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Sobre o rôlo das ondas que quebranta,
Espumoso nos ares se levanta.

Com largos braços seus de branca areia
Calypso abraça os filhos transformados,
Que nas ondas do Tejo, que os rodeia,
Mostram seus duros corpos levantados,
E misturando o sal co'a doce veia
Do rio, os bravos máres empolados
Alteram com mor força e maior furia,
Como em lembrança da passada injúria.

Teem nas portas do Tejo levantada
A testa altiva e fera, ameaçando

As naus que buscam porto e doce entrada:
De branca escuma as ondas coroando,
Alli o mar com roucas ondas brada
Nos penedos altissimos quebrando,
Que ruínas maritimas preparam
E o nome de Cachopos conservaram.

G. P. DE CASTRO, Ulyssea.

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Está na entrada da tartarea porta
Precipicio de medo e horror cheio,
Onde os fios vitaes Atropos corta,
Onde é confusão tudo, tudo enleio :
D'alli, donde a esperança fica imorta,
E habita o sobresalto c'o receio,
Corre um valle, per onde desce a gente
Perdida para o reino descontente.

Per aquelle vazio o Averno alento
Pestifero respira, misturado

C'os gemidos das almas que em tormento
Blasphemam do rigor do ceo irado :
Confunde grosso fumo o negro assento
Que nunca raios viu do sol dourado,
Donde se ouvem rugir feras impías,
E nos ares gritar torpes harpyas.

Ouvem-se alli do Cérbero latrante
Os triplicados, horridos latidos,

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Com os brados do velho navegante

Que á barca chama as almas dos perdidos.
Fama é que per alli desceu o amante
A quem Pluto e Prosérpina, vencidos
Do doce canto, a amada concederam
Que seus olhos segunda vez perderam.

E o que susteve os cercos crystallinos
Quando Atlas fiou d'elle o pêso puro,
E aquelle que á gentil filha de Minos
Ingratissimo foi sôbre perjuro;
E outros que vãos seguindo desatinos
Quizeram penetrar o centro escuro:
Tambem o infernal rei co'a doce amada
Tantos tempos da mãe em vão chorada.

D'aquelle sitio horrivel e espantoso,
Aquem teito é disforme, immenso monte,
Com brado horrendo o anjo tenebroso
Os ministros chamou de Phlegetonte:
Não quiz passar o negro estreito undoso,
Podendo-lhes servir azas de ponte,
Que aos protervos desejos em que ardia,
Um ponto eternidades parecia.

Logo do abysmo os negros moradores
Que na ambição primeira conspiraram,
Enchendo o ar de horrorissimos clamores
Ante o mesmo furor se apresentaram.

Que monstros de íra e de discordia auctores!
Que de medonhas fórmas se ajuntaram
De Chymeras, Pytões e Minotauros,
Hydras, Esphynges, Dragos e Centauros !

Viam-se alli na multidão diffusa
Briareus de cem braços descompostos,
Serpentinas cabeças de Medusa
E de feios Cyclópes féros rostos :
Emfim viam-se alli cópia confusa
De diversos aspeitos e suppostos,
Cujos feios extremos de bruteza
Desconhecia a mesma natureza.

A multidão suberba ja esperava
Que o capitão do Erébo relevasse
O caso que dor tanta lhe causava,
E em seu fatal serviço os occupasse.
Quando elle, que té então calado estava
Para que o caso em mais se reputasse,
Bramou, gemeu o carcere fumante,
Tremeu a terra, descompoz-se Atlante.

Horrivel gravidade ao fero aspeito,
Gemendo triste ajunta, e exhalando
Infausto fogo do abrazado peito,
A lingua assi vibrou, vociferando :
« Tartareos anjos dignos de respeito,
Que depois do gran' caso miserando

Soffreis injusta pena, despenhados
Do Olympo, para quem fostes creados.

Em logar nosso, aquelle que governa
La de cima do claro firmamento
Estrellas, sol e lua, e ca na interna
Escuridão do reino do tormento,
Formando o homem vil, ja da superna
Região lhe deu o crystallino assento
Que n'um tempo occupou o senhor vosso :
Nunca tam grande dor esquecer posso!

Presente agora tenho na lembrança
Quando do nada o homem foi creado,
Que com ingrata e douda confiança
Comeu do fruito que lhe foi vedado.
Em logar de querer d'elle vingança,
Ordenou como fosse resgatado,
Quando por justa pena merecia
Não ver, nem gosar mais da côr do dia.

Emfim por elle o filho á morte entrega;
E o filho com morrer triumphou da morte,
E descendo triumphante á região cega
As portas quebrantou do muro forte,
Abriu nossas prisões: que a tanto chega
A gran' miseria nossa, oh triste sorte!
Levando as almas, que em poder tivemos,
A occupar as cadeiras que perdemos.

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