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A fertil terra se descobre toda,

Parece que do mar banhada em roda...

Qual ja fôra o jardim delicioso,
Habitação de humana creatura,

Antes que o pomo

infausto e luctuoso

Dos abysmos chamasse a morte escura :
Tal se descobre desde o pego undoso
Da terra ignota a magica pintura;
Mostra no verde chão, no azul da esphera,
Ser estação contínua a primavera.

Batia priguiçoso o mar na areia,
Em leve espuma d'ella se escoava;
De um largo rio crystallina veia

Se mostra, e sem fragor no mar entrava :
Um vergel innaccesso á luz phebeia
As encurvadas margens lhe assombrava,
Onde aves, que voando os ares fendem,
Entre as folhas c'o canto os ventos prendem.

De toda a parte os livres horisontes
D'auri-rosadas nuvens se guarnecem;
No longo fio de não rudes montes
(Painel suberbo!) os olhos desfallecem :
Rebentam-lhes da falda argenteas fontes,
Que os umbriferos valles humedecem;
Fórma o matiz das peregrinas flores
Ao longe uma so côr de immensas cores.

O viço e côr dos lindos campos era,
Qual do Ganges esmalta os ferteis prados,
S'intenso brilha o sol, o ardor modera
Nos vapores da terra ao ar levados,
E se torna suavissima a atmosphera,
Com perfumes de balsamo exhalados :
Tal a incognita terra, que apparece,
Aos Lusos como extaticos s'off'rece.

Lançam logo um batel nas ondas frias,
E aventureiro intrepido Velloso
Quer explorar as solidões sombrias,
Que pelas margens vêem do rio undoso :
Não teme expor da vida os frageis dias,
Nos mais difficeis transes animoso;
Ao lado seu o interprete não falta,
Com elle explorador na terra salta.

Não muitos

passos dão na ignota areia,
Eis que se embrenham logo em selva escura,
Onde da clara alampada phebeia

Entrava frouxamente a chamma pura:
De palmares umbriferos se arreia
Aquella estranha, lugubre espessura ;
Triste a copa dos cedros corpulentos
Suturnos echos reproduz dos ventos.

" Rompem n'um valle ameno e dilatado, Andando um pouco os Lusos caminhantes;

Era de fórma circular, fechado
Em roda está de teixos verdejantes;
No mais remoto fundo um levantado
Templo se ve de marmores brilhantes;
Que levantára egypcia architectura
Per onde vai do Nilo a lympha impura.

Seis columnas o portico sustentam,
Entre uma e outra em pedestaes erguidas,
Bronzeas estatuas vêem, que representam
Divindades télli desconhecidas,

Que temor, que esperanças alimentam,
Nas gentes d'Asia em sombras involvidas:
Extaticos os Lusos se suspendem,

De estranhas scenas taes nenhuma intendem.

Volve-se a tudo a vista, e se arrebata
No augusto templo collossal; e tudo
Da phantasia o término dilata;
Quanto c'os olhos se descobre é mudo :
De humanos pés se julga a terra intacta.
Eis de aspecto nem barbaro, nem rudo,
Subito um velho aos Lusos se apresenta,
Que assombro, e não pavor n'alma lhe augmenta.

Trajado vem de negra vestidura,

Que desde o collo aos pés fluctua ondeada ;
Tem rosto venerando, a côr escura,

Rugosa a frente, a barba dilatada:

A nobre, não vulgar, alta estatura
Do tempo ao pêso tras como encurvada;
Tem nas robustas mãos nodosa vara,
E, mal descobre os Lusitanos, pára.

Não se perturba o generoso peito
Do Portuguez c'o vulto inopinado,
Co'a triste cor da veste, e turvo aspeito,
De um modo estranho, livido, escarnado:
Rompe o velho o silencio, e com respeito
Em doce tom de voz grave e pousado:

«< Quem sois, lhes diz, mortaes que vejo e admiro N'este do mundo incognito retiro? »

Da Arabiga linguage o noto accento
Pasma de ouvir. «Nós somos (um responde)
D'esse imperio que o sol no firmamento
Na Europa último ve quando s'esconde.
Pelos campos do tumido elemento
Buscando vimos os paizes, onde

No berço a aurora aos homens apparece,
Onde a Asia mais s'eleva e mais florece.

Involtos pelo mar no manto escure
De um, como noite espesso, nevoeiro,
Da vista nos fugiu brilhante e puro,
Baliza em pólo austral, vivo cruzeiro:
Té que o veo sepulcral, medonho, impura
Rompeu do mundo avivádor luzeiro;

Ésta, incognita a nós, terra tocámos,
E aqui dos homens o vestigio achámos.

Tu nos descobre que paiz é este,
Se dista muito o lucido Oriente;

Que terra é ésta

que s'enfeita e veste

De viva primavera em ceo clemente?
Se a habita um povo que soccorros preste
A quem batido vem do mar tumente;
Quem sejas tu; que portentoso templo
É este que elevar-se ao ar contemplo?

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«Estais (lhe diz o velho) em dilatada
Ilha, que cérca o Indico Oceano;
D'essa riqueza e mérces abastada,
Por quem se affana tanto o peito humano:
É ésta augusta máchina sagrada
Dos ceos, da terra e mar ao soberano;
E d'outra vida em solida esperança,
Dos nossos reis a cinza aqui descança.

Alcaçar é da morte: eu consagrado
Seu sacerdote sou n'este profundo
Prophetico silencio, e separado
Da estrepitosa confusão do mundo:
Da eternidade nos umbraes lançado,
A solidão me apraz, so me é jucundo
Da morte e do sepulcro o pensamento,
D'elle me animo, d'elle me apascento.

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