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annos depois a Hungria é invadida, Rhodes cáe, Vienna cercada, as Costas da Italia invadidas e saqueadas, lá estão em caminho para Roma, ei-los na foz do Tibre, mas antes o iurco do que a Missa, antes a barbaridade e a ignorancia do que a civilisação. Terrivel cegueira, ou antes implacavel inveja, que se explica ein ver o successor de S. Pedro completar a empreza a mais sublime, e com o seu complemento roubar á reforma a sua importancia que se devia despedaçar na presença de um facto que dava ao Pontifice tanto credito, quanto era o interesse politico que d'ahi résultava à communidade dos povos e ao progresso da civilisação.

Nota 73.2 -- pag. 144 A queda de Constantinopla daria em resultado a conquista facil das possessões mauritanas na costa da Barberia; a malograrla empreza de Carlos V, intentada para conquistar Argel, tão impoliticamente emprehendida, e que deu em resultado a perda da Hungria, não teria tido logar, se as apparatosas forças dispersadas pela tempestade e empregadas para esta expedição houveram sido melhor empregadas em soccorrer o Archi-duque seu irmão; era no coração e não nas pernas que o imperio ottomano devia ser atacado, porque ferido parcialmente, só poderia dar em resultado afrouxar a marcha rapida dos seus triumphos, quando de outro modo tudo o mais seria consequencia. Emquanto a nós os portuguezes, senhores de oito praças na Africa, que nos abriam as portas para a sua conquista, seriamos forçosamente ajudados, como outrora, pelos mesmos cruzados, que, tomada a sede do imperio ottomano, viriam gostosos debaixo das nossas handeiras e do comando dos nossos Principes e ousados Capitães, terminar o aniquilainento dos sectarios do Koran, os quaes sem apoio, mais tarde ou mais cedo, abririam os olhos á verdadeira luz do Evangelho. É inutil demonstrar as conveniencias de ter entrado a civilisação ha tres seculos na Africa.

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Nota 76.11 - pag. 144 Todos sabem que no Concilio de Florença (1439) onde se reuniram o Imperador João Paleologo e os Prelados gregos, se discutiram entre os ditos prelados e os latinos os pontos theologicos que desuniam as duas Igrejas, e que removidos estes obstaculos, depois de assignadas as actas do Concilio pelo Papa, Cardeaes e outros Prelados latinos, e pelo Imperador João Paleologo e os Prelados gregos, todos beijaram a mão do Papa e abraçaram-se mutuamente uns aos outros, em signal de concordia e como um testemunho de boa intelligencia que d’ali em diante passava a reinar entre as duas Igrejas. Desgraçadamente um energumeno que em Constantinopla gosava de grande reputação, e era reputado como o primeiro defensor da Religião, Marcos de Epheso, e que no Concilio fôra o unico que recusára assentir á união, pôde tanto com os seus discursos sediciosos, que provocou um scisma declarado com os que persistiam na união. Isto junto a froulxidão do Imperador João Paleologo que teve a condescendencia de consentir em uma disputa entre este mesmo Marcos de Epheso e o sabio theologo dominicano Bartholomeu de Florença, fallecendo em consequencia de se haver exaltado muito na argumentação este declarado inimigo da união, deu em resultado a reincidencia do scisma, e quatro annos depois do Concilio (1143) a publicação de uma carta synodal dos Patriarchas de Alexandria, Antiochia e Jerusalem, pela qual pronunciavam sentença de deposição contra aquelles que fossem ordenados por Metrophanes, successor de José em Constantinopla, e apegados com elle ao scisma : a estas causas se deve ajuntar a pouca esperança que os gregos concebiam do auxilio dos latinos, e ao condemnavel indifferentismo dos Principes Catholicos em auxiliarem os seus irmãos em crença, fechando os ouvidos ás clamorosas vozes que do alto do Vaticano os chamavam a salvarem a civilisação que começava a ser ameaçada com a perda da segunda Roma. Mais tarde, no anno de 1431, o Imperador Constantino, ameaçado por Mahomet II, envia embaixadores ao Papa pedindo-lhe soccorros e um legado para trabalhar efficazmente na reducção dos scismaticos; o Papa não foi surdo ás vozes do Imperador e enviou-lhe o Car

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deal Isidro Grego e Arcebispo de Kiovia na Russia, que apparentemente foi feliz nas suas negociações; os gregos aceitaram o decreto da união, mas estavam traiçoeiramente tratando com os hussistas da Bohemia, e no anno seguinte revoltam-se abertamente contra a união, instigados pelo frade Genadius, digno successor de Marcos de Epheso, pelo odio que professava pela Igreja Romana, tomando parte mui pronunciada na revolta as religiosas e beatas, que estavam debaixo da sua direcção, proclamando estas anathema contra aquelles que tinham approvado a união ou a approvassem de futuro. Coitados! tinha-lhes, Deus cegado a vista; um anno depois eram victimas da insolencia do soldado musulmano; e o frade energumeno talvez tivesse trocado o capuz do frade pelo barrete turco: um anno depois o imperio grego cessava de existir!

Nota 77.1 - pag. 145

Não se julgue que a minha politica era adversa á alliança ingleza, pelo contrario, estou que a alliança franca è leal, baseada sobre mutuos interesses commerciaes e de nacionalidade, seria proficua aos dois paizes, mas nunca a tutelagem pesada e imperiosa de uma nação, impondo a lei ao seu alliado que

acabava de derramar o seu sangue tão generosa e lealmente ao lado dos seus exercitos em uma causa commum. Era principalmente depois da paz que esta alliança se deveria ter formado sobre bases solidas e não mesquinhas; n’esta epocha que podéra ser de uma verdadeira resurreição nacional para Portugal, o que se podéra ter feito, se o Rei que presidia aos seus destinos tivesse conselheiros em cujo peito batesse com mais violencia o amor da patria. Portugal com uma divida insignificantissima, com um exercito aguerrido, uma marinha n’aquelle tempo importante, um ancoradouro como o Tejo, com colonias nas differentes partes do globo, incluindo o Brazil, que posição podia tomar no mundo politico se tivera um governo illustrado, principalmente se a Inglaterra se prestasse, como devia mesmo pelo seu interesse, a apoiar o desenvolvimento da politica do gabinete portuguez. Mas dado o caso negativo, isto é, que a Inglaterra seguisse a falsa politica que depois seguiu de nos enfraquecer, apoiando a desmembração da monarchia portugueza, e semeando entre nós a discordia civil; contra tudo isto nos poderamos ter prevenido, mostrando mais vontade e decisão, por que tivessem a certeza que até á quéta dos Bourbons nunca a Inglaterra queimaria uma escorva contra nós; todos viram o ciume pela expedição do Duque de Angouleme, a contramina á sua influencia n’esta Côrte, intentada em 1823 pelo Embaixador francez, mas mais que tudo os devia preoccupar a alliança continental que se preparava nos ultimos tempos de Carlos X; e assim podíamos estar seguros, porque o ponto de apoio para a alavanca podia novamente ser necessario. É verdade que somos tributarios á Inglaterra em perto de cinco milhões annuaes; mas que é isto para a Inglaterra ? é nada em comparação da alliança segura e leal de uma nação com colonias nos mesmos pontos do globo, onde simultaneamente se podiam auxiliar e repartir os lucros de um vantajoso commercio. A mesma influencia na Asia, que conservamos pelo echo do nosso antigo nome e pelo Padroado, poderia ter servido, temperando a Inglaterra ao mesmo tempo o rigor do mando para resignar ao seu imperio os colonos que hoje vimos insurgidos. Estou certo que esta politica leal teria sido seguida, se fossem ouvidos aquelles inglezes que comnosco misturaram o seu sangue, viveram entre nós, nos apertaram lealmente a mão, os quaes, sem perderem a condição de inglezes, por assim dizer se tornavam meios portuguezes, a quem podemos chamar anglo-lusos. Alem dos principaes Cabos que nos levaram á victoria, a memoria se apraz em consignar mais de um: os nomes de Archbald Campbel, Sir John Wilson, um Durban, Sir John Campbel, um Ricardo Amstrong e outros sempre serão caros aos seus amigos verdadeiros. Assim se algum dia precisasse do seu alliado, o que encontrava? o aniquilamento, os odios de uma grande parte de seus habitantes, ou pelo menos o burro da fabula; o mais perfeito indifferentismo, mas nem isso, um cadaver, e um cadaver não peleja.

Quando fallo do poder da Inglaterra, quero dizer que, senhora dos mares e pela sua posição geographica, está sempre no caso de aggredir sem ser aggredida: e como para sustentar a sua posição commercial e o senhorio dos mares, the e necessario recorrer a meios artificiaes, não pode deixar de ser pesada ao resto do mundo, que muitas vezes, pelo instincto da sua conservação e opulencia, se vê obrigada a revolver.

Nota 78.-- pag. 145 A Russia com a existencia do Imperio grego, da Polonia e Hungria nunca podia dar o menor susto á Europa, e seria obrigada a lançar-se na Asia. Pela sua adherencia á união da Igreja latina mais cedo The entraria a civilisação. Em materia religiosa os russos estavam no costume de seguir os exemplos dos gregos de Constantinopla; o metropolitano da Russia, o Arcebispo de Kiovia Isidoro, tinha estado conjuntamente com os Prelados gregos no Concilio de Florença. Os soberanos da Russia por mais de uma vez mostraram, por vistas politicas, querer abandonar o scisma, prestando obediencia á Igreja latina.

Nola 79.4 — pag. 149 Por muito tempo se viu uma casa em ruinas junto á Ermida do Senhor da Salvação e Paz, que está pegada á casa das Commendadeiras da Encarnação, que tinha o numero de policía de 52 a 51, e com uma das frentes para o beco de S. Luiz, cuja casa era foreira a D. Aleixo de Menezes, e foi ultimamente reedificada; este predio, pela descripcão da biographia do padre Fr. Francisco de Santo Agostinho, parece ter sido a habitação do nosso Poeta.

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Este fidalgo, que era sobrinho do celebre Martim Gonçalves da Camara, tem sido censurado pelas instancias que fazia ao nosso Poeta pela traducção que lhe tinha encomendado dos Psalmos penitenciaes; mas estas mesmas instancias provam o apreço que fazia d'elle, ao qual sem duvida não deixaria de gratificar, e estamos persuadidos que não seria surdo á exposição que o mesmo lhe fazia das suas difliceis circumstancias pecuniarias. André Falcão de Resende amigo do nosso Poeta, em um dos seus sonetos nos descreve este fidalgo como mancebo gentil, douto e dado ás Musas e ás armas, liberal e favorecedor dos necessitados:

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Foi filho D. Goncalo Coutinho de D. Gastão Coutinho e D. Filippa de Sousa: foi Commendador das Commendas de Vaqueiros e Santa Luzia de Trancoso, da Ordem de Christo. Era grande amigo do nosso Poeta, que dizem que muitas ve zes tinha por hospede na sua quinta de Vaqueiros. A amisade d'este fidalgo a Luiz de Camões, consta do verso de Fr. Luiz de Sousa :

Ac velut Orphæo revocasti munere amicum. Militou em Africa, foi Governador do Reino do Algarve, e do Conselho d'Estado de Filippe III. Escreveu varias obras em prosa e verso, e entre estas a vida de Francisco de Sá de Miranda, que saiu na edição de 1614. A collecção das suas poesias se conservava na livraria do Duque de Lafões, como aflirma Diogo Barbosa Machado na sua Bibliotheca Lusitana.

pag. 150

Vota 82.a No prologo que compoz Pedro de Mariz, e anda no principio dos Commentarios (diz o padre Fr. Fernando da Soledade, auctor da Chronica Serafica, referindo-se ao epitaphio) feitos pelo Licenceado Manuel Correia aos Lusiadas (l'este famoso poeta, se acrescentam ao sobredito estas palavras: «Viveo pobre e miseravelmente e assim morreo. O mesmo achámos em a ultima impressão das suas obras que saiu á luz no anno de 1702, e taes clausulas não apparecem na pedra da sepultura, etc.

Nota 83.0 — pay. 151 Tem por

titulo este MS.: Livro de Diogo de Mouro de Sousa, o qual elle escreveu de suas curiosidades, dle muilas e diversas poesias de differentes sujeitos, e de alguns epitaphios de differentes. sepulturas dignos de se notarem; e de outros muito applaudidos os quaes vão misturados, importa a quem quer que passar o não communique, porque vão n’elle cousas que importam reputação alheia, feito no anno de 16:38. N'este MS. o local da sepultura é descripto por esta fórma: «Á entrada da porta principal de Sant'Anna, á mão esquerda, está a sepultura do famoso poeta Luis de Camoens, a qual mandou fazer D. Gonçalo Coutinho, na qual estão postos estes epitafios, etc.

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Eis o que diz este auctor no seu Ensaio biographico-critico sobre os melhores Poetas portuguezes, tomo iii, livro iv, capitulo in.

« Já em outra parte dei a rasão d'esta falta procurando destruir esta prova negativa, referindo o que muitas vezes ouvi dizer a José Agostinho de Macedo, testemunha insuspeita de que pretendesse accudir pela gloria de Camões, de quem era detractor figadal; e é que fazendo-se, a pedido de alguns estrangeiros, no Convento de Sant'Anna, exactas pesquizas para descobrir a sepultura do Poeta, depois de muitos trabalhos e diligencias baldadas, de modo que estavam já perdidas todas as esperanças de bom exito, disse uma freira velha que tendo algumas vezes espreitado por uma fenda do altar, que estava junto a grade do côro de baixo, lhe parecêra ter ali visto uma lapida sepulchral.

« Tirado o altar achou-se com effeito uma sepultura que não podia ser senão a do Poeta, pois ainda se conservava a inscripção, que lhe mandára pôr D. Goncalo Coutinho, e os versos latinos que andain impressos nas suas obras: porém a lapida estava toda quebrada e fendida, sem duvida com a queda das abobadas na occasião do terremoto. Para abrir a sepultura foi a lapida tirada a pedaços, e para a tapar substituida por outra; mas aqui mesmo se mostra a pouca attenção que entre nós se dá a estes objectos, pois nem a nova campa se fez igual a primeira, nem ao menos se lembrou ninguem de gravar na nová alguma inscripção, que informasse á posteridade do motivo por que ali faltava o epitaphio."

Pelo conhecimento que temos do local podemos assegurar que esta noticia não tem fundamento algum, porque tal altar não existe n’aquelle sitio, porém somente os que estio encostados ás paredes lateraes do côro.

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A reedificação deste Mosteiro esteve muito tempo suspensa por ordem do Marquez de Pombal que intentou reuni-las com as religiosas da Esperança, durando esta crise até o anno de 1771 em que se nomeou abbadessa, e foi só depois do anno de 1778 que se começaram as obras, reinando já a Sr.a D. Maria 1; assim, se no anno de 1818, em que houve o pensamento de se fazer a trasladação dos ossos do nosso Poeta, se tivesse começado pelo essencial que era fazer indagações no proprio local, teriam encontrado não só freiras do tempo do terremoto. mas muitos officiaes que tivessem trabalhado nas ditas obras que podessem informar com exactidão do estado anterior da sepultura.

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D. Constantino de Bragança foi nomeado por El-Rei D. Sebastião para fazer o recebimento do Cardeal Alexandrino, sobrinho do Papa, quando veiu a Portugal no anno de 1572; o Cardeal pertencêra á Ordem de S. Domingos.

Por D. Constantino, a quem o Poeta era muito aceito, ou pelos padres de S. Domingos da intimidade do Poeta, seria sem duvida apresentado ao Cardeal, principalmente no momento em que publicava o seu Poema, e era o Poeta um dos brazões de maior gloria nacional que se podia apresentar com ufania a um estrangeiro.

Nota 87.a _ Esta noticia vem narrada na Academia dos Singulares de Lisboa por esta fórma : « Por essas reliquias, cinzas ou ossos que temos em Sant'Anna, davam os venezianos ao Senado de Lisboa vinte e quatro mil crusados para ajuntarem ao seu este maior thesouro. Mas elles como divinos não fizeram caso de bens caduCOS.» Academia dos Singulares de Lisboa. Academia nona: em 23 de Dezembro de 1663. Tomo I, pag. 142 (edição de 1692).

pag. 136

Nota 88.* -- pag. 156
Não pode duvidar-se que a elegia de Fernando Herrera, que termina :

El rico Tejo vuestro conocido
Será por vos, adonde riega el Indo
I el collado de Cintra, esclarecido
Com tal onra, será otro nuevo Pindo.

a qual parece uma resposta a versos de Camões, em que se queixava dos seus infortunios, é dirigida ao nosso Poeta; a comparação que faz com Homero, Virgilio, Petrarcha e Garcilasso, só pode dar-se ao poeta que em outra occasião chamou Divino: de mais não consta que o Poeta hespanhol elogiasse outro portuguez; parece ser escripta proxima a partida de Camões para a India, porque se refere a esta parte das possessões portuguezas como theatro da sua fama. Vejam-se algumas obras de Fernando Herrera, etc. Sevilha em casa de André Piscioni. Anno 1582. Será a esta elegia que o Poeta allude n'aquelle seu verso

O Bethys me oiça, etc. pois parece-me que não pode referir-se á traducção de Bento Caldeira, que saiu no anno da sua morte, embora o Poeta tivesse conhecimento d'ella; pois a poesia onde se encontra este verso do nosso Poeta foi escripta antes da sua partida para a India e em vida da amante.

Nota 89.2 - pag. 157 Allude-se a esta correspondencia na Biographia de Vilhegas que acompanha a edição das obras do nosso Poeta de 1632. Nas obras impressas do auctor hespanból não encontramos cousa alguma relativa a Camões; fizemos indagar em Madrid se existiriam algumas obras manuscriptas do Conde, mas não se encontraram. A noticia da interessante carta onde o Tasso se dirigia ao nosso Poeta a devemos ao escriptor portuguez, nosso contemporaneo, Pato Moniz, tão celebre pelas suas polemicas com o padre José Agostinho de Macedo.

Nota 90.2.- pag. 158 Representava-se uma farça com este titulo: Arlequin Defenseur d'Homere. Nesta farca tirava com todo o respeito a Iliada de uma caixa, pegava pela barba

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