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Edificadas altas officinas

D'um consagrado e pudico convento: Um peregrino alli de peregrinas Pedras com jamais visto intendimento Um retabolo fez, que parecia

De rica e subtil marceneria.

De Pario alabastro marchetava
O Corinthio porphydo enxerindo
O jaspe em luso marmore; que estava
Suspenso o rei, pintar-se presumindo.
Brutescos e cordões dependurava
(Tudo de pedra) que se estará rindo;
Quem não viu ésta obra desusada,
De muitos que a viram celebrada.

Não so no altar sancto se embebia
O moço rei; que está rapto e enlevado
Ouvindo tam suave melodia

Que lhe parece estar beatificado.

Mas como para o mundo emfim pendia, Sai-se do templo a ver o mar inchado, Descobrindo d'alli do Olympio monte Do meio orbe terreno o horisonte.

Tendo sempre presente na memoria
0 que lhe o seu esforço promettia,
Dos seus passados á superna glória,
Que n'elle o tempo assim escurecia,

A prolongada empresa, e obrigatoria
A quem a lei de Christo pretendia
Estender até o ultimo terreno

Contra a força do barbaro Agareno.

Mágoa com que ao mar o rosto víra
Por lhe não renovar tristes lembranças!
E caminhando assim triste suspira
(Effeito de compridas esperanças)
Do monte desce emfim onde subíra
A ver o que é sugeito de mudanças,
E fonte de perigos não cuidados
So para cubiçosos ordenados.

Ve que as nuvens abaixo errando andavam
Cubrindo os valles que altas serras fendem ;
Desce até que per cima lhe ficavam,
Que em fria sombra pelo ar se estendem.
Bosques de ferteis plantas se mostravam
De cujos ramos varios fructos pendem ;
Umas e outras sempre florecendo,
Como que sempre fosse amanhecendo.

Ouvindo as rotas lymphas que cahindo
Per entre lisas pedras murmurando
Parece certo alli que véem sentindo,
O que no peito o moço está traçando :
Onde Flora de Zephyro fugindo
As esquecidas folhas meneando

Do bosque, bem parece que dizia
Porque tam cruelmente lhe fugia.

Sendo nectar e ambrósia alli o rocio
Que em matutinas flores lento e grave
Cahindo la do ceo, coalhado e frio
Da astuta abelha era manjar suave :
Debaixo de um castanho alto e sombrio
Se assenta o Luso porque mais o aggrave
Seu mal, ouvindo ao som de claras aguas
Passarinhos cantarem ternas mágoas.

Alli pois divertindo o vagamundo
Pensamento, mil cousas considera
Por applacar o peito furibundo,
Que com nenhum repouso se modera:
Alli ve que o que foi senhor do mundo
Que mais, depois de se-lo, não quizera
Que lograr o repouso desejado

Em doce companhia congregado.

Mas nada o satisfaz, porque faltando
Ao appetite aquillo que deseja,
(0 peior muitas vezes desejando)
Nada o queira emfim, por mais que veja ;
E assim todo o repouso desprezando
Abraça uma interna e van peleja :
D'onde turbado e triste se levanta

Depois que de confuso se quebranta.

Per entre os lisos troncos corcovados
O passo move aonde escritas crescem
Várias tenções de peitos namorados,
Que em perpétua memoria permanecem :
Estão do tempo alli dos reis passados,
Que os cortezãos d'agora ja aborrecem
A pureza de amor, porque chorando
Não andem as pobres árvores riscando.

Cintra se chama ésta deleitosa
Parte, aonde repouso o moço engeita.
Vai pensativo achar ua cavernosa
Pedra de largo ventre e porta estreita.
Ousado entra na grutta temerosa,
E uma lamina dentro escripta espreita:
Toda arabigos versos a occupavam,
Que grandes cousas lhe prognosticavam.

Descobre a breves passos altos teitos
Per entre a mais espessa e verde rama,
D'algua mais que humana industria feitos,
Quaes não cantou moderna e antiga fama,
Não consumindo outros tam perfeitos
O longo tempo ou Dardania chamma.
Igualmente o louvor se alli reparte,
Não excedendo a materia á arte.

Entra subindo per torcida escada
De marmores luzentes jaspeados

A varios corredores de estremada
Vista, e parapeitos relevados ;
Ouvem a voz humana retumbada
Os passaros nocturnos, e espantados
Fugindo vão da luz e teitos ricos
A dar nas mãos dos inimigos bicos.

Entrando logo na maravilhosa
Casa dos brancos cysnes que guardando
O costume, na morte tenebrosa
Parece certo alli que estão cantando.
Avante passa, onde uma dolorosa
Nympha mostrava estar-se-lhe queixando
cima lhe corria,

Da agua que per

Que n'uma curva concha alli cahia.

D'uma banda do solio coarteado
Sahindo de clara agua uma espadana
Que, mais de duas lanças levantado,
Parece que repugna á industria humana.
Da outra parte um teito está dourado
Que os quatro ventos tem, per onde mana
Fresco rocio, e ás vezes se exprimenta
De bravo hinverno alli brava tormenta.

Logo a galé avante a vista espanta,
De tarjas cheia, onde está pintado
O monstro da septivoca garganta,
O Cerbero trifauce encarniçado;

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