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Alvaro Teixeira de Macedo.

67.

Exerptos do Canto ultimo d'A festa de Baldo.

a) Introducção.

Já que os rijos boléus de má ventura,
Até, por fim, a porta me encerráram
Do templo da justiça, rasga ousado
Engenho meu, caminho triumphante,
Por meio das fileiras indiscretas
Daquelles que a fortuna caprichosa,
Cega sem tacto, p'ra seus fins protege.
Eu, que de tal senhora não recebo
Mil favores, que a vejo dar aos outros,
Que tão mal concebi suas promessas,
Que lancei pelas geiras do futuro,
Sem proveito, sementes d'esperanças,
Pretendo que meu nome, ora esquecido,
Meu nome, que o poder tão mal afaga,
Viva longo nas aras do conceito,
Talvez no coração da minha gente;
Viva sempre seguro na memória
Daquelles que applaudírem meus esforços.
Eis a sorte feliz que tanto anhelo,
E o maior galardão porque trabalho.
Eis o forte incentivo que, em meu peito,
Faz nascer este amor do imaginario,
Ésta nobre missão de ser poeta,
Creando pelo mundo novos entes,
Novos homens e coisas apraziveis,
Que se tornam reaes pela memória,
Que vivem pela terra em tal certeza,
Qual vive com a materia a sombra della.

b) Os convidados da festa.

Já no festivo solho percorriam
Numerosos senhores convidados,

Louvando a bella ordem e elegancia
De tudo que seus olhos avistavam.
Com igual sentimento várias damas,
Formosas no semblante ali vagavam,
Concertando engraçadas seus vestidos,
E quer nas vozes, quer nas várias côres,
De araras lindo bando pareciam,
Soberbas dando ao sol as pennas de oiro.
Em pequenas distancias, a pé firme,
Vários grupos ficáram reunidos,
Conversando, entre si, devidamente.
Se o thema contemplado era sciencia,
Ou arte rasoavel, definida,
Aquelles que falavam pareciam
Circumspectos, civís e comedidos,
Ouvindo com attenção e cortezia,
Cedendo, quando a força do argumento
Continha convicções bem ponderadas.
Se o assumpto, porém, era politica,
Vaidosa profissão de certa gente,
Que se occupa do Estado, e do Governo,
Não sei que geringonça de máu toque,
Se ouvia proferir de muitos labios,
E não sei, duvidoso, como pinte
O complexo de frazes, e sentenças,
Dos grandes palavrões, da muita audacia,
Dos ares, e donaires de tal gente.
Gente que tanto fala, e pouco escuta,
Gente, que escuta mais, do que devêra,
Gente, que mais esquece, do que lembra,
Gente inconstante e má que aos povos hoje
Umas vezes dá c'rôa soberana,

E mil outras condemna á vil desprezo;
Gente, que até dos thronos vai fazendo
Náus de viagem, das rainhas fusos,
E dos reis seus discip'los de oratoria!...
Gente, emfim, que p'ra tudo é convidada,
E que Baldo pedio fosse ao festejo.

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c) Queixa de mestre Berto.

Maldita estrella nossa, clama Berto, Onde iremos parar com taes mudanças?

Qualquer que seja o bem que á patria venha
Desta rusga infernal agora em campo,
Deviam têl-a feito ha quinze dias,
Ou então adial-a p'ra mais tarde,
Que o nosso Apollo assim ficára salvo:
Eu te odeio, ambição de baixo intento,
E vós, ó patriotas de taverna,
Ó Grachos de comedia, vís escravos,
Vosso deus e senhor chama-se

oiro

Vosso mestre não foi Cesar clemente,
Nem Augusto sagaz, correndo ao mando.
O heroe que imitais é Catilina,

Mâs, como elle, achareis forte Petreio,
Que vos córte a carreira fatricida!
Adeus, bosque gentil! flores do campo!
Adeus, Baccho e Pomona deleitosos!
E vós, bello perú, leitão intacto,
Fofos pasteis, aureas frigideiras,
Ficareis para pasto de guilhotes.

Que deshonra p'ra vós.... sereis comidos
Por homens esfaimados sem fineza,
Que com carne, e feijão foram contentes!
Oh! meu rico banquete adeus p'ra sempre,
Minh'alma aqui vos fica, eu levo os queixos!"...

Francisco Bernardino Ribeiro.

68.

Epistola.

É natura nos seus passos uniforme,

Nem chega ao topo quem não sobe a escada.

A aguia pequenina, quando quebra
Com o debil biquinho a casca do ovo,
Implume se appresenta á mãe cuidosa;
Não se ergue logo ás ingremes alturas

Do firmamento azul; nem desce á terra,
Qual raio ardente arrebatar a preza,
E arrancar-lhe co'as garras a existencia.
Cria co'o tempo forças, abre as azas,
Qual rio que correndo engrossa as aguas,
Desprega os vôos apoucados ora,

Ora subidos; fita em Phebo as vistas,
E tenta remontar-se até o Olympo,
Pois arde Jove ao lado, e arrebatar-lhe
Um novo Ganimedes: tal o vate
Agora Albano é, depois Elpinos.

Mas não commeces, Montaury, como usa
Gente de Lysia: quadras namoradas,
Insipidas canções, crueis idilios,
Magro soneto, cortesans bucolicas

São todo o esmero dos trovistas nossos.
Imita o Anglo excelso, o Gallo astuto,
E fitando na glória audazes vistas,
Canta a nobre virtude, acções preclaras,
Amor da patria, destemidos feitos;
Na lyra entoa não ouvidas vozes,
Sublime inspiração do estro divino.
Ou se o mundo real, tudo o que existe,
Te não esperta a mente, inflamma o espirito,
Da longa fantasia os campos ara;

Cria dourados palacios, frescas sombras,
Aprasiveis regatos, verdes campos,
Jardins amenos, deleitosos bosques;

Ahi rindo do mundo e das desgraças,
Que rebentam da terra, a par dos fructos,
Abre teu coração a novos seres,

E novas sensações gratas acolhe;

Zomba de invejas, de ambições, de fastos.
D'essa alma, que affeições doces formáram,
Verte rios de gosto, de delicias,

E de sensibilidade amavel, terna;
Esmalte o universo das bellezas,

Em que a mente borbulha; não, não percas
O germen que plantára a natureza.

Ahi tens o bello, o encantador Ovidio,
Que te dirija o passo, ahi tens o Ariosto,

Byron, Sterne, Garrett honra dos Lusos;
Segue seus traços, colhe seus exemplos,
São d'aureas ficções mestres peritos,
Oh! como ideiam n'alma mil venturas,
Glórias sem conto, innumeras delicias.
Oh! como abandonando estes martyrios,
Que no mundo real nos atormentam,
Buscava benignos, placidos prazeres,
A que Urania gentil só nos convida!

Que ditosos que são os que se entregam
Aos impulsos da mente, oh! quão felizes
Os que em delirio seus desejos passam!
Ri para elles o universo inteiro,
Suave sôpro de perpetuo zephyro
Consola os dias, refrigera os ares,
Limpa de nuvens carregada vida,
Descobre no horisonte sol doirado,
Manto de rosas pelo ceo desdobra.

O fantasia, ó doce encanto de homem!
Enlevo d'alma placido e contente!
Quem pudesse gozar quanto nos mostras
Com tuas magas variadas tintas!

Triste realidade da existencia

Quão longe estás de tão amenos sonhos!

Tu nos pintas quaes somos, quaes passamos Esta vida de angustias e tormentos,

Que com ardentes lagrimas começa,

Que com saudosos prantos se termina!

Antonio Augusto de Queiroga.

69.

O Sabiá.

Lyra.

Tudo é silencio no bosque!

Que solitaria mansão!

Sabiá, cantando amores,

Só povoa a solidão,

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