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Que pende para quem com louçania,
C'o dom de aurea dicção, dá garbo ás fallas,
Varia,
estrema a phrase mais venusta,
Com que dote de esplendida riqueza
De seu discurso a intrepida estructura.
Que é suberbo palacio um bom poema,
Cuja fachada, camarins e salas

Com regia pompa ser ornados pedem.
O ouro e o matiz das sedas e pinturas,
Dos cofres mais reconditos da lingua
Os tira á luz o próvido poeta.
Vocabulos, effigies dos objectos,
Que Camões, que Vieira memoraram
Que informe po cobre hoje; se erudita
Mão lh'o sacode, e as cans remóça activo,
Com lingua rica aditará a Elysia.

IX.

Como se arruinou a lingua e poesia portugueza; -Concisão sublime.

Quando orpham de bons classicos o idioma
Se viu ao desemparo, ao desalinho
D'um tropel de ignorantes, todo o rico
Custoso cabedal que tinha herdado
Da ância do estudo de escriptores sabios,
Se esvahiu pelas mãos de ruíns tutores.
Um fastioso de após, desfez-se d'elle,

Este espancou quicá, ess' outro asinha;
E assim dos mais. Foi roupa de Francezes.
Os terinos mais energicos, mais curtos,
Os mais sonoros, por melindre ou birra,
Foram longe da lingua degradados.
E outros foram perdidos por desleixo.
E nós de avítos bens herdeiros lidimos,
N'um patrimonio entrámos defraudado
D'ouro, padrões, alfaias nu e cru.

Vistes vós n'uma casa onde morreram
Pae e mãe, e mui ricos, mas sem dono
Ficam muitos filhinhos?-Um começa
A descompor gavetas, a abrir cofres,
D'um lenço de cambraia faz zorrague,
Cavalga outro em bengala castão-de-ouro,
Este um dedal de prata, aquelle um diche
De subido valor, pela janella,

Brincando ou descuidado, deita à rua;
Rodam broches e anneis pelo sobrado,
(Preço de muitas lidas!) -sobem logo
Enxames de rapazes con-vizinhos
Barulheiros, daninhos ou milhafres,
Que bolem, quebram, vasam, pilham, levam,
Ouro, diamantes, louça, doces, fructa;
E uma herança, atélli graúda e rica,
Pára em mesquinha misera pobreza.
Tal da lingua os thesouros se escoaram
Em poder de crianças litterarias,

De personagens nescias ou perluxas.
Vede em tal desbarato, em tal desleixo,
Que valente orador, vate atrevido
Póde fallar conciso, ser ornado,

Ser altiloquo ou terno, se lhe faltam
Cabedaes com que abaste, com que enfeite,
D'onde tire, a prazer, a expressão curta
Que encrava mais profunda na alma a ideia ;
E não meandros de torcidos tropos
Que resvalam do ouvido da memoria,
Antes que o fio da vindoura phrase
Se áte c'o fio bambo da ja lida!

Remontar ao << sublime» ha sido sempre
O perpétuo lidar, o fito nobre

Dos que as obras meditam, que os vindouros
Desempoem com fructo, com agrado:

E o sublime quer grande e nova ideia,
Curta, e que muito senso aperte em summa,
Que se inepto, por falta de baixella,
Lanças em vasto desbordadlo vaso
A pura activa essencia concentrada
O concebido spirito sublime
Na vasteza chocalha e se derrama,
Perde o cheiro, o vigor, e mes-cabado
Na turba das surrapas se deshonra.
Tu mormente, oh poeta, a quem no encaixe
Do verso, estreito emprego e estofa, cabe,
Se em palavras transbordas, vas per

fora

Da marca abalizada , e dás c'o verso,
Desattento, a travez: e desde o introito
Enojas, e os ouvintes adormentas.
Sé mui parco na ensancha das palavras,
Se ousas tocar as raias do «< sublime, »>
E dos ouvidos despota, se queres
Te-los captivos a teus dignos versos:
Mas para parco ser thesouro ajunta ;
Que sem muita lição serás verboso.
Quanto mais ferramenta tem o mestre,
Mais faceis, mais subtis perfaz as obras.
Quanto mais panno tem, mais poupa o corte,
Menos monte alardeia de retalhos
A afreguezada experta costureira.
Na casa em que a despença recheada
Acode á meza com sobejo alarde,
Banquetes (com que o pobre se arruína)
O rico os dá frequente a pouco custo.

X.

Methodo de estudar a lingua.—Classicos; Vieira; Lucena; Bernardes; Ferreira; Brito; etc.; Jacintho Freire.

Se queremos achar abertas veias

Do custoso metal que as fallas doura,

Visitemos as minas encetadas

Pelos nossos antigos escriptores,

Xevij

No Lacio e Achaia, que inda nos convidam
Co' largo aberto seio a ser ricassos.
E se a ruim priguiça vos atalha
Mover o passo a longes territorios,
Tendes em casa, e a vossas mãos disposto,
O producto das minas ja cavado
Limpo de fezes chrysolado e puro

Nos Paivas, nos Lucenas, Britos, Barros.

Entre abbobadas longas intrincadas,
Labyrinthos reconcavos e escusos
De conceitos agudos predicaveis,
De bastardo saber, de ingenho vesgo,
Ha per cantos escuros, per desvios
De sermões requintados do Vieira,
Desprezados torrões de ouro encuberto,
Que enriquecer mil paginas poderam
Per artifices mãos melhor lavrados.

Tem Lucena capitulos * tam cheios
De lusa preciosissima abastança,
Em phrase e termos escolhida e nobre!...

Em seu fluído estylo vai Bernardes

Serpeando manso e manso até

que mana

Dos ouvidos nas íntimas entranhas,

* A descripção da nau da India, a das ilhas Malucas, a dos costumes dos Chins, o combate dos Achens, etc.

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