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Feridas dando vai que não se curam,
Nuno que não descança a sua espada :
E, com a gente imiga que se espalha,
Se declara á victoria da batalha.

O castelhano rei, pallido e triste,
Vendo a sua bandeira estar por terra,
E que é ja pouca a gente que
resiste,
E muita a que fugindo os passos erra,
Mortos os capitães em que consiste
O reparo da gente e fim da guerra,
Animo, sangue, falla e côr perdida,
N'um ligeiro cavallo salva a vida.

Per campinas, per montes e espessura,
D'alguns dos seus somente acompanhado,
Pela sombra da noite negra escura,
C'o rosto baixo, triste e descorado
Vai chorando o successo sem ventura,
De Hespanha largos annos lamentado,
Convertendo-se em penas e em receio
O magnanimo esforço com que veio.

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Quam pouco monta a fraca força humana,
Se o podêr lhe não vem da mão divina
Como se esforça en vão, como se engana
Quem sem favor do ceo se determina!
A gente mais suberba e mas ufana
Mais perto está do estrago e da ruína;

Que quando Deus contra ella uma hora inspira, Tem o sol, abre o mar, e as settas víra.

Quanto, ó poucos e ousados Portuguezes,
Agora mais ingratos e esquecidos,
Deveis ao justo ceo que tantas vezes
Fostes d'elle em batalhas soccorridos!
Quantos sceptros, pendões, lanças e arnezes
Por ella a vossos pés vistes rendidos,
Vencendo a multidão barbara estranha ;
Que hoje contado alguns teem por patranha.

Viram de Ourique os campos celebrados
O barbarico número estrangeiro,
E depois na victoria estar prostrados
Cinco reis infieis ao rei primeiro;
Quando entre o temor vão de seus soldados
Viu o rei Portuguez ao verdadeiro
Rei que as armas lhe deu sanctas, divinas,
Que aos trinta dinheiros teem nas Quinas.

Viu la n'aquella idade o Tejo ameno
Seus campos d'outra côr sanguinea, triste :
E tu que do impio sangue sarraceno
Tingir-se, ó Santarem, teu muro viste
Quando um podêr de gentes tam pequeno,
Com tanta fe no ceo se arma e resiste
Contra número immenso de infieis,
Vencendo o rei cercado a treze reis.

Viu o Mondego, o Tejo, o Guadiana
Ouviram serra e montes d'arredor
Contra a furia da gente mahometana
Dom Gonçalo de Maya, o lidador,
Na idade que ja a vida desengana,
De dous reis tam potentes vencedor,
Mostrando o ceo que as fôrças que lhe dera
Ninguem sem valor seu vencer podéra.

Não valeram ao rei famoso Hispano
Armas, gentes, e esquadras desiguaes
Contra o valor do forte Lusitano,

Que em Deus, que so tem tudo, tinha o mais.
Desbaratado foge o menor damno

E entre humidos suspiros tristes ais
Volta os olhos atrás para o que deixa,
De si, dos seus, da sorte em vão se queixa.

Eis quando á redea sôlta um cavalleiro,
Tintas em sangue as armas aboladas,
Sem lança, sem pendão, sem companheiro,
A sobrevista e plumas derribadas,
Passa entre os seus, qual raio que
Per entre as nuvens corta descuidadas,
Do rei afferra, e com medonho aballo
Com elle traz a terra o bom cavallo.

ligeiro

Com nova furia a gente amedrentada Em favor de seu rei, n'um pensamento

Cercam ao que levando a forte espada
Segue seu temerario atrevimento:
Porêm a multidão da gente armada
Golpes, lanças, virotes cento a cento,
Morto o cavallo, o trazem vivo a terra
Aonde de novo intenta fera guerra.

Dando medonhos golpes não descança,
Couraças, malha e corpos dividia,
E sem curar da vida ou da esperança,
Honrar somente a morte pretendia.
A gente encarniçada na vingança
Uma sobre outra em golpes recrescia,
Até que, o sangue, alento e côr perdida,
Com temor de tal corpo foge a vida.

Alli morto estirado e palpitando

A onde o sangue em borbulhas se derrama,
A temor fica os vivos obrigando,
E a eterna lembrança a vaga fama,
Quando a caso um peão desenlacando
O elmo ja partido, os outros chama;
Manda o rei (que inda o teme) conhecê-lo;
Vasco Martins, o bravo, era de Mello.

Fizera este atrevido um juramento
Digno d'aquelle esprito temerario
De prender no combate (fero intento !)
Ou pôr ao menos mãos no rei contrário,

E depois da batalha e vencimento,
Em que um valor mostrou transordinario,
Não encontrando o rei, ousado e forte
O vem buscar, e n'elle a propria morte.

Alli espanta a fama quando a vida
Entre inimigas lanças despediu
Por cousa tam vanmente promettida,
Que a preço tam custoso se cumpriu.
Segue o rei o caminho, que o convida
O receio do encontro que alli viu :
E em quanto triste vai, como apressado,
O campo vamos ver desbaratado.

Cansado de ferir, e a facha dura
Ja de sanguinea cor, e as armas fortes
Manchadas de mortifera pintura,
C'o triumpho immortal de tantas mortes
O Lusitano rei sôbre a verdura

Descansa, e d'alli olha as várias sortes
Dos mortos pelo campo, e menos vivos,
E dos que entre os soldados vão captivos.

De longe vem para elle o gran' Pereira
Que com passo quieto e vagaroso
Ao ceo levanta as mãos, alça a viseira
Grato, humilde, contente, victorioso.
Eis do contrário rei mostra a bandeira
Antão Vasques de Almada, o valeroso,

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