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Do tracto humano longe, e mui distante
Existo aqui da côrte populosa;

Vinde admirar na máchina prestante
Sentada a morte em cinza luctuosa.
Sobe os degraus de mármore brilhante,
C'os Lusos entra a porta sumptuosa,
E no recinto vêem d'ambos os lados,
Os mausoleos de pórphido lavrados.

Sobre leões de bronze alto s'erguiam
Funestas urnas de inscripções coalhadas;
Emtôrno aureas alampadas que ardiam,
D'alli affastam sombras carregadas :
Com desusado assombro os Lusos viam
Em jaspe oriental as entalhadas
Effigies de reis barbaros; sustinham
Na dextra a espada, e diademas tinham.

No centro bem do templo, e levantado
Mais que os outros, um tumulo se ostenta;
De mais suberbos symbolos ornado,
Aos enlevados Lusos se apresenta :
De alabastro finissimo lavrado
Feminil busto a magestade augmenta,

E diz que illustre cinza alli se encerra,
(Se é nobreza o que é cinza!) e escura terra.

«Que despojos mortaes no seio occulta (Velloso exclama) a triste sepultura,

Que entre os suberbos mausoleos avulta
Mais na funerea pompa e na esculptura? »
<< Este o podêr dos seculos insulta
Tropheo de amor, e tymbre da ternura,
(Lhe diz o velho; e se lhe enfia o rosto,
Onde se pinta a imagem do desgôsto.)

Aqui s'esconde misera donzella,

(Torna em soluços) que a mesquinha sorte Fez entre todas por extremo bella;

Deu-lhe a belleza um throno, e deu-lhe a morte:
A seu berço fulgiu maligna estrella;
Do que hoje é nosso rei ja foi consorte,
E a mesma augusta mão que a eleva tanto,
Á morte a quiz votar, e a nós ao pranto.

Desde a origem do imperio é lei guardada,
Que esposa veda ao regio dominante,
Que possa ao throno alçar-se, e ser chamada
Sobre estes povos árbitra e reinante :
Lindára, tanto por seu mal amada,
Tanto soube prender o incauto amante,
Que elle da lei fundamental se absolve,
E erguer ao solio a misera resolve.

Chega o termo fatal; fausto, e grandeza
Se contemplava em tudo, em tudo havia:
Subia ao throno; toda a natureza,
Vendo-a no solio, é subito sombria :

Eu vi n'um veo de funebre tristeza
A nossos olhos esconder-se o dia;

Eu tudo em lucto vi, tudo em desmaio,
E vi sem nuvens fuzilar um raio.

Lindára muda a côr, treme a s'espanta,
E cuida o rei que o ceo se mostra irado,
Que manda o raio porque a lei quebranta,
Que não permitte esposa ao regio estado:
Do magestoso throno se levanta,
Como da morte horrifica assombrado;
Mais e nais cresce a sombra horrenda e feia,
O ceo fuzila, a terra balanceia.

Com tam tristes signaes espavorido,
Cuida escutar a voz de eterno arcano;
(Do fanatismo barbare opprimido,
Seu mesmo mal abraça o peito humano;)
Julga que o ceo se aplaca, enfurecido,
A golpes, qual não dera um tigre hircano :
Sem se abalar da natureza ao grito,
Julga virtude heroíca um delicto.

Assim confuso, trémulo e suspenso,
Co'a malfadada esposa premanece;
Mais se carrega o ar sombrio e denso,
Que subito relampago esclarece :
Rompe o lume trisulco o espaço immenso,
Lambe-lhe o sceptro e purpura, e fenece:

Elle a chamma fatal vendo apagada,
N'um ponto arranca a fulminante espada;

E clama: << Eu quiz no throno a formosura,
Qual nunca a natureza a humanos dera;
Não foi cego capricho da ventura

Quem Lindára conduz do throno á esphera;
Mas oiço a voz do ceo na sombra escura
Que me intíma do imperio a lei severa;
Sacrifique-se á lei de amor a chamma;
Que do estado o dever mais alto clama.

Eu sei cortar d'amor o laço estreito... >>
E abaixa a espada triumphante em guerra;
Todo no eburneo, delicado peito

O ferro infausto e deshumano enterra:
So ficam lirios no formoso aspeito,

E corre o sangue em borbotões na terra...

Do tremendo espectaculo da morte
Mudo se aparta o povo espavorido;
Nos annaes que com sangue escreve a sorte
Nunca foi quadro similhante ouvido :
Nada póde existir que o rei conforte,
Inda hoje em mágoa, em sombras involvido;
E é testemunha o mausoleo suberbo
Do amor antigo e do tormento acerbo. »

Com tam barbara scena ambos os Lusos,
Sem saber ond'estão, se olham pasmados,

Os olhos volvem tremulos, confusos,
Pelos tristonhos tumulos sagrados :
Crem que magica vara os tenha illusos !
O sacerdote que interpreta os fados,
Vendo o assombro que n'elles se derrama,
Com tom de voz prophetica lhe exclama :

<< Em voz de assombro a imagem se devisa,
Offendida observando a natureza;
D'est'arte o fanatismo a tyranniza,
E os brados sens indomito despreza :
Assim despota horrendo insulta e piza
Ternura, amor, podêr, sceptro e grandeza,
E d'Asia, onde ides, os imperios cheios
São d'estes quadros horridos e feios.

Este onde estais imperio poderoso
Abrange quasi a fertil Taprobana :
Grande em commércio, em guerras é famoso,
De antiga origem de tropheos se ufana :
Talvez que seja o berço glorioso

Onde teve princípio a especie humana;

Mas perdem-se os annaes, perde-se a historia N'ésta, escondida em seculos, memoria.

Mas no meio uma voz d'antiga gente,
De gerações em gerações mandada,
Nos diz que uma nação, desde o Occidente,
Virá do mar cortando a vitrea estrada;

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