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pleta do processo, a censura pública para os magistrados injustos, casas e colonias penitenciarias; queria outrosim que o Estado fôsse o unico senhor do solo e só uma propriedade admittia, a do trabalho. A integridade do seu character, o liberalismo de suas idéias angariaram-lhe a estima e sympathia pública. »

Foi commendador da ordem de Christo, Ministro e secretario d'estado honorario, deputado ás côrtes, socio honorario da Academia Real das Sciencias de Lisboa, do Inst. hist. e Geographico do Brazil e correspondente do Instituto de França, &. Deve-se-lhe um numero consideravel de memórias, obras e opus. culos escriptos em portuguez, em francez e inglez (Não em allemão, como diz Larousse), cuja enumeração se poderá ver no Diccionario de Innocencio da Silva, que a-dá com toda a minuciosidade e a escrupulosa fidelidade que lhe é peculiar, bem como a de escriptos de menos tomo d'aquelle eminente publicista disseminados por «liversas publicações periodicas, e, finalmente, o catalogo de escriptos seus reputados inelitos. Nesta última classe estão comprehendidas as Memorias e Chartas, que ora se dão ao prelo e cujo titulo con

servamos.

( Affavel por natureza e accessivel a todos, diz Innocencio di Silva, citando um dos seus biographos, bondoso, modestissimo cheio do espirito de justiça e pandonor nacional, possuiu a estima de quantos o trataram, e a admiração e respeito dos que só o conheciam pelas suas obras, ou pela fama do seu nome. Foi, emfim, um portuguez que todo o mundo civilisado respeitou como sabio, como politico, como escriptor, como publicista, e como homem honrado e de uma probidade immaculada. »

J. Armitage, na sua Plistoria do Brazil desde a chegada da Real familia de Bragança, na pag. 23 da versão feita em 1837 por um brazileiro, depois de historiar os factos occorridos no Rio de Janeiro em 1821 e de que se occupa em suas presentes Chartas Silvestre Pinheiro, diz o seguinte, que julgamos opportuno repetir aqui :

Os Conselheiros do infeliz Monarcha (d. João VI), e esper cialmente Silvestre Pinheiro Ferreira, Ministro da repartição dos Estrangeiros, haviam já previsto a direcção que brevemente tomarião os negocios do Brazil. Calculavão elles que, habituado com a presença do governo local, este paiz mais se não sujeitaria aos inconvenientes, e ainda menos á humilhação de outro collocado além do Atlantico. As Côrtes irritarião esse ciume, cujo germen se desenvolvia, e já a separação era considerada inevitavel, se á sua chegada a Portugal El Rei não conseguisse encerrar as sessões da Legislatura Portugueza. »

Sentimos não poder, como complemento a ésta noticia preliminar, informar aos leitores de quem sería a pessôa a quem eram enderessadas éstas chartas. Sería ao conselheiro Filippe Ferreira de Araujo e Castro, que Innocencio da Silva diz amigo do finado e por muitos annos seu inseparavel companheiro? Não o-pudemos saber, nem essa conjectura terá consistente fundamento, si se considerar que o auctor não daria decerto o tractamento cerimonioso de v. s.o a um amigo íntimo, em desabafos familiares, emb’hora politicos, como são as presentes chartas.

No manuscripto que temos á vista vem a seguinte nota, escripta por lettra diversa da do auctor no alto da primeira charta :

« Memorias para a Biographia 1.“ série com 12 cartas autographas : tendo-se perdido a folha 50 que contiqha a duodecima carta, devia ser o numero total das Cartas 13. »

A 1.4 e 3.° series d'ellas são por lettra de Silvestre Pinheiro e a 2.o por cópia com todos os visos de authentica. Faltam as notas a que (pela lettra a que nos-referimos) se-allude em algumas d'ellas.

São ao todo 28 chartas.

Teixeita de Mello.

MEMORIAS E CARTAS BIOGRAPHICAS.

PRIMEIRA SERIE.

CARTA I

Meo Am.° e S.' — Tem V. S.* m.ta razão: nem eu me felicitava da m.“ nomeação para os Estados Unidos porque

desconhecesse a difficuldade de huma tal Missão no momento em que acaba de rebentar entre nós huma Revolução. Se escrevi a V. S.* que este Despacho me era particularmente agradavel nas actuaes circunstancias, he porque elle me proporciona os meios de sahir decorosamente deste Paiz e desta Corte antes daqui se verificar a explosão que ha muito se receia, e que agora, depois de feita a Revolução em Portugal, he impossivel se não realise dentro em muito pouco tempo. E he tanto maior este receio, quantos sam desvairados e até •diametralmente oppostos os muitos Pareceres que depois das noticias chegadas de Europa tem feito subir á Presença de S. Mag.do Pessoas de todas as classes e de todas as graduações que o mesmo Senhor se tem servido de querer ouvir sobre este tão importante assumpto.

Huns figurão a Revolução acontecida em Portugal, como hum acto de tão tresloucada temeridade, que não hesitam afiançar a El Rey que antes de poucos mezes e porventura em poucos dias, o Povo acordando do assombro em que naturalmente ficou no primeiro repente de huma tão inesperada concussão, obrigará os Autores della a virem implorar perdão e misericordia aos pés do Throno. Mas pouco certos desta sua asseveração accrescentam que em todo o caso se deve invocar a cooperação das demais Potencias, para suffocarem o incendio que não só tem já lavrado por toda a Peninsula da Hespanha; mas que quasi ao mesmo tempo ha levantado lavareda na de Italia e no Archipelago, ameaçando devorar toda a Europa.

Nesta conformidade se tem com effeito expedido ordens e instrucções aos nossos Ministros junto as differentes Côrtes: e parece se preparam quanto o apuro dos recursos deste Estado o permittem, a empregar todos os meios da força para destruir em sua origem o que o Ministerio antolha como empreza de huma mera Facção atrevida mas pouco numerosa.

Outros pelo contrario dando inteiramente por perdida a causa da Monarchia em Portugal, aconselham a S. Mag. de como desde annos a esta parte não cessam de intimar que abandonando aquelle, tão desgraçado, segundo elles se exprimem, como insignificante pedaço de terra, applique todos os seus Reaes cuidados a organisar neste vastissimo continente hum Imperio que pela sua extensão, pela variedade de seus climas, e pela incommensuravel riqueza de suas producções não pode deixar de vir a ser dentro em poucos annos o mais florente de quantos se conhecem na IIistoria.

Hum pequeno numero de homens em cuja opinião os successos da Revolução Franceza offerecem o mais adequado prototypo de quantas depois della tem rebentado nos differentes Estados da Europa, ouvio com tanta admiração o menospreso com que huma parte do Ministerio encara a Revolução de Portugal, quanto foi o horror que lhes causou ver que em peitos Portuguezes possa caber a revoltante idea de despedaçarem com o ferro estrangeiro o seio daquella mesma Patria que lhes deu o ser.

Mas entre estes mesmos homens moderados he grande a discrepancia dos votos; porque huns aconselham a S. Mag. de que deixando o Brazil confiado a huma Regencia, como a que em 1807 ficou encarregada do Governo de Portugal, regresse quanto antes a aquelle Reyno, afim de alli dirigir os progressivos successos da Revolução e manter os Direitos da sua Real Coroa: Outros sam de parecer que commetendo este ciudado a S. A. R. o Principe Herdeiro, S. Mag. de (dizem huns) se applique a impedir que no Brasil se não faça innovação emquanto nas Cortes de Portugal senão ultimar o edificio da nova Constituição de toda a Monarchia. Entretanto que outros concordando em que S. A. R. he que deve ir presidir aos trabalhos do Congresso Nacional, sam de parecer que pela sua parte hum Congresso particular do Brasil, debaixo

mesmo

da immediata direcção de S. Mag de formalise uma Constituição que lhe seja apropriada, bem que conforme aos principios que servirem de base ás Instrucções que S. A. R. houver de levar para de accordo dirigir os trabalhos das Cortes Geraes da Monarchia em Lisboa.

Porem o maior numero dos que nutrindo sentimentos de patriotismo para com Portugal se horrorisam da idea de chamarem sobre elle o ferro e o fogo dos Husares e Cosacos: ao tempo que se indignam de ouvir aconselhar ao Soberano que abandomne a sua propria Patria aos horrores de uma Revolução toda democratica ou o que val o mesmo toda anarchica e dessoladora; sam de voto que S. M. confiando ao Principe R.' a Regencia do Brasil com o principal encargo de obstar a que nelle rebentem os germes de Revolução que he impossivel dissimular que nelle existem e fermentam em mais de hum sentido ; se transporte com toda a sua Corte á antiga Séde da Monarchia: na certeza de que á sua chegada ou se achará já consumada a obra da Reformação Politica do Estado, ou sem consideravel demora se ultimará, conforme aos Direitos da sua Real Coroa, como inseparaveis que sam dos verdadeiros interesses da Nação.

Parece-me ouvir-lhe perguntar E qual foi nessa diversidade de Pareceres a sua opinião ? —

Até agora (não obstante ter tido quasi todos os dias a honra de beijar a Mão a S. Mag.(c) ainda me não deu signal de querer saber o que eu penso sobre taes assumptos. Mas se me he licito conjecturar o motivo deste seo silencio, persuado-me que provem de S. M. saber, vai já em scis annos, tudo quanto hoje que se acham realisados os acontecimentos que entam lhe predice, eu poderia dizer sobre a materia. Entam julgou S. Mag:do ou que taes predicções se não viriam a cumprir, ou que os meios por mim apontados para se prevenirem os males que eu receava, eram insufficientes ou impraticaveis. Qualquer que tenha sido destes differentes conceitos o que S. M.de formou do trabalho que de sua ordem então emprehendi e tive a honra de levar ao Seo Real Conhecimento; o que se pode concluir he que elle lhe pareceu inadoptavel. Provavelmente ainda hoje o capitula da mesma forma:

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