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exprimem e na fórma de que estão revestidos, são elles. Variações, por via de regra harmoniosas e suaves, do thema inexgottavel do amor, eternamente novo e, entretanto, tão velho como o mundo! A outra face do seu talento é sem dúvida a saudade.

O lyrismo pessoal, que immortalizou Lamartine e parecia fatalmente condemnado depois delle á esterilidade; o lyrismo que, para não succumbir á influência materialista e utilitaria do seculo, precisára de, com Musset, Henrique Heine, Alvares d'Azevedo lançar-se nos braços da dúvida e do desespêro zombeteiro de Byron, retemperou-se de novo e, si não tende abertamente para o mysticismo, voltou-se de todo para as placidas fruições da vida íntima, para os sentimentos puros do lar domestico. A poesia lyrica, na falta de assumptos novos para a sua manifestação rythmica, tomou novas fórmas. Para nós os brazileiros o revelador d'essa nova phase, o creador d'essa eschola nova, é Gonçalves Crespo. A elle devemos o novo sangue que corre agora pelas veias da poesia; e á influência salutar d'esse mestre, que todavia não terá ainda tão cedo um cabello branco, ás suas graciosas e originaes Miniaturas deveremos em breve o que nos-prometteu ao partir para a Italia o nosso brilhante e festejado folhetinista dr. Luiz Guima

rães.

Depois que Victor Hugo com seus vôos d'aguia abriu á mocidade que maneja a lyra o caminho das regiões vertiginosas do pensamento, parecia condemnada ao silencio e ao retrahimento a poesia em que primou Gonçalves Dias. Vemos porém que ella vive, cheia de pujança e vigor, procurando apenas modos diversos de manifestar-se, tomando moldes novos para fundir-se.

O livro do sur. dr. B. Machado é um mimo de graça e de sentimento. Ha nelle poesias que não morrerão nunca. Serão sempre lidas com prazer as que têm por titulos: Entre sombras A estrella-Os Anjos -Miserere- A mulher -A fralda da ca-misa - Tu és..., e a que escreveu sôbre uma página de Casimiro de Abreu e denominou tambem - Amor e medo -, vale seguramente tanto como a do immortal cantor das Primaveras, tão cedo roubado ás lettras patrias.

E

Tem comtudo senões o bello livro do sñr. dr. Machado. nem podia deixar de assim succeder, pois são essas poesias as primicias do seu talento. Na quadra de exhuberancia de sentimento em que o auctor as-escreveu, é pouco de esperar que se-deixe de correr empós da borboleta multicor da imaginação, sem se-pensar muito no terreno em que se-corre: sacrifica-se a fórma ao pensamento e não se-tem mesmo tido tempo de educar sufficientemente o ouvido para apreciar como convem a parte musical do verso, cuja melodia metrica vem assim a ser sacrificada não poucas vezes. Na que o poeta intitulou-A familia-sobretudo, nóta-se maior cópia d'esses pequenos defeitos de fórma, que o auctor evitará decerto quando dotar a nossa litteratura com productos novos do seu estro pouco vulgar. O presente volume é a promessa solemne de um outro; são éstas poesias as arrhas do seu futuro como poeta. Quem estreia d'esse modo, não deve parar mais no caminho encetado. Ha nesta sua poesia (A familia), cuja ideia é aliás tão digna e casta e pura e verdadeira, alguns versos agudos, destacados, desemparelhados da competente toada da rythma, que felizmente não se-notam nos outros trechos do seu volume. Os que terminam pelas seguintes palavras - vai mãi - irmã! — pé amor adeus tufão destoam da peça e de todo o livro. Não sabemos si a Arte Poetica os condemna e proscreve da poesia lyrica, sentimental e séria, especialmente dos versos denominados brancos ou soltos, tolerando-os apenas na satyra e nos versos jocoserios o que é incontestavel é que produzem máo effeito e affectam de um modo soberanamente desagradavel o ouvido pela desharmonia que promovem, e é pena que existam no primoroso livro de que nos-occupamos. Os bellos modelos do genero, que o poeta paulista necessariamente terá na sua estante predilecta, sem mesmo os-ir buscar fóra da nossa patria, assegurar-lhe-hão com certeza que temos razão. Cremos até que o visconde de Castilho os-condemnou no seu Tratado de metrificação portugueza como contrarios, pelo menos, ao bom gosto.

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Deixamos de tocar em alguns versos que têm uma syllaba de menos ou que a-tem de mais, e num ou outro que sahiu frouxo ou duro e mal soante, e que se-podem comptar Estas linhas não têm

a pretenciosa ideia de se-arvorar em crítica, nem para estudos d'esse genero temos as habilitações exigidas: são tão sómente a ; expressão do nosso sentir individual, que acha mais que louvar do que condemnar no livro.

As bellezas peregrinas e de fino quilate, derramadas ás mãos cheias pelo volume, que é um jardim de madresilvas do mais puro e delicado aroma, resgatam plenamente éstas leves máculas e fazem pender melancholicamente a fronte do leitor, e mais ainda da leitora, ao terminar a sua leitura. Desejar-se-hia que fosse maior, para mais demorado ser o deleite que elle produz; e si a alma do leitor é um pouco, ou o-foi, de poeta tambem, a traçasinha da inveja (porque o não diremos?) aninha-se nella, e fal-a scismar por longo tempo nesses sublimes e adoraveis nadas, que constituem a poesia e que desafião o sorriso parvo dos materialões do seculo, creaturas aliás inoffensivas e bem intencionadas, que entendem que o que ha de unicamente valioso no mundo é o que se-pode apalpar com os dedos e servir para o conchego da vida...

Seja bemvindo o auctor das Madresilvas, e que não se-deixe dominar do indifferentismo que passa e parece querer invadir tudo; não durma sôbre os louros colhidos, nem tão pouco deixe a sua musa adormecer ao som da musica entorpecedora da epocha. Avante! que é um verdadeiro poeta!

I. de M.

CLAUDIO MANUEL DA COSTA.

[CONTINUAÇÃO (*)]

Depois de impressa no I volume d'estes Annaes a parte biographica do Estudo que vamos fazendo acerca do poeta mineiro, offereceu-nos o sñr. dr. Miguel Antonio Heredia de Sá, illustrado redactor da Gazeta de Campos, ensejo de discutirmos ainda o controvertido assumpto da morte de Claudio Manuel. Não tendo nós encontrado nos escriptores a que nos-soccorremos um juizo seguro e definitivo a esse respeito, limitámo-nos a transcrever o que acharamos dicto por elles. Agora, porém, que temos mais esses esclarecimentos, pedimos venia ao leitor para reproduzir nestas páginas o referido artigo editorial, supprimindo apenas d'elle o que de lisongeiro para a nossa pessoa se-dignou accrescentar-lhe o seu independente auctor, a quem d'aqui duplamente lh'o-agrade

cemos.

« Claudio Manoel, diz elle (15), tem sido calumniado pelos escriptores. Claudio Manoel não commetteu o crime, como elles dizem, de suicidar-se; sua alma era muito grande e nobre para praticar semelhante cobardia. Claudio Manoel foi assassinado na cadeia, sabemol-o de fonte limpa e por testemunho insuspeito.

<«< Em companhia de El-Rei D. João VI emigrou para o Bra

(*) Vid. vol. I. pag. 373 a 387.

(15) Gazeta de Campos n.° 76, de 21 de Dezembro de 1876.

zil um illustre e velho fidalgo portuguez, morgado de Sá, chamado Francisco Joaquim Moreira de Sá. Esse fidalgo tinha uma grande fazenda em Minas, no logar intitulado Santo Antonio do RioAbaixo. Uma vez chegado ao Brazil, em vez de, como outros muitos, constituir-se pensionista do rei, tratou de retirar-se para lá. Era mui influente no Paço, parente proximo do ministro; foi altamente recommendado para Minas. Em consequencia d'isso a sua casa tornou-se o ponto de reunião da elite e melhor sociedade mineira. Um dos que mais a frequentavam era a frequentavam era um cirurgião conhecido pela alcunha de Paracatú; todos o suppunham brazileiro nato; nascêra em Portugal. Foi convidado para a inconfidencia; não entrou porem na conjuração.

« Quando Claudio Manoel appareceu morto, foi incumbido de fazer o corpo de delicto. Fe-lo conscienciosamente, declarando que Claudio Manoel não se tinha suicidado, mas sim que havia sido assassinado. No dia seguinte foi procurado pelo ajudante de ordens do general, o qual lhe disse que fizesse novo corpo de delicto, pois aquelle outro havia sido inutilisado por uma criança, que lhe derramara em cima um tinteiro, e aconselhou-o que o fizesse por outro teor. O cirurgião Paracatu comprehendeu o salutar conselho; fez novo corpo de delicto declarando que Claudio Manoel se tinha suicidado.

<< Isto contou Paracatú em confidencia ao seu amigo Francisco Joaquim Moreira de Sá em presença da filha do mesmo, senhora respeitabilissima, tão conhecida quanto venerada em Campos. Esta senhora foi quem nos narrou o facto, e, se a memoria não nos trahe, tambem o referio, e por diversas vezes, ao sûr. dr. Antonio Secioso Moreira de Sá.

« O dr. Teixeira de Mello, que é de Campos, deve conhecer perfeitamente bem de tradicção o nome venerando da virtuosa fallecida snr. D. Maria do Carmo Moreira de Sá e não póde ignorar que, quando essa snr. asseverava um facto, era inquestionavel, porque pela sua bocca fallava a propria verdade. Conseguintemente, acreditamos que dará algum peso á revelação que acabamos de lhe fazer, e com tanta mais razão nutrimos essa crença, quanto as circumstancias da morte de Claudio Manoel, narradas por esses

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