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III

E porque tudo está mui desejoso
De examinar essa obra nomeada,
Te roga que não 'stejas receioso;
Porque o que se disser, não vale nada.
O que temos visto é muito engenhoso,
A logração está bem disfarçada;

Tu, meu pandilha, em tão grande alcavala,
Has de apanhar maquia em grande escala...

IV

Do emprestimo tambem grossa fatia
Te resultou, insigne meliante:

De todos os que has feito, qual seria
O que te não rendeu chelpa bastante?
Oh Lobo da minha alma, és hoje em dia
Marcado por finissimo tratante;
Acredita, meu grande animalejo,
De assim comer bastantes tem desejo.

V

O Lobo então sorrindo-se responde,
As palavras do melro agradecendo,
E diz, que para não ouvir se esconde,
Pois alguem alli não lhe conhecendo
O genio, tocar póde um ponto onde

A cousa é séria; e porque em fim, temendo
Certo varão muitissimo illustrado,

Entende o pôr-se a andar mais acertado.

VI

Oh que maldita sorte a d'esta terra!
Valha-me S. José! Quem tal diria!
Que o bonifrate, o lorpa que mais erra,
São aqui os que tem maior valia.

O rossim que maiores couces ferra,
Tendo acções d'esta, e d'outra companhia,
É nobre, generoso, alto, excellente,
E tão sabio que até pode ser lente!

VII

Veem-se parvos, estupidos chapados,
Sem credito, imprudentes, vergonhosos,
Nos melhores lugares repimpados,
Actos mil praticando escandalosos.
Veem-se outros, pobresinhos muito honrados,

Com 'studos, do trabalho desejosos,

Famintos, mal vestidos, sem que sejam
Attendidos no pouco que desejam.

VIII

Um seringa se vê de cara á banda,
Que ha pouco tempo más noticias dava,
Um capacho da gente mais nefanda
Da terra, que o ameno Tejo lava;
Vê-se o ephem❜ro Carrilho, que demanda
Da parvoice a posição mais brava,
Fugir de alguns rapazes instruidos,
De quem favores teve immerecidos.

IX

E porque? Porque os taes não apanharam
Posta espigada, pelo que viviam
Apouquentados; mas jámais andaram
Feitos rafeiros cães dos que comiam.
Estes taes, que tambem o desprezaram,
(Peço-lhes, ó leitores, que não riam)
Conheceram já tarde este espoleta,
Que traduz chapelet por chapeleta.

X

Mas deixemos a grande nullidade
Do Carrilho; pois é tempo perdido
O fallar de chués que, na verdade,
Não valem cinco réis de arroz fingido.
Vamos aos mazorraes de meia idade;
Aos bisnaus de bigode retorcido;
E a esses grandes casquilhos de patente,
Que, sem saber, em tudo mettem dente.

XI

A cousa está bem mal asigurada;
Do quadro começar vou a pintura;
Vereis soberbamente debuxada
Sobre tela finissima, essa escura
Chronica verecunda da malvada

Gentinha a quem Erebo em manha apura;

D'esses acatalepticos barões,

Descendentes de estrenuos bordegões.

XII

Ficareis, com certeza, surprendidos
Do que vos vou contar: d'antes julgava
Que o numero dos muito corrompidos
N'esta terra a tal ponto não chegava ;
E que os poucos que havia tão subidos
Não eram na gamberria; assim pensava;
Porém, hoje acredito firmemente,

Que tudo quanto é rico é impudente.

XIII

Veem-se homens com serviços mil prestados
Á patria, lizos, não com fingimento,
Rotos, nus, e de todos desprezados
N'esta terra, onde os contos dão talento!
Veem-se outros, papelões affeminados,
Só tendo no peccado o pensamento,
Que nunca ao inimigo vendo a fronte,
Recebem honras e dinheiro a monte.

XIV

Um, do bicudo circulo chamado!

É verdade!.... O' meu nobre e grande amigo!
Peço perdão, havia-me olvidado

De Usted. Que talentaço! Que inimigo
Do Progresso, que tanto ha estudado
P'ra provar que cevada não é trigo:
Então, não me esquecia a boa praça,
E de cavallaria!.... Olhem qne graça !

XV

Se fossem vivos esses que te viram
De pé descalço, e mergulhado em pranto,
Quando prezo p'r'aqui te conduziram
No tempo em que se não comia tanto;
E esses outros tambem que te vestiram
Do tapado galucho o reles manto;
Que a olhar te ensinaram á direita;
Que um dia te prenderam por suspeita :
XVI

E te dissessem: ó Dona Maria,
Lembras-te do que foste ? Não seriam
Punhaladas, que essa alma soffreria ?
Felizmente os que bem te conheciam,
Já a terra os gramou! Hein: que fatia!
Mas haverá dois annos existiam
Ainda alguns, mas vazios de algibeira,
Os que te conheceram laranjeira.

XVII

Quantas vezes, meu fona, te chamavam,
Para que todos claramente vissem
Da maleza os signaes, que enfarruscavam
Esse immundo carão, e p'ra que ouvissem
As muitas bernardices que saltavam
Da tua bocca; ah cão se te sumissem
N'aquelle tempo, fôra mui bem feito;
De que serve um basbaque tão perfeito?

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