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e perigos nos differentes portos da China, até o anno de 1554, no qual sendo Capitão mór Leonel de Sousa, se entabolaram negociações amigaveis com os chinas, correndo desde esse tempo o trato de boa paz entre as duas nações, indo os nossos trocar as suas mercadorias, principalmente a Cantão, e mudando-se o justificado odio antigo dos naturaes em boa hospitalidade, e folgando já com o trato dos portuguezes.

Tal era o estado do nosso commercio e relações na China, quando Camões partiu com o emprego de Provedor dos defuntos e ausentes d'aquelle imperio, cargo que já existia quando os nossos tinham o estabelecimento de Liampó, e devia partir na armada de que la por Capitão mór um Francisco Martins ?, feitura do governador Francisco Barreto, e que se compunha de umas seis velas. No porto de Lampacao, que era então a estação dos portuguezes, e onde o Poeta se demorou algum tempo, se devia encontrar pelo meado de Maio d'este anno com Fernão Mendes Pinto, que vinha de volta para Goa. Tão longe da sua patria se encontravam os dois escriptores portuguezes em tão agitadas circumstancias da vida; um que vinha procurar o descanso, pondo termo á sua aventurosa Odyssea, e o outro que ia igualmente animado do desejo de independencia pôr o peito aos varios lances da fortuna.

Eram estas costas avexadas por uma immensidade de piratas, que incitados pelo valioso das presas, corriam os mares infestando-os com as suas depredações com grave prejuizo do commercio. Em o porto de Macau, situado no golpho de Tonkim, se acoutava um famoso corsario, e d’ali atterrava com o seu nome e piratarias toda a costa circumvisinha. Convidados os nossos pelos chinas, ou por deliberação espontanea, cáem sobre elle, e o desapossam do covil d'onde saía a inquietar os que navegavam n’estas paragens, e por este serviço conseguem os nossos, por consentimento dos chinas, estabelecerem-se n’este pequeno espaço de territorio onde logo fundam a cidade de Macau. O numero de vélas de que se compunha a armada de Francisco Martins, e a epocha em que se achava estacionada no porto de Lampacao induzem-me a acreditar que ao nosso Poeta coube a ventura de partilhar a gloria d'este feito militar.

Passou-se logo á fundação da nova cidade, e o Poeta foi um dos primeiros moradores e empregados que teve a nascente colonia, onde residiu por algum tempo, aproveitando este ensejo de melhorar de fortuna com as vantagens de um commercio que offerecia avultadissimos interesses. As Musas, que fogem espavoridas na presença dos algarismos e da arithmetica, o não abandonaram, antes o inspiraram, aproveitando elle o tempo que estacionou n'esta solidão para retocar e continuar o seu Poema.

i Vide nota 38.a 2 Vide nota 39.4

Ao norte da cidade de Macau, está situada a pequena aldeia de Patane em um monte em cuja base pedregosa bate o mar, e a meia encosta do monte se vê uma gruta, hoje conhecida e consagrada pela de nominação de gruta de Camões', e visitada com a maior curiosidade pelo forasteiro, logo que chega a esta cidade. Encontra-se esta gruta logo

4 adiante do convento de Santo Antonio e na sua proximidade; compõe-se de dois rochedos collocados verticalmente, que parece que originariamente formaram um só, porém hoje divididos no espaço de alguns pés, por algum capricho da natureza; uma massa de granito sobrepõe estes dois rochedos, servindo-lhe de cobertura e formando uma especie de gruta. O sitio é romantico e aprazivel e largos os horisontes; para o nascente avista-se o mar e o perfil azulado de Lintáo e outras ilhas; para o sul e para o poente Typa e o ancoradouro portuguez, e para o norte a linha de demarcação que divide a colonia portugueza do celeste imperio. Se o Poeta no soneto CLXXXI, no qual talvez descreve este sitio, desejava um logar o mais apartado do trato humano, algum bosque medonho e carregado, desfavorecido dos encantos da natureza, onde sepultado em vida nas entranhas dos penedos podesse queixar-se livremente e dar desafogo à sua dor, elle não o podia encontrar mais apropriado.

Onde acharei lugar tão apartado,

E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana creatura,
Mas nem de feras seja frequentado?
Algum bosque medonho, e carregado,

Ou selva solitaria, triste, e escura,
Sem fonte clara ou placida verdura,

Emfim, lugar conforme a meu cuidado?
Porque ali nas entranhas dos penedos,

Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixo copiosa, e livremente.

| Vide nota 10.

Que pois minha pena he sem medida,

Ali não serei triste em dias ledos,
E dias tristes me farão contente.

É proprio da natureza humana, conforme o temperamento do individuo, quando a dor nimiamente nos afflige, fugir á conversação e trato dos homens, repellindo as consolações, embora extremosas, da mais pura e disvelada amizade. Então em um accesso de misanthropia confiảmos aos seres inanimados as nossas queixas, e procuramos solidões e retiros, onde em perfeito desafogo demos largas ao sentimento profundo que nos punge o coração. Assim acontecia ao nosso Poeta aqui n'esta selva sombria e triste, n'este antro se recolhia, ou já ao alvorecer do dia em que a alma se eleva toda ao Creador, n'esta hora sublime em que as sombras dispersadas pela luz do dia desenrolam aos nossos olhos a scena de uma nova creação, os montes sobem ao céu, as flores, humedecidas do orvalho da noite, acordam por essas veigas floridas, os mares se prolongam no espaço; ou quando o sol no seu zenith fazia reclamar em um clima tão abrazador o refrigerio das sombras contra a intensidade dos seus raios; ou na hora do crepusculo em que o mesmo astro se ia mergulhar para as partes da patria, para onde lhe voava a alma. Sequestrado do resto do mundo n'este retiro, a saudade o pungia com a lembrança que quanto mais ausente nunca o abandonava, da vida passada, e na sangria do coração magoado, que são as lagrimas, procurava dar desafogo a tão aspero e duro tormento. Outras vezes visitava-o o estro, e inspirado de um arrebatado enthusiasmo repetia ás ondas do mar da China as proezas do pequeno povo do Occidente que o havia devassado. Era espectaculo grandioso, e quasi por si sómente uma epopea viva, ver um poeta entre tantos perigos da vida, e em tão remoto clima, proseguir na continuação de um poema encetado na patria a tanta distancia, e escripto a pedaços nos differentes logares longinquos que discorria com a espada sempre na mão; nem era sem duvida com indifferença que elle compunha e escrevia aquelles tão soberbos como simples versos:

Os portuguezes somos do Occidente,
Himos buscando as partes do Oriente.

Não somos nós em geral da opinião d'aquelles que fazem do infortunio e da desgraca uma forcosa necessidade do yenio: todavia estamos persuadidos de que, se o Poema portuguez não fosse escripto entre as rajadas do vento e os inbospitos embates das ondas do cabo proceloso, sobre os reparos de uma peça, junto ás baterias de uma fortaleza, ou no campo sobre o broquel do homem de armas, e tinto com o sangue do auctor, molhado pelas ondas do naufragio, crestado com os suspiros ardentes do amante ausente, não offereceria rasgos tão magistraes, nem um colorido tão verdadeiro. E como são tocantes e melancholicos estes lamentos que o Poeta solta pelo decurso do seu Poema! perdoem-me Os criticos, acho-lhe um certo interesse que diz perfeitamente com o todo da epopea. De certo, dadas iguaes circumstancias, sempre levará a palma o Poeta aventureiro ao paralytico de gabinete, como com bastante propriedade lhe chama um auctor estrangeiro.

Dois annos, pouco mais ou menos, se demorou o Poeta no exercicio do seu emprego, sendo removido provavelmente antes de tempo, e vindo preso por intrigas, que lhe teceram alguns, que reputava seus amigos, com o Governador Francisco Barreto 4. Voltando de Macau, a nau em que vinha embarcado naufragou na costa de Camboja na Cochinchina. Na correspondencia dos padres jesuitas, em uma carta escripta doʻJapão, datada do anno de 1559, e dirigida pelo padre Balthasar Gago aos irmãos do Collegio de Goa, achamos por noticia que a nau se perdeu. A este naufragio allude o Poeta na est. cxxvIII do Canto X.

Este receberá placido e brando
No seu regaço o Canto que

molhado
Vem do naufragio triste e miserando
Dos procelosos baixos escapado;
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquelle, cuja lyra sonorosa
Será mais affamada que ditosa.

D'estes versos se vê que o Poeta vinha preso e antes do tempo acabado, pois diz que n'elle se executava o injusto mando do Governador, isto é, a ordem pela qual vinha preso responder ás accusações que lhe faziam os seus inimigos e os falsos amigos. A este procedimento do Governador Francisco Barreto allude o Poeta na canção x, e mais amargamente se queixa nas oitavas dirigidas a D. Constantino de Bragança.

1 Vide nota 11.

E depois de tomar a redea dura
Na mão do povo indomito, que estava
Costumado á largueza e á soltura
Do pesado governo que acabava,
Quem não terá por santa e justa cura,
Qual de vosso conceito se esperava,
A tão desenfreada infermidade
Applicar-lhe contraria qualidade?

Lemos em memorias officiaes do tempo que estas administrações se achavam no maior desarranjo, sendo excessivamente lesados os interessados. Para dar remedio a estes males, mandou El-Rei D. João III

a Regimento no anno de 1556, com grandes recommendações ao Governador para fiscalisar sobre os abusos e dilapidações que se faziam: Entendeu Francisco Barreto logo em pôr em execução as ordens da côrte, procedendo a reformas que não podiam deixar de ser feitas com certa severidade e rigor; e não haviam de faltar delatores invejosos, que com accusações verdadeiras ou falsas, como sempre acontece, armassem aos logares dos então empregados para os substituirem. D'estes foi o nosso Poeta victima, e a isto e não a outros motivos se deve attribuir a sua perseguição.

No naufragio que padeceu perdeu a fortuna que tinha adquirido, ao que se refere no soneto cLxxi que nas edições antigas encontramos com o titulo de suas perdições; isto nos corrobora mais na opinião que emittimos de ter o Poeta recebido em Macau, ou no seu regresso para Goa a nova da perda da sua amante, pois n'este soneto chora a outra para elle mais lamentavel catastrophe, a morte d'ella:

A cordeira gentil que eu tanto amava,
Perpetua saudade d'alma minha.

Emquanto se reparava do naufragio na bahia de Camboja, escreveu aquellas maravilhosas redondilhas, como lhe chama Lope da Vega, paraphrase pathetica e lastimosa do psalmo cxxxvi, Super flumina, que começam :

Sobolos rios que vão
Por Babylonia, me achei, etc.

1 Vide nota 42.

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