias do torrão em que nasceram, ensinando a lingua geral ás tribus Nheengaibas, umas com pronuncias nazaes outras gutturaes, acabou de corromper a lingua que paulatinamente ia-se afastando do tronco commum, a que se formava no Sul, onde, era fallada pelos descendentes de uma só tribu, catechisados por Padres quasi de uma só nacionalidade: a hespanhola e italiana. Uma divizão logo se estabeleceu, devida á influencia da pronuncia hespanhola e da portugueza, vindo a da pronuncia das tribus Nheengaibas e a dos Padres portuguezes acabar a separação, fazendo com que o Guarani não entendesse o Tupi, e vice-versa. Comparando-se mesmo o Tupi de Anchieta (3) com o escripto, quasi cem annos depois, por Figueira (*) nota-se grande differença que attribuo a tres causas pronuncia propria, falla do indio e berço diverso.

(1) O primeiro que pregou em lingua geral e escreveu um Cathecismo foi o Padre João d'Aspilcueta Navarro, companheiro de Nobrega, que morreu na Bahia em 1555, porém o primeiro trabalho publicado em Tupi foi um Pater Noster publicado por Thevet em 1577 na Cosmographie Universelle.

(2) Os Missionarios Jesuitas que mais clamaram contra a escravidão indigena, para afastar o commercio do trato com os gentios, foram os que mais vulgarisaram a lingua geral, que eram obrigados a aprender, pelo que lhes foi depois prohibído, pela Provisão Real de 19 de Outubro de 1727, de continuarem a propagação d'essa lingua e se lhes obrigou a ensinarem sómente o portuguez.

(3) O Rev.do P. José d'Anchieta nasceu em Teneriffe, uma das Canarias, a 7 de Abril de 1534; entrou para o Collegio dos Jesuitas em 1551, chegou no Brazil a 13 de Julho de 1553, foi para S. Vicente em 1554, ordenou-se na Bahia em 1556; passou para o Espirito Santo em 1578 e morreu em Riritiga a 9 de Julho de 1597.

(4) O P. Luiz Figueira nasceu em Almodavar, no Alemtejo, em 1575; entrou para o Collegio de Evora a 1592; veio como Missionario para o Brazil em 1602; partio para o Maranhão a fundar as missões a 5 de Janeiro de 1607; escreveu a sua Arte de Grammatica da lingua brazilica em 1615; em Maio de 1636 voltou ao Pará, seguio para Portugal em 1637 e morreu trucidado pelos Aroans de Marajó a 6 de Julho de 1638. Tendo naufragado na bahia do Sol, defronte de Collares, andou em uma jangada por espaço de 7 dias, vindo a ser martyrisado na ponta meridional da ilha no dia 29 de Julho.

O thaumaturgo da America era hespanhol, de origem biscainha; o martyr dos Aroans, portuguez, de Almodavar, bispado de Evora; o primeiro escreveu e representou os sons que ouvia iufluenciado pela orthographia portugueza, dos Guayanazes, Tamoyos (1); o segundo já com a orthographia modificada pelo influxo Camoneano e da renascença, escreveu tambem ao que ao ouvido portuguez lhe soava pela falla doce do Tupinambá. O Tupi de Anchieta ressente-se do hespanhol, como o de Figueira tem resaibo portuguez. O Tupi d'aquelle é o élo que prende o Guarani de Montoya (2) ao do fundador das Missões do Maranhão. Além do accento hespanhol ha o cunho impresso pela phonetica das differentes tribus, cujo fallar representa.

Anchieta escreveu fallar que aprendeu dos Guayanazes, Tamoyos e Tupis; Figueira o dos Tabayaras, Potyguaras e Tupinambás propriamente ditos e Montoya o dos Guaranis, Payaguás, Charruas, etc.

Foi em Piratininga, hoje capital de S. Paulo, pelos annos de 1554 a 1545, quando Regente do Collegio que fundára e missionando os Guayanazes, que escreveu para uso de sua aula a Grammatica da lingua mais usada na costa do Brazil, mas que só em 25 de Setembro de 1594 teve licença para se imprimir e vio a luz da publicidade, dous annos antes de sua morte, em 1595.

Os Guayanazes estendiam-se pelo littoral da Capitania de S. Vicente, desde Angra dos Reis até Cananéa, occupando um espaço de mais de 50 legoas, sob o mando do celebre Tebyriçá, que combatia os seus inimigos visinhos Tamoyos e Karijós, só pacificados em 1563 e Payaguazes e Guaranis, que se estendiam até o Paraguay.

A pronuncia dos Guayanazes era differente da dos Chipianãs, Papanazes, Kaetės e Tupinikins, com os quaes mais tarde esteve Anchieta e entre os quaes em Reritigba entregou a pureza de sua alma á Deus.

Os Guayanazes não pronunciavam a consoante final das palavras, assim diziam acê, por acem, ayû por ayur, o que ainda hoje os Guaranis o tem por costume fazer, tanto que pronunciam ká, tú, kuá, nheen, por kab, tub, kuar, nheeng, etc., assim como para o adjectivo numeral um tinham os Guaranis peteê, os Guayanazes oyepe e os Tupinambás yepé.

No Norte pronunciavam claramente as consoantes finaes e diziam ayur, kuar, vindo o vicio portuguez accrescentar sempre uma vogal ás palavras

(1) Dou aqui uma amostra da escripta de Anchieta, por onde se vê que quem assim escrevia deveria pronunciar o Tupy não como hoje se escreve :

«El Padre Manoel de Nobrega êbio al hermano Pero Correa a descobrir los Iuirazaras: y tăbien ania otra cosa de mucha importancia que auian de hazer que era procurar passada a unos castellanos de calidad que con sus mugeres nobles y delicadas aportaron aqui y endo ala ciudad del Pargay que es subiecta al Emperador, etc., etc. »>

(2) O P. Antonio Ruiz Montoya nasceu em Lima em 1583, entrou para o noviciado em 1606 e depois de ter missionado no Paraguay morreu em 1625.

terminadas por consoantes, o que originou a actual pronuncia, como ayure, kuara, etc.

Por aqui se vê que as differentes tribus tinham sotaques e pronuncias diversas, sendo mais gutturaes as do Sul e mais nazaes as do Norte. Ainda hoje é mais doce a pronuncia do Tupinambarana do que a do Paraguayo, como tenho muitas vezes comparado, entre homens e mulheres com que me tenho entendido.

Do Sul para o Norte havia e ha uma nuance, permitta-se-me o gallicismo, que unidas as pontas Norte e Sul, sem as graduações, intermediarias, muito difficil é se vêr, em muitas palavras, a mesma de que se trata sem cabedal da corruptela,

se fazer

Comparando os escriptos de Anchieta, Montoya, Figueira, Araujo, e Betendorf, e vocabulario Portuguez Braziliano () vêm-se claramente as differenças, que só se originam das pronuncias que formam o tupi moderno, ou nheengatú. A influencia do cunho local, obrigada pelo meio em que existiam completou a separação, que mais tarde de decadencia em decadencia chegou aos tempos modernos.

O que se deu com o quichua () levado pela inquencia e cunho local, que produzio o Lamana, o yunca, o cauqui, o calchaqui, cuzquenho, (quichua puro) fallado pelos Peruanos antes da vinda de Manco Capac e o quitenho, (o mais adulterado) assim se deu com o Abanheenga.

Nos fins do seculo passado e n'este, principalmente, a adulteração tem sido grande, porque quem aprende a lingua, tapuyo ou branco, já bebe as primeiras gottas em fontes viciadas.

Vicio originado n'aquelle pelos cruzamentos, pelas diversas pronuncias, e n'este pelas diversas orthographias e pela pronuncia dos tapuyos

viciados.

ervar se

No Paraguay é onde se conservou, mais ou menos, pura a lingu a geral, por não ter havido emigração estrangeira, nos primeiros tempos, sc r quasi que a lingua official, não haver cruzamento com outras tribus e consumo pri fallada pelos descendentes dos primitivos Guaranis, que conservam a 1577 na inflexão de voz e a mesma pronuncia, o que não aconteceu na costa afastar Amazonas, onde houve a influencia dos francezes, hollandezes, inglezes, Outubro da dos portuguezes, com o sotaque e pronuncia peculiar a cada provin mente o reino, lidando com indios, como os tapuyos, cuja pronuncia n'uns é gude Abril n'outros nazal e em quasi todos mixta pelos crusamentos.

Por esse motivo no valle Amazonico, a influencia foi maior.

que eram

de 1553,

anto em

8 20

A

(2) Os Peruanos (Incas) pronunciam quicua, kikua soando o kua, como na palavra. tugueza paschoa, como o tenho ouvido d'elles, emquanto que os civilisados, pela pro hespanhola, dizem kitchua.

(1) Sob o titulo Vocabulario dos indios Cayuás, o publicou em 1856 a Revista do Infica da Historico, no volume XIX, a pags. 448 a 476.

para o

o Ma

1637 e

bahia

marty

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grande o numero de missionarios, todos com sotaques differentes, que ensinaram a lingua a tribus nheengaibas, plantando sementes degeneradas em terrenos de naturesa differente, o que deu em resultado uma corruptela geral, não só em pronuncia, como em significados. Estes estenderam-se até aos reinos vegetal e animal, onde os mesmos nomes, em sitios differentes, indicam plantas e animaes diversos.

É claro que um individuo que bem se exprima e escreva o portuguez, bem falle a lingua geral; mas o que para dizer flor diz e escreve fuluru, nuvu destinu, como está escripto nas proas de dois barcos em Manáos, fallando ou escrevendo a lingua brasilica, escreverá jurupari uca, como se vê na taboleta de uma loja da mesma cidade, commetterá disparates, que perpetuados pela escripta para o futuro ninguem saberá lhes dar a origem. Com esta pronuncia, se exprimiram muitos missionarios portuguezes. Ainda conheci um vigario, no Amazonas, que quando commigo fallava eu quasi não o entendia, fallando elle comtudo o portuguez.

Quem como eu, tem percorrido o valle do Amazonas, e ouvido a lingua geral fallada pelos Tembés, Mauhés, Mundurukus, Parikis, Muras, Ipurinás, Makuchys, Uapichanás, Chirianás, Tarianás, Tukanos etc., julga existirem muitas linguas, tal é a differença de pronuncia.

D'ahi vem, hoje, principalmente a corruptela.

O Revd. padre Vieira o disse:

« Por muitas vezes me aconteceu estar com o ouvido applicado á bocca do barbaro, e ainda do interprete, sem poder distinguir as syllabas, nem perceber as vogaes ou consoantes de que se formavam, equivocando-se a mesma letra com duas ou tres semelhantes; umas tão delgadas e subtis; outras tão duras e escabrosas; outras tão anteriores e escuras e mais afogadas na garganta, que pronunciadas na lingua; (1) outras tão curtas e subitas; outras tão escondidas e multiplicadas, que não percebem os ouvidos mais que a confusão. »>

O individuo que ouvir diversos inglezes que puramente não fallem a sua lingua difficilmente, se for escrever o que pronunciarem, escreverá certa e orthographicamente a palavra. Quem dirá, segundo autoridades, que estas palavras: Inaff, mani, ôndorteicar inaf, mâmi, anndarteicar, sejam money, enough,

undertaker?

O costume que tem o brasileiro, levado pela gente baixa portugueza, que em geral foi a que veio outr'ora para o Brazil, de mudar o som das letras do alphabeto portuguez, estendeu-se ao nheengatu.

Assim o foi passado para u; o e para i, como arami por aramé; o y,

(1) Jam lingua sibilando, jam naribus ronchissando, jam dentibus stridendo, jam guthure stripitando, etc.

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cuja pronuncia assemelha-se ao do u francez, que é simultaneamente nasal e guttural, passou a u, a ê, e a i; o b, para u; o v e oh, para co som de mb, para m ou b, etc. e og, quasi foi supprimido, ou passou a ce a b.

O y especial do Abanheenga, que os civilisados, transformando a pronuncia, representam e fazem soar como o j, desappareceu no nheengatu, e invariavelmente soa como i e algumas vezes como dois ii, ou y francez quando entre vogaes.

Assim no valle Amazonico, onde no Imperio só se falla a lingua geral, tapuyo ou indio algum pronuncia o j e quando ouvem a palavra com esta pronuncia riem-se. Só d'elle se servem os civilisados.

Assim dizem iavary, iauapery, iapá, iauary, iauara, e quando se exprimem em portuguez dizem: Ioão, ianella.

O indio tapyia ou nheengaiba pronuncia o j, como ch, assim como o s ou z, que soa da mesma fórma.

Para dizer Joãosinho, diz: Chuanchino; camisa, camicha; janella, chanella, etc., d'onde vem dizerem depois de civilisados chare, deixar, por yare.

Op, tambem, o indio, de certas tribus, muda em b, assim: peixe é beixe, como diz o allemão, d'onde veio o dizer-se hoje pure por bur.

O portuguez de Lisboa pronuncia môcidadê, quê, o brazileiro mucidadi, qui, em geral, o guarani amócuihé o branco amucuici. Os portuguezes transformam de tal fórma a lingua geral, com a sua pronuncia que de muitas palavras hoje difficilmente, se acha a origem como difficil é saber-se que Santarem é Chantaryn e Cordova, é Korthoba, que não são mais do que palavras Arabes passadas por labios portuguezes.

A influencia phonetica não calou tanto, em parte alguma, como no Pará, onde só se ouve dizer: Cum, uro, prua, canua, etc., d'onde vem dizer-se : tapiuca, amu, iku, pepu, etc. E' até notavel a phrase com que os outros provincianos ridicularisam esse modo de fallar. «Ahi vem seu Mutta n'uma canua carregada de cucus de pupa á prua cum um cachurru amarradu n'uma curda».

Em banana, pakob ou pakoba, vê-se a mudança do bem v, pakova, no Amazonas, e do o em u, pakua, no Pará.

Essa lingua adulterada é que conservou o nome de nheengatú no valle do Amazonas.

Em geral, as palavras abanhêengas são aportuguezadas, no nheengatú, isto é, no fim das palavras, acrescentam alguma vogal, como já o disse e é costume peculiar a varias provincias de além mar.

Constantemente ouvimos dizer amare, casare, mandare, ire, fazere, etc., por amar, casar, mandar, ir, fazer, etc., e quando se expressam na lingua

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