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LXIX

«D'esta gente dinheiro algum tomamos E outras bagatellinhas; mas comtudo Desmanchar a igrejinha procuramos, Porque o povo cançára de estar mudo. Ora vê que estrategias procuramos P'ra nos livrarmos d'este bando rudo, Que apezar de guilhote sem igual, Gratificava a todos menos mal.

LXX

«Ora imagina agora quão zangados
Andariamos todos, quão perdidos,
De sustos, de brigar amarrotados.
Por todos esses nichos conhecidos:
E do esperar comprido tão cansados,
Quanto a encavacar já compellidos,
Por obras dos Casaes, de qualidade
Inimiga de nossa sociedade.

LXXI

«Tudo já contra nós no parlamento;
A nação a gritar: «morra o tyranno»
E além disso nenhum contentamento
Que se quer da esperança fosse engano :
Crês tu que se este nosso ajuntamento
De larapios não fôra tão vesano,
Que durára elle tanto obediente

Por ventura ao gram Nuno, seu regente?

LXXII

«Crês tu que já não foram levantados
Em geral contra mi, se os resistira,
Fazendo-se Sampaios, obrigados
De desesperação, de fome, de ira?
Grandemente por certo estão provados,
Pois que nenhum trabalho grande os tira
D'aquella Israelita alta indecencia
Que busca a sua, só, conveniencia.

LXXIII

«Notando que um grandissimo vadio
Queria ver perdida a nossa armada,
Tivemos de fazer certo desvio,
Mas isto de maneira encapotada;
Porque o tal mocanqueiro de assobio
Se nota que sabemos da cilada,
Com certeza nos punha a cara banda,
Como fez a um lambaz que já não manda.

LXXIV

«Esta passada, logo o subtil leme
Encommendado ao grande Vaganáo,

Para onde dos truões se mostra o creme
A proa inclina da soberba náo:

Quando indo, o coração, que espera e teme,
E que tanto fiou de um Zé maráo,
Do que esperava já desesperado,
Foi de uma novidade alvoroçado.

LXXV

«E foi que um sybarita muito esperto,
Aquem os taralhões obedeciam,

Nes procura, e com modo franco e aberto
Declara o que os seus grulhas pretendiam.
Alegria mui grande foi por certo
Acharmos boas almas que queriam
Valer-nos; e por tanto combinámos
Desde logo os trabalhos que mostrámos.
LXXVI

«Saracotes são todos, mas parece
Que com gente melhor communicavam ;
Intelligencia não se lhes conhece,
Por uma algaravia que fallavam;
E com certa coisinha a que me esquece
Agora o nome, todos se mostravam;
Excepto esse mamifero, esse Sphinge,
Que bebe o que de roxo os beiços tinge.

LXXVII

<Pela cha linguagem em que fallam,
E que a troça dos Tanas bem entende,
Dizem, que em geral todos nos igualam
Em força, e que nenhum d'elles se vende:
Mas por certo motivo em que se callam,
E por ver que hoje em dia o que mais rende,
É andar co'os Lobinhos de folia,

Decidem nossos ser por maioria.

LXXVIII

«Mui grandemente aqui nos alegramos
Co'a gente, e com as novas muito mais:
As maneiras que em todos encontramos
Para nós foram optimos signaes:
Tres habitos alli logo entregamos,
Que p'ra recompensar serviços taes
Trazia alguns: oh como é rico e bello
Ter a gente na mão faca e cutello !

LXXIX

«Com elles nós tecemos os pausinhos
P'ra darmos nos contrarios rijas tundas,
E estudamos os mais faceis caminhos
P'ra nos livrarmos de questões profundas.
D'estes amigos novos e ladinhos,
Com mostras aprasiveis e jucundas,
Houvemos sempre o seu assentimento,
Limpos de reservado pensamento.

LXXX

«Mas não foi a esperança grande e immensa,
Que n'esta gente houvemos, liza e pura
A alegria; mas logo a recompensa
A Rhamnusia com nova desventura.
Assi no ceo rotundo se dispensa;
Com esta condição pezada e dura
Nascemos; o prazer não se completa
Porque logo o pezar lhe vem na alheta.

LXXXI

«E foi que por intriga crua e feia,
A mais que eu nunca vi, se nos safaram
Alguns, e procurando outra alcatea,
Sabujos, aos contrarios se juntaram.
Quem haverá que sem o ver o creia?
Que tanto os sancarrões sanfoninaram,
Taes cousas prometteram de valia,
Que ninguem, certo, resistir podia :
LXXXII

«E decididamente, porque o bruto
Com lindas cores tudo lhes pintava :
Não tinhamos então Vieira astuto,
Sant'Anna barambaz menos se achava;
Mas tudo na oratoria pouco instructo,
Com grande lenga lenga procurava
Afastal-os da fuga; e bem convinha,
Pois de tal grande perda nos provinha.

LXXXIII

«Emfim que nesta triste conjunctura
Fugiram-nos p'ra sempre os companheiros.
Que na estrada do bem e da lisura
Tambem foram comnosco aventureiros.
Como aqui é venal a creatura!

Quaesquer quatro vintens, quaesquer ligeiros

Empregos, assi mesmo como aos taes,

Comprarão os da Lysia mais leaes.

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