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Que pela cruz com que ia atravessado
Foi do rei valeroso conhecido:

« Diogo Alvares Pereira », em alto brado
<< Não fujaes <«<lhe bradava » sem sentido,
Que agora amigo em mim tereis, melhor
Do que vós ja me fostes servidor. >>

Voltou atrás o rosto o cavalleiro
De po, sangue e suor cuberto e cheio,
E vendo o rei piedoso e verdadeiro,
Inda que com vergonha e com receio
Confessando o seu êrro de primeiro,
Cruzando os fortes braços, se lhe veio
E com o sangue e lagrymas nos olhos
Perdão lhe está pedindo de giolhos.

Alli o deixa o rei n'aquella estancia,
Na guarda dos peões, feros soldados,
Entre presos de menos importancia,
Que o mesmo rei lhes tinha encommendados,
E em quanto com destreza e vigilancia
Recolhe os seus guerreiros espalhados,
Os barbaros peões sem mais respeito
Provam a furia vil contra um sugeito.

Que em o vendo entre si sem resistencia
E ausente o rei tam forte como humano,
Dão a seu êrro antigo penitencia
Polo signal que tinha castelhano:

Com uma sem-razão, fera inclemencia
Foi morto a lanças vis o Lusitano
Que com espada, lança e braço forte
A tantos na batalha dera a morte.

O campo recolhido sabiamente,
Voltando dom Nun'alv'res com gran' preza,
Cansado do trabalho, mas contente
O sol da patria terra portugueza,
No arraial põe guardas diligente,
Fazendo contra a sorte fortaleza,
Que mil vezes mudavel víra o rosto
Em tragedia trocando o maior gôsto.

Alli c'os passatempos costumados
Tres dias teve o rei de grande glória,
Dividindo os despojos aos soldados,
E gosando os descansos da victoria.
N'aquelles largos campos celebrados,
A que hoje inda engrandece ésta memoria,
E aonde o caminhante alegre e ledo
Apontando os logares vai c'o dedo.

R. LOBO, Condestabre.

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HELENA

DESPOIS DA DESTRUIÇÃO DE TROIA.

Arde a Neptunia Troia ja rendida
Ao cavallo fatal e grega espada,

Em cinza, em fumo, em sombra convertida,
Que a glória humana é fumo, é sombra, é nada:
Ja tractavam os Gregos da partida,
Carregando o despojo á grande armada:
E entre tam rica e soberana preza
Era a formosa Helena a mor riqueza.

Ja co'a causa e desculpa do troiano
Excidio que na cinza inda fumava,
Soltando a redea ás naus, o soberano
A gamenon as ânchoras levava :
Da negra antena despregando o panno,
Que indo prenhe do vento que soprava,
O porto deixa, o alto mar cortando;
Vão-se as praias e os montes affastando.

O destroço fatal de Troia viam

Das naus que o Hellesponto atravessavam

Os Gregos, quando a vista suspendiam
Nas terras que ja apenas divisavam.
So nas partes mais altas pareciam
Uns vestigios das torres que ficavam,
Adonde a vista o mais que determina
É medir a grandeza co'a ruína.

Amphiteatros, máchinas e muros
Pyramides, colossos levantados,
Obeliscos que mostram star seguros
Contra a força dos tempos e dos fados,
Jazem sem fama em cinza vil, escuros,
Das idades por fabula postrados;

Que o tempo os bronzes e columnas parte,
E os poderes da morte iguala Marte.

De bandeiras e flamulas ornaram
A victoriosa armada que partia;
E as proas para Ténedo inclinaram,
Que um bosque sobre as ondas parecia :
Que alli vão despedir-se concertaram,
Onde a anchora pesada o sal fería;
Sobre ella quando o fere, se dilata
O mar azul em circulos de prata.

Ambos de Atreu os filhos valerosos (Antes que um va a Esparta, outro a Missena) Queriam despedir-se, desejosos

Que alli possa alegrar-se a bella Helena :

Com elles sai ao campo, e os seus fermosos
Olhos, de que reparte glória e pena
Amor que assaltear d'elles aprende,
Pelo flórido campo e praia estende.

De ve-la o mesmo ceo se namorava,
E o ar no do seu rosto se accendia,
O mar, quando ella as conchas lhe furtava,
Parece que a beijar-lhe os pés corria.
Quem as divinas graças que mostrava,
Contar quizer, mais facil lhe sería
Contar as flores do lascivo maio,
E do sol os cabellos raio a raio.

Pela testa sem ordem desparzido
Sôlto o cabello voa livremente,
Onde sai a aqueixar-se de opprimido
De uma cinta de pedras refulgente.
No hombro soa o arco do brunido
Marfim ; no lado a aljava está pendente:
Com menos graça ao bosque entrar costuma
A bella deusa que nasceu da escuma.

G. P. DE CASTRO, Ulyssea.

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