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IX

«Áquella parte fomos, onde entrou
Por verificador um Sanct-Iago;
Geta, que os traficantes ajudou
A fazer ao thesouro grande estrago.
D'aqui quando o remendo se deitou,
Tornámos a cortar o immenso lago
Da gram Pouca-Vergonha, e assi deixámos
O covil quasi como o encontrámos.

X

«Por aqui rodeando a larga parte
Da Praça do Cavallo surprendente,
O Sup❜rior Conselho que reparte
Por todo Portugal a parvoa gente;
A direita Justiça, por cuja arte
Sempre libras apanha ao innocente
Que cáe em suas mãos, e que se atreve
Graças pedir a quem libras recebe:

XI

«As Publicas passámos, povoadas
Das gentes, que no exercito viviam,
Que de poucos vintens sendo privadas,
A credito comiam e vestiam.

Tu só, tu cujas obras tão safadas
Os móres brutos té de as ver fugiam,
Tornada já de todo uma potrea,
De rapazinhos doutos te vês cheia.

XII

«Sempre emfim para o Caes a aguda proa,
No grandissimo golfam nos mettemos,
Deixando os araminhos de Lisboa,

Co'aquelle a quem de Besta o nome démos;
O outro nicho, creado assim á tôa,
Dos pezos e medidas, que alli temos,
Ficou, co'o grande gafo que tomou
O nome d'um que os lusos caurinou.
XIII

«Alli a choça existe do Mondongo,
Querido dos fraldeiros e bemquisto,
Onde o trabalho é mui pezado e longo,
Mas que inda, Deos louvado, não foi visto.
Por este atascadeiro emfim me alongo,
Onde a asneira e o saber compõe um misto,
Tendo o estranho pagode já passado,
Onde o Judas se vê encapotado.

XIV

«Já descoberto tinhamos diante

Lá no grande hemispherio a bella estrella,
Desprezada da gente, que ignorante
Alé aqui esteve incerta d'ella:
Vimos a parte menos rutilante,
E por causa dos Settes menos bella,
Do naval polo, onde inda se não sabe
Se o roubo é grande, e a quem proveito cabe.

XV

«Assi passando aquellas regiões,
Por onde tem passado muito tolo,
Protegendo sómente os patifões,
E estupidos que gera o luso solo;
Por calmas, por tormentas, e oppressões,
Que soffre quem guilhou com summo dolo,
Vimos as bolsas, a pesar do povo,
Encherem-se a fartar por modo novo.

XVI

«Contar-te longamente as vergonhosas Cousas, que certos homens não entendem, Empregos por dinheiro, escandalosas

Acções, que o povo todo em raiva accendem;
Reformas vis, emprezas perigosas,

Honras mil aos que a lusa terra vendem,
Não menos é trabalho, que grande erro,
Ainda que tivesse a voz de ferro.

XVII

«Eu proprio casos vi, que cavalleiros,
Que tem por mestra a longa experiencia.
Contam por certos sempre, e verdadeiros,
Não os julgando só pela apparencia :
E que os que são grandissimos brejeiros,
Hypocritas, ladrões por excellencia,
Beatos refalsados e fingidos,

Julgam falsos, ou mal comprehendidos.

XVIII

«Vi claramente visto o lume vivo,
Que causou na cidade assombro tanto,
Em lugar onde está o Luz esquivo,
Que tem pessima cara para santo.
Não menos foi a todos excessivo
Desgosto, e cousa certo de alto espanto,
Ver um santo, do mar do estado, insano
Sorver milhões ao povo lusitano.

XIX

«Eu o vi, certamente (e não presumo
Que a vista me enganava) levantar-se,
Erguer-se pouco a pouco, e pôr-se a prumo
Certo tisico em côrtes a chorar-se :
D'aqui depois levado ao polo summo
Se via, tão magrinho, que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia:
Alma do outro mundo parecia.

XX

<Ia-se pouco e pouco empertigando,
E mais que o Ribeirinho se engrossava;
Aqui descae, aqui se aleva, quando
Os golpes grandes de ouro em si chupava:
Com a enchente se estava regalando;
Em sua casa a burra se atestava,
Tornando-se devéras carregada
Com o cargo da chelpa em si tomada.

XXI

«Qual galleguinho Antonio se veria
N'uma sociedade (que imprudente,
Conhecendo-o de mais o recebia)
Roubar, com dados falsos, toda a gente:
Rindo-se do que d'elle se diria;
Alli se locupleta grandemente:
Tal o sarrafaçal pilhando, augmenta
A si, e á turba negra que sustenta.

XXII

«Mas depois que de todo se fartou,
Mudando a scena, a casa se recolhe,
E a gosar as Vaquinhas começou,
Porque a vida sem tal meu fructo colhe:
Poupando, foi-se o parne que roubou ;
Mas de alapardar mais ninguem o tolhe.
Vejam agora os sabios na escriptura,
Que segredos são estes de natura.

XXIII

«Se os antigos philosophos, que andaram
Tantas terras por ver segredos d'ellas,
Sucios iguaes aos nossos encontraram,
Iguaes poucas vergonhas e mazellas;
Que largas escripturas que deixaram !
Que influição de signos e de estrellas!
Que estranhezas, que grandes raridades!
E tudo sem mentir, puras verdades.

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