Pagina-afbeeldingen
PDF
ePub

Amar como elle amou e ser amado,
E receber a desventura em paga!
Vinde-lhe ouvir o canto maguado,
Que as suas illusões anima e afaga;
Basta fallar d'amor para, animado,
Logo do seu amor se abrir a chaga;
Sente, commove, o coração fascina;
És tu, és tu inspiração divina.

Ó lagrimas de Ignez, quem não derrama
Sobre vós, se alma tem, a alma em pranto?
Ó ilha dos amores, quem a chamma
Não sentirá de teu suave encanto?
Infeliz do poeta que não ama,

Porém mais infeliz quem ama tanto
Para soffrer como elle, sempre auzente
Ou perto ou longe da que tem na mente.

Camões, da patria desterrado morre,
Expira, expira ahi, bardo sublime,
Dão-te as muralhas de segura torre,
Pobreza, andrajos e até mesmo o crime;
A injuria te recebe e te soccorre,

E em tua fronte nobre as mãos imprime;
Mas não, a patria a que exaltaste o nome,
Tem para dar-te o hospital e a fome!

E vêr as suas praias tu querias,
Que te restava a lisongeira esp'rança
De despontarem mais formosos dias,
E na tua existencia haver mudança.
O seu e teu futuro lhe trazias

N'um livro; n'elle tua fé descança;
E ella, tambem ella, a que te amava
Atravez do oceano te chamava.

Chegas, e o sonho teu se desvanece!
Foi-se o amor, é morta a formosura!
De si a patria, e mais de ti se esquece!
O que te resta, pois? a sepultura!
Ninguem, ninguem de ti se compadece!
Querem-te a gloria; deixam-te a amargura!
Se não fosse o teu Jáo, o teu abrigo,
Não houveras ninguem - nem um amigo!

Vergonha, opprobrio á geração ingrata,
Que assim o egregio vate galardoa;
Vergonha á patria que á penuria o mata,
E o despreso lhe dá como corôa,
Emquanto generoso á que o maltrata,
Em vez de maldizer, elle perdôa!
Sobre a ruina sua geme e chora,
E d'ella o fado, não o seu, deplora.

Porém levantas-te a final do leito,

Onde a sorte, onde a incuria te ha lançado,
Ingrato Portugal, e contra o peito
Apertas o teu vate desprezado:

Ao grande genio vens pagar o preito;
Escutaste do mundo o justo brado.
Oh! vem; se já tres seculos correram,
Maior a tua divida fizeram.

Vem; é grande, é solemne este momento!
E ao divino cantor da tua gloria
Faze sobre seu nome o juramento
De viveres de novò para a historia,
Que n'isso lhe darás contentamento
Maior, que julgará maior victoria
Ver-te, qual d'antes, forte e venturosa,
Do que dever-te esta ovação famosa.

OPINIÃO DA JMPRENSA

« VorigeDoorgaan »