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Que antemão obsequente, officioso
Lhes moldára nos labios infantis
As primeiras palavras carinhosas

Com que do berço os maternaes semblantes
Souberam borrifar de almo surriso,
Por ir (oh ingratidão! oh esquivança ! )
Estragar com mão pródiga thesouros
Em desdenhosas terras forasteiras.
Oh desdouros da patria! oh inimigos
Da lingua em que nascestes, vos creastes,
Da lingua a quem deveis todos os lucros
Do saber, do talento e ingenho vosso!
E esquecê-la podestes? desprezá-la?
Negar-lhe o foro dos caudaes estudos?
Quem sabe se esse inmerito descuido
Dos bons, que aformosaram vosso idioma
Se esse cultivo de estrangeira phrase
Não foi a lança mais aguda e forte
Que lhe abriu as feridas mais profundas?
Talvez se não cessasseis de alinhá-la,
De a alimentar com vosso estudo e lida,
Sería inda hoje aquella que com tanto
Brado se fez no mundo honrada e altiva.

Outro infortunio prolongon funesto
Nas lusitanas lettras, o prolixo

Marte, que supportámos corajosos

Em nossos braços, por manter no augusto Solio o recem-subido soberano

Contra as rapaces mãos usurpadoras
Que, annos sessenta, nas espaduas curvas
Do ferreo sceptro o conto nos calcaram.

O alvorôto e tumulto que comsigo

Trazem bronzeos canhões, roucas bombardas, Mal convem c'o remanso de Minerva,

Co'a amena calma das pousadas musas.

Os que Apollo influiu

, por Marte o deixam, Depoem os livros, os broqueis embracam; E em logar dos accentos numerosos Com que ínclytas ideias se revestem, So teem o agudo ouvir aberto á l'arma, So teem do irado olhar cravado o lume Na ardente bala ou carniceira brecha.

Quem não ve pois, que em quadras tam esquivas
A lyra emmudeceu, parou a pluma,
Emmagreceu a lingua que se nutre
De ocio de vates, de ocio de oradores
Que altiloquos resoam? No sanctuario
Das lettras puro, e até então guardado,
(N'essa hora de atalaias desprovido)
Pelas portas lhe entrou mal-agourada
A ignorancia ladeada da caterva
Dos erros, das maleficas doctrinas.
As mãos se deram sempre pelo mundo
Esses dous feios brutos tragadores

Do ingenho, e do primor das boas artes.

Vêde a Grecia, suberbo monumento
Da arrojada solerte humanidade,
Milagres da arte a cada passo erguendo
Ante os olhos attentos do Universo;
Profundos meditando, disferindo
Modelos do saber sublime e nobre,
Tam eloquente, quam limado e terso;
Hoje esquecida Grecia, hoje ignorante,
Hoje bruta, de bruto dono é scrava!

Tu podeste, ignorancia mal-querente,
De torpes dogmas sempre bem provída,
Destruir as searas das sciencias
Com tal suor plantadas e florídas.

Assim foi descuidada e embrutecida
A nossa lingua illustre. Os Portuguezes
Co'a pertinaz tormenta desgarrados
Da bem-assignalada antiga esteira *
Perderam o bom tino ao saber puro,
Que em eras de Camões, eras de Barros
Grangeado tinham nos lyceus da Europa.

Nós hoje se prezâmos levantar-nos

Ao grau
de glória a que eramos subidos,
Trilhemos senda que ampla nos abriram
Nossos maiores no apurar do ingenho.
Elles da grega lingua, e da latina

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Tomaram cabedaes com que adornaram
De garbo, e de melindre a lusa falla,
Lusa escripta. (Brasão d'essa era augusta
Que nos deu nome em toda a redondeza
(E o brado inda resoa.) A lusa falla,
Que hoje é mofa e baldão de peralvilhos,
Que ensossos passam per estranhas linguas
Minguados na materna a quem desdenham,
Porque inda aptos não são para invejá-la.
Ridiculos que tentam pôr eschola
D'uma lingua meiada de hervilhaca
Mal colhida em mau signo, chocha e mocha
Que trava na garganta do criterio !
Fogem da lingua san, chamão-lhe antiga...
E vão dar de malhão n'um neologismo
Sem sabor, mal fundado, e mal acceito...

XIII.

Apostrophe aos escriptores sobre o estudo da lingua e dos bons modelos.

Vates sublimes, nobres oradores,
Dae rios perennaes de alta loquela;
Enlevae, persuadi, dae pasmo e assombro;
Troem na altiva boca os sons ousados,
Ou melliflua mane a melodia

Do canto que infeitiça o intendimento;
Ponde somente o fito na energia

Das cores com que dais luz ao conceito;
Que essas côres ja novas, ora antigas,
Abastarão a lingua. E esses que ouvem,
Esses que lêem o arrojo das palavras,
Incantados do altivo das ideias,
Dos accesos matizes da pintura,
Não irão indagar se vem de Barros,
Se de Horacio, de Cicero ou Vieira
A voz que lhe den na alma o nobre abalo.
Perde-se a côr de chumbo, a de junquilho
Quando o pincel as mescla na palheta;
E so no quadro avulta a similhança
Que illude e representa o vivo objecto
Que a natureza amostra, e que a arte esconde.

E vós ainda disputais ferrenhos

Se havemos de fallar como peraltas;
Se affroso, rango, populacea, egidio
Devem ter entre nós assento e posse,
Ou se havemos de pôr em exterminio
Quicá, mau grado, asinha, outrora, ávante.
Eis-nos pois deparados n'este ensejo,
Como esses aldeões que ainda esquivos
De possuir herdades, nem courellas *,
Que com Baccho e com Ceres lhes accudam,
Altercassem vermelhos e afinados

Sobre o gume de foices e podoas.

Pedaço de terra com cem braças de longo e dés

de largo.

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