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CII

Tambem n'estas palavras lhe mentia,
Como o dever e a honra o obrigava;
Que ninguem, com certeza, approvaria
Uma cousa que tanto erro levava.
O Lobinho que em tudo o amigo cria,
Pressuroso a canhola preparava:
E em sua facha exotica, traidora,
Reluzia um sorriso de senhora.

CIII

Estava a turba em pezo desesp'rada
Por ver do relatorio a vilania:
Alguns lesmas faziam cacoada,

N'outros mui grande raivà transluzia.
«Quem me déra ver essa excommungada
Obra, da opposição alguem dizia ;
Porque informar-me quero da verdade;
Quero ver junta a asneira co'a maldade.»

CIV

E sendo então o Lobo mau chegado,
Estranhamente ledo; porque espera
Ver alli tudo muito aquietado,
Como o bom conselheiro lhe dissera :
O caderno mostrou achavascado,
E disse, que o trabalho seu todo era;
Que com toda a franqueza lhes declara,
Que de ninguem informações tomara.

CV

Todos d'elle se mostram muito amigos;
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Oh grandes e gravissimos perigos!
Oh caminho de Caco sempre incerto!
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a cousa tão pouca segurança !

CVI

No mar tanta tormenta, e tanto damno,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanto roubo, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um Lusitano
Que não tem a vergonha inda perdida?
Que não se arme contra elle o mais pequeno

Dos Comilões, que gera este terreno?!

ARGUMENTO DO CANTO SEGUNDO

Seguindo os impulsos do seu magnanimo coração pretende o Chefe dos Probos destruir os Traficantes: dispõe-lhes ardis debaixo de fingida amizade: apparece a Carlota ao Gram Zé e intercede pelos Medalhões : elle lhe promette favorecel-os, e lhe refere, como em prophecia, algumas caranguejolas dos mesmos: em sonhos apparece um Genio maligno ao Lobo, e lhe adverte que evite o perigo que lhe está sobranceiro; levam ancoras, chega a Desfaçatez, 'cujo rei o recebe e hospeda benignamente.

OUTRO ARGUMENTO

Dar o Chefe leal o fim prepara
Aos Traficantes com mortal engano :
Apparece a Carlota, a frota ampara,
E a fallar sobe ao Gram Zé deshumano:
Este os casos futuros lhe declara:

Apparece um máo Génio ao Lobo insano:
Chega a Desfaçatez a impura gente,
E o Rei torpe a recebe alegremente.

CANTO SEGUNDO

I

Já n'este tempo o adultero pateta,
Que as melhores esp'ranças vai nutrindo.
De chegar breve á desejada meta

De Sauro, onde imagina um goso infindo,
Co'os outros ratazanas de secreta
Conversava, esfregava as mãos sorrrindo,
Quando os da ratoeira começaram

A olhar para o que os lobos lhe entregaram.

II

D'entre elles um que está encarregado

De lhe atirar sem, dó, assi dizia :

Ó petiz valoroso, que cortado

Tens do alto Peculato, a farta via,
Tudo da opposição alvoroçado
Da vinda tua, tem tanta alegria,
Que não deseja mais que agasalhar-te;
(E agora aqui p'ra nós a pel' tirar-te).

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