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CXXXXVIII.

SE me vem tanta gloria fó de olhar-te,
He pena defigual deixar de ver-te.
Se prefumo com obras merecer-te,
Grão paga de hum engano he defejar-te.
Se afpiro por quem es a celebrar-te,
Sei certo por quem fou que hei de offender-te,
Se mal me quero a mi por bem querer-te,
Que premio querer poffo mais que amar-te?
Porque hú tao raro amor nao me foccorre?
Oh humano thefouro! Oh doce gloria!
Ditofo quem a. morte por

ti corre!
Sempre efcripta eftarás nefta memoria;
E efta alma vivirá, pois por ti morre;
Porque ao fim da batalha he a victoria.

CXXXXIX.

S Empre a razão vencida foi de amor;
Mas porque affi o pedia o coraçao
Quiz amor fer vencido da razaó.
Ora que cafo póde haver maior!
Novo modo de morte, e nova dor!
Eftranheza de grande admiraçao!
Pois, em fim, feu vigor perde a affeição,
Porque nao perca a pena o feu vigor.
Fraqueza nunca a houve no querer,
Mas antes muito mais fe esforça aflim
Hum contrario com outro por vencer.
Mas a razao que a luta vence
em fim
Nao creo que he razao, mas deve fer
Inclinação que eu tenho contra mim.
Gii

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2

CL.

CL.

Citado,
Oitado, que em hú tempo chóro, e rio;
Efpero e temo; quero, e aborreço ;
Juntamente me alegro, e me entrifteço;
Confio de huma confa, e defconfio.

Vôo fem azas; eftou cego, e guio;
Alcanço menos no que mais mereço ;
Entao fallo melhor quando emmudeço;
Sem ter contradiçao fempre porfio.
Poffivel fe me faz todo o impoffivel;
Intento com mudar-me eftar-me quedo ;
Ufar de liberdade, e fer captivo.
Queria vifto fer, fer invifivel;

Ver-me defenredado amando o enredo;
Taes os extremos faó com que hoje vivo.

J

CLI.

Ulga-me a gente toda por perdido, Vendo-me taó entregue a meu cuidado, Andar fempre dos homées apartado, E de humanos commercios efquecido. Mas eu que tenho o Mundo conhecido, E quafi que fobre elle ando dobrado Tenho por baixo, ruftico, e enganado, Quem nao he com meu mal engrandecido. Va revolvendo a terra, o mar > e o vento, Honras bufque, e riquezas, a outra gente, Vencendo ferro, fogo, frio, e calma.

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Que eu por amor fómente me contento
De trazer elculpido, eternamente,
Voflo formofo gefto dentro da alma.

CLII

Lhos, aonde o Ceo com luz mais pura Quiz dar de feu poder claros fignais, Se quizerdes ver bem quanto poffais, Vede-me a mi que fou voffa feitura. Em mi viva vereis voffa figura, Mais propria que em puriffimos crystais Porque nefta alma he certo que vejais Melhor que em hum crystal tal formofura. De meu nao quero mais que o meu defejo, Se acafo por querer-vos mais mereço, Porque o voffo poder em mi fe affelle.

,

Do Mundo outra memoria em mi nao vejo: Com lembrar-me de vós, delle me esqueço; Com triumphardes de mi, triumpharei delle.

CLIII.

CReou a natureza Damas bellas,

Que foram de altos plectros celebradas
Dellas tomou as partes mais prezadas,
E a vós, Senhora, fez do melhor dellas.
Ellas diante vós fao as Eftrellas,
Que ficam com vos ver logo eclipfadas:
Mas fe ellas tem por Sol etlas rofadas
Luzes de Sol maior, felices ellas!

Em perfeição, em graça, e gentileza,
Por hu modo entre humanos peregrino,
A todo bello excede efla belleza.
Oh quem tivera partes de divino
Para vos merecer! Mas fe pureza
De amor val ante vós, de vós fou dino.

CLIV.

Ue efperais, efperança ? Defefperood i
Quem diflo a caufa foi? Hun husdança.

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Vós, vida, como eftais Sem, elperança. Que dizeis, coraçao Que muitonquero... Que fentis, alma, vós? Que amor he fero. E, em fim, como viveis Sem confiança. Quem vos fuflenta, logo? Huma lembrança. E fó nella efperais ? Sonella efperos sup on Em que podeis parar? Nifto em que eftou. E em que eftais vós? Em acabar a vidacion E tende-lo por bem 3 Amor o quer.

Quem vos obriga afli Saber quem fou. I E quem fois? Quem de todo efta rendida. A rendida eftais? Aham fó querer::1 quem

S

CLV

E como em tudo o mais foftes perfeita," Foreis de condiçao menos efquivagt er, Fora a minha fortuna mais altiva,

Fora a fua altiveza mais fujeita.

01

Mas quando a vida a voffos pés fe deita, Porque nao a acceitais, nao quer que eu viva: Ella propria de fi já a mi me priva,

Que porque me engeitais, tambem mé engeita.
Se niffò contradiz vofla vontade ,
Mandai-lhe vós, Senhora, que dè fim
A' minha profundiffima tristeza.

Pois ella nao mo dá porque piedade

Tenha defte meu mal, mas porque em mim.
Poffais affi fartar voffa crueza.

1

CLVI.

SA totveis, cua hum momento

E algum'hora effa vifta 'mais fuave

Me finto conr hum tal contentamento,'

Que nao temo que damno algum me aggrave.'
Mas quando com defdem efquivo, e graves
O bello rosto me moftrais ifento
Huma dor provo tal, hum tal tormento,
Que muito vem a fer que não me acabe.
Affi efta minha vida, ou minha morte,
No volver de elles olhos; pois podeis
Dar co' huma volta delles morte, ou vida.
Ditofo eu, fe o Ceo quer, ou minha forte
Que ou vida para dar-vo-la me deis,
Ou morte para haver morte querida.

CLVII.

TAnto fe foram, Nympha, coftumando

Meus olhos a chorar tua dureza,

Que vaó paffando já por natureza,
O que por accidente hiam paffando. ...
No que ao fomno fe deve eftou velando,
E venho a velar fó minha tristeza:
O choro nao abranda efta afpereza,
E meus olhos eftao fempre chorando..
Affi de dor em dor, de mágoa em mágoa,
Confumindo fe vaó inutilmente, et

E efta vida também vaó confumindo.

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Sobre o fogo de amor inutil agoa!
Pois eu em choro eftou continuamente,
E do
que vou chorando te vás rindo.

Affi nova corrente

Levas de choro cem foro

,

Porque de ver-te rir, de novo chóro.

CLVIII.

I

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