Pagina-afbeeldingen
PDF
ePub

Camões, bem te confesso, e bem conhero,

Que entre o joio infelice e ma zizania

De tanto máo costume, e em tempo avesso,
Engenhos nascem bons na Lusitania,

E ba copia delles, que he menoscabada
Dos máos, e nomeada por insania.

e
Porisso, como preso em tua pousada,

Solta este sonho, e esperta o adormecido

Tempo com tua voz bem entoada;
Qual ella he, clara e pura, em som devido,

Decente, honesto e grave, até que chegue

Aquelle affable e real ouvido.
Farás

que estime, que honre, e que a si chegue
Os que bebem na fonte Pegasêa;

Que seu favor lhes mostre, e não lh'o negue:
Como o bom Rei da patria da Sereia

Aquelle inclyto Affonso, que amou tanto

Os doutos e avisados d'alta veia.
Então teu celebrado e efficaz Canto

Do estreito do mar Roxo ao nosso estreito,
Aos estranhos será piedade e espanto
Se a ti e aos teus não for honra e proveito.

Mas apesar d'estas queixas que se apresentam por parte de Camões e do seu amigo, apparecem os dois ministros e validos que estiveram ao lado do Rei como enthusiastas pessoaes do Poeta. Pedro de Alcacova Carneiro, um dos homens mais abalizados em conhecimentos que teve Portugal, e que desde o reinado de D. João DJI tinha parte principal no governo, perguntando-lhe o Poeta se bavia encontrado muitos erros no seu poema, lhe deu em resposta; que um achára muito grande, o qual era, que devia ser tão breve que se retivesse todo na memoria, ou tão longo que nunca se acabasse; e Martim Gonçalves da Camara o vemos apresentar um testemunho publico do seu apreço com o epitaphio que lhe mandou gravar na sepultura, e assim a nossa opinião não pode deixar de ficar perplexa; e principalmente, como mostraremos, a avareza no premio para com o auctor foi devida a rasões mais imperiosas. Em todo o caso se os tiros de Camões se dirigiam ao valido, eu combino perfeitamente com Faria e Sousa, que façanha herculea foi depondo a paixão da chaga recebida, honrar a virtude de quem a recebeu. Comparando os versos do vi ramo da ode vil, em os quaes o Poeta fallando da sua reputação diz:

Para a minha até aqui de baxa estima,

com o verso da ultima estancia do poema nos Lusiadas, dirigido ao mesmo Rei D. Sebastião

A minha já estimada e leda musa,

se vê bem que o Poeta depois da publicação do seu poema havia subido ao mais alto cume da fama. E na verdade não pode negar-se, apesar da distracção em que os negocios politicos e calamidades do anno traziam os animos occupados, que o poema foi aceito com o maior enthusiasmo, e tão avidamente procurado que no mesmo anno se publicaram duas edições, ou o excessivo gasto da primeira deu logar á contrafacção, e não obstante a severidade da censura, elle saiu intacto, e apenas com aquellas correcções que o auctor, de combinação com os padres de S. Domingos, julgou opportuno fazer-lhe. Tal foi o respeito e veneração que desde logo se prestou a um poema tão maravilhoso e nacional!

Embora se diga o contrario, esta é a verdade; não nego porém que o Poeta poderia ser estorvado na escolha do maravilhoso, se escolhesse como o Tasso a magia, não só porque, pela Regra ix que vem no primeiro indice do Santo Officio, todos os livros que tratam de Geomancia, Hydromancia, Aeromancia, Pyromancia, Onomancia, Nigromancia, ou todos aquelles nos quaes se contam adivinhações por sortes, feitiçarias, agouros, prognosticos por modos illicitos e outros quaesquer encantamentos por arte magica são reprovados; mas porque mesmo pelas justiças seculares se procedia contra as pessoas incursas no crime de feitiçaria, e tanto assim que as mesmas justiças tinham entregado ás chammas seis infelizes mulheres, accusadas d'este crime na regencia da Rainha D. Catharina. Tivemos occasião de ver este processo, e n'elle ba uma parte muito analoga com os encantamentos do Tasso na sua Jerusalem liberata; mas não é muito que então se desse credito a estes embustes, se nós ainda na nossa infancia os acreditámos. Todavia estou persuadido de que, aindaque o Poeta tivesse livre escolha, não preferiria outro maravilhoso para o seu poema, porquanto estava inteiiamente impressionado pelos seus dois modelos llomero e Virgilio.

[ocr errors]

e

I

[ocr errors]

O Qualificador do Santo Officio, o padre Fr. Bartholomeu Ferreira, no seu parecer para a impressão dos Lusiadas', que precede a primeira edição (1572), diz que n'elles não achou cousa alguma escandalosa, nem contraria á fé e bons costumes, somente lhe pareceu que era necessario advertir os leitores, que o auctor, para encarecer a difficuldade da navegação e entrada dos portuguezes na India, usa de uma ficção de deuses dos gentios. Permitte que a dita fabula dos deuses vá na obra, salva a verdade da Santa fé, que todos os deuses dos gentios são demonios; e termina com um elogio ao auctor e á obra. — E por isso me pareceu o livro digno de se imprimir, e o auctor mostra n'elle muito engenho e muita erudição nas sciencias humanas. — Eu tive occasião de cotejar um manuscripto contemporaneo do i canto dos Lusiadas, e não encontrei cousa que indicasse uma mutilação. Longe pois de se fazer a mais pequena alteração aos Lusiadas, houve para com este thesouro nacional todo o respeito e excepção como será facil convencer o leitor. Pela Regra vıı do Indice expurgatorio prohibem-se todos os livros que contam ou ensinam cousas deshonestas, mas os antigos que são escriptos pelos gentios, permittem-se pela elegancia e propriedade da lingua, mas por nenhum modo se leiam aos moços. E não estaria o Canto ix dos Lusiadas, e mais alguns logares do poema, no caso de parecerem a algum escrupuloso que deveriam ser cortados, ao mesmo tempo que a Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, as obras de Jorge de Montemayor, e a Eufrosina e o Ulissipo de Jorge Ferreira eram defezos? Quem não vê que o censor, aqui n'esta excepção, emparelhou o nosso Poeta com os primeiros classicos latinos, cuja leitura, apesar de lasciva e deshonesta, se permitte pela propriedade da lingua? E note-se que ao mesmo tempo que se apresenta esta judiciosa tolerancia com o nosso Poeta, o Ariosto não é poupado. Nos Avisos e lembranças assignados pelo mesmo censor dos Lusiadas, o padre Fr. Bartholomeu Ferreira, para a reformação dos livros, que acompanha o Indice expurgatorio de 1581, se encontra esta advertencia a respeito do poeta italiano.

«Do Orlando furioso se bão de riscar algumas cousas que tem escandalosas e desonestas, como se pode ver no Canto setimo, e decimo quarto e vigessimo. >>

Quem pode negar, com imparcialidade, que os Lusiadas do nosso Poeta não estavam nas mesmas circumstancias do Orlando de Ariosto, para soffrerem cortes severos em alguns logares, principalmente execu

I Documento E.

tados por velhos a quem o gelo da velhice tinha esfriado o fogo da mocidade ?. Comtudo é muito para suppor, ou para melhor dizer, certo, pois o aflirma o seu commentador e amigo, que o Poeta, previamente á publicação do seu poema, aceitou muito espontaneamente os conselhos de alguns frades de S. Domingos de Lisboa", com quem tinha amizade estreita e convivia; se isto não fosse assim como se explica a continuação d'esta amizade, sendo a sua companhia a unica cousa que lhe distrahia a melancholia que o minava em os ultimos dias da sua existencia? Com toda a rasão não existiria no coração do Poeta um justo resentimento, contra aquelle que deturpava o trabalho de tantas vigilias, feito na peregrinação do exilio, conscio que era a obra que devia immortalisar o seu nome, e o que era ainda mais para o Poeta, o da sua querida patria ? Dizei-me, se uma mão brutal ousasse passar a broxa sobre a ascensão de Rafael, ou despedisse o camartello contra a obra prima de Canova, não desejariam aquelles dois genios da pintura e esculptura decepar aquella mão impia e sacrilega ? Mas para bem comprehendermos como isto se passou, é preciso saber que o padre Fr. Bartholomeu Ferreira era não só o censor ex officio”, mas o Aristarcho e amigo dos poetas seus contemporaneos, a quem sujeitavam as suas obras não só para a approvação, mas para soffrerem a lima imparcial de uma critica conscienciosa como tive occasião de ver nas poesias autographas de Pedro de Andrade Caminha. Os logares onde o Poeta se conformou com as suas advertencias me parecem claros no poema: a chaga chronica do coração do Poeta era a injusta perseguição que experimentou pelos seus amores, de modo que em casos analogos, tende sempre para desculpar aquelles que se entregaram, ainda que desordenadamente, a esta paixão. Assim não poupa o mesmo Affonso de Albuquerque, pela morte que mandou dar ao soldado Rui Dias por o encontrar com uma escrava que trazia para a Rainha; e depois de haver culpado a El-Rei D. Fernando pelos seus amores com a Rainha D. Leonor roubada-a seu marido, termina com estes versos:

Desculpado por certo está Fernando
Para quem tem de amor experiencia,
Mas antes tendo livre a plantesia
Por muito mais culpado o julgaria.

I Vide nota 62.
2 Vide nota 63.4

Emquanto a mim estes dois ultimos versos foram ali postos para attenuar as asserções do Poeta, por conselho do censor. Parece que o censor lhe pediu igualmente que explicasse por alguma forma a allegoria do poema, o que elle, condescendendo com a vontade d'aquelle religioso, faz n'esta estancia (LXXXI do Canto x.)

Aqui só verdadeiros gloriosos
Divos estão; porque eu Saturno, e Jano,
Jupiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal, e cego engano:
Só para fazer versos deleitosos
Servimos; e se mais o trato humano
Nos póde dar, he só que o nome nosso
Nestas estrellas poz o engenho vosso.

Pediu-se mais ao Poeta, que désse a verdadeira significação do vocabulo Fado, o que igualmente faz na estancia XXXVII do Canto x:

As gentes vãas que não os entenderam,
Chamaram-lhe fado mau, fortuna escura,
Sendo só providencia de Deus pura.

E.parece-me tão exacta esta minha asserção, que estas duas estancias são adduzidas pelo èensor da edição de 1597 (uma das amputadas) para se desculpar de não ter borrado alguns vocabulos de que o auctor muitas vezes usa, e que alguns lhe notaram, como é fallar em deuses e em fado. Se nos transportarmos ao tempo em o qual o Poeta escreveu o seu poema, não nos admiraremos tanto que se apresentassem certos escrupulos no meio de novidades e subtilezas theologicas que ensanguentavam a Europa; e alguem houve tão excessivo a este respeito, que intentou fazer mudar a technologia astronomica', convertendo para nomes de santos os dos planetas e estrellas, para o que compoz uns versos latinos, para mais facilmente se confiarem á memoria, e se fabricou um planispheriò celeste no mesmo sentido. Alem d'isto os poetas catholicos faziam espontaneamente as suas declarações e protestações de fé: já antes do nosso Poeta, o Dante a havia feito n'estes versos:

1 lide nota 6'.

« VorigeDoorgaan »