Pagina-afbeeldingen
PDF
ePub

A DENOMINAÇÃO "SERRA DA MANTIQUEIRA"

(ORVILLE A. DERBY)

A palavra serra» que, pelo menos na linguagem popular do Brazil. tem supplantado quasi todos os outros termos da nomenclatura orographica, acha-se empregada com duas significações bem diversas. A primitiva e mais correcta, suggerida pela semelhança ao instrumento do mesmo nome, é applicada a um conjuncto de montanhas constituindo um macisso composto de diversos picos, como a serra dos Orgãos; ou a uma cadeia ou systema de montanhas, ou cordilheira. como a Serra do Mar. A outra significação refere-se a montanhas isoladas ou aos membros de um systema de montanhas consideradas isoladamente. Bem á vista da cidade de São Paulo temos exemplos desta dupla significação na Serra da Cantareira, um macisso composto, e na Serra de Jaraguá, um pico, ou montanha isolada, pertencendo as duas ao systema, ou cordilheira, da Serra da Mantiqueira.

Na linguagem popular, que tem fornecido a maior parte das denominações geographicas, é a segunda significação que predomina. Qualquer desigualdade da superficie de certa importancia recebe o nome de serra, e sendo generalisada para abranger mais de uma feição topographice, é raro que

o mesmo nome seja applicado a mais de uma secção limitada de um systema montanhoso, como, por exemplo, a que a vista abrange de um ponto dado. Os nomes systematicos em regra geral não são dados pelo povo, mas pelos geographos que, reconhecendo a necessidade de uma denominação geral para incluir todos os membros de uma mesma cadeia ou systema, ou inventam termos novos, como sejam Serra do Espinhaço. Serra das Vertentes, etc.. ou dão maior extensão aos nomes que entre o povo têm applicação limitada e local. E' só quando o povo começa a se preoccupar com noções geographicas, ou quando uma feição topogrophica adquire importancia excepcional por sua riqueza natural ou por marcar uma divisão politica, que ha tendencia na linguagem popular a generalisar os nomes dando maior extensão ás denominações locaes.

No Brazil a Serra da Mantiqueira é um dos poucos exemplos de um nome popular se tornar systematico, e isto não somente entre os geographos como tambem entre o povo. Este ultimo facto se explica pela importancia dada a esta cadeia de montanhas na demarcação das duas Capitanias de São Paulo e Minas Geraes. Nos mappas do seculo passado. tanto de Minas como de São Paulo, o unico nome systematico que se encontra é este da Serra da Mantiqueira, e em documentos de 1740 a 1750 vê-se que o termo foi tambem empregado entre o povo mais ou menos conforme o seu uso entre os geographos, e não com limitação a uma parte determinada do systema.

Nos primeiros mappas em que se encontra o nome de Mantiqueira, este abrange toda a cadeia desile as visinhanças de São Paulo até as de Barbacena, de modo que não se póde determinar nelles a posição da primitiva Serra da Mantiqueira. Na epocha da confecção destes mappas (17651767), a serra nelles representada era cortada por tres estradas que do litoral davam ingresso na Capitania de Minas

Geraes. Eram estas a estrada do Rio de Janeiro pelo valle do Parahybuna para Barbacena, etc.; de Guaratinguetá para São João d'Elrei, e de São Paulo para o valle do Sapucahy, passanelo por Atibaia. Esta ultima tinha sido aberta depois da descoberta das minas de Sant'Anna do Sapucahy em 1746, quando o nome de Serra da Mantiqueira já estava muito em evidencia nas contendas entre as duas Capitanias sobre limites. A questão da origem e emprego primitivo do nome é portanto limitada ás duas estradas mais antigas de Barbacena e Guaratinguetá.

A primeira menção do nome que se tem encontrado nos documentos officiaes é nos autos de posse que tomou a Camara da Villa de São João d'Elrei de diversas localidades no districto da Campanha do Rio Verde. Estes autos lavrados em fins de Fevereiro e principios de Março de 1743 affirmam a posse antiga da dita Camara «pela estrada geral que vai deste districto para a cidade de São Paulo até o alto da serra chamada Mantiqueira». Ahi o termo é applicado a uma serra na antiga estrada de São João d'Elrei v Guaratinguetá e, apparentemente em sentido limitado a esta localidade, não estando porém excluida a hypothese de que o nome já era generalisado, podendo neste caso ter-se originado na outra estrada, a do Rio de Janeiro a Barbacena. De facto no mappa do sul de Minas de 1765 ha nesta estrada o nome Pé da Mantiqueira» não havendo nome geral para a cordilheira; e no mappa geral da Capitania de 1767 (os dous mappas são provavelmente do mesmo auctor, e nas partes correspondentes são quasi identicos) a mesma localidade tem o nome de «Rocinha da Mantiqueira», apparecendo tambem o nome systematico de Serra da Mantiqueira abrangendo toda a serrania entre São Paulo e Villa Rica.

É sabido que a primeira divisão entre as villas de Guaratinguetá e São João d'Elrei foi estabelecida no morro de Ca-xambú, onde a 16 de Setembro de 1714 a Camara daquella

villa collocou um marco de pedra e lavrou um auto formal de

posse.

Quando mais tarde, em 1720, foi creada a Capitania de Minas Geraes, esta mesma divisa foi designada para separal-a da de São Paulo. Alguns annos mais tarde os habitantes de São João d'Elrei removeram o marco do morro de Caxambú collocando-o em outro ponto cujo nome não vem mencionado nos documentos archivados em São Paulo, porém era provavelmente o referido nos autos de 1743 com o nome de Serra da Mantiqueira. A duvida a respeito da identidade deste ponto provém da Provisão Regia de 23 de Fevereiro de 1731 que mandou ajustar de novo a divisão entre as duas villas de modo a dar mais largueza a Guaratinguetá, nada constando porém sobre a execução dada a esta ordem que provavelmente ficou letra morta.

Não estando conhecido actualmente o antigo marco da Serra da Mantiqueira e havendo diversas estradas que cortam a cordilheira hoje conhecida com este nome, é preciso determinar qual destas estradas seja a mais antiga para poder identificar a primitiva serra da Mantiqueira na estrada São Paulo e Minas.

Assim, pois, temos em meados do seculo passado o nome de Mantiqueira generalisado por toda a cordilheira, e tambem empregado como termo local em ambas as estradas. Sendo pouco provavel que o nome se originasse independentemente nas duas localidades, é de presumir que o nome local de uma das estradas se generalisou primeiro e que em virtude deste facto foi depois applicado na outra. Não é, porém, claro qual das duas estradas teve a primazia do nome, parecendo porém pelo testemunho dos mappas que esta deve caber á de Barbacena. Felizmente para tirar esta duvida e a outra já referida sobre a posição do antigo marco na estrada de São Paulo, temos o precioso opusculo de Antonil, intitulado «Cultura e Opulencia do Brasil publicado em Lisboa em 1711, e por consequencia pou

cos annos apenas depois da primeira abertura da estrada para Minas. Esta obra dá um roteiro minucioso da estrada de S. Paulo até Villa Rica com detalhes topographicos que permittem identificar quasi todas as localidades mencionadas. A parte deste roteiro que interessa ao presente estudo é o seguinte, sendo esta provavelmente a primeira vez que o nome Mantiqueira apparece impresso:

« De Guaratinguetá até o porto de Guaipacare, aonde ficão as roças de Bento Rodrigues, dous dias até o jantar.

«Destas roças até o pé da serra afamada de Amantiquira, pelas cinco serras muito altas, que parecem os primeiros morros, que o ouro tem no caminho, para que não cheguem lá os mineiros, gastam-se tres dias até ao jantar.

«

Daqui começão a passar o ribeiro, que chaman passa vinte, porque vinte vezes se passa; e se sóbe as serras sobreditas: para passar as quaes, se descarregão as cavalgaduras, pelos grandes riscos dos despinhadeiros, que se encontrão: e assim gastão dous dias em passar com grande difficuldade estas serras; e dahi se descobrem muitas, e aprasiveis arvores de pinhões, que a seo tempo dão abundancia delles para o sustento de mineiros, como tambem porcos montezes, araras e papagaios. Logo passando outro ribeiro, que chamão passa trinta. porque trinta e mais vezes se passa, se vai aos pinheiros: lugar assim chamado, por ser o principio delles: e aqui ha roças de milho, aboboras, e feijão, que são as lavouras feitas pelos descobridores das minas, e por outros, que por ahi querem voltar. E só disto constão aquellas, e outras roças nos caminhos, e paragens das minas: e, quando muito, tem de mais algumas batatas. Porém em algumas dellas hoje, achão-se criação de porcos domesticos, galinhas, e frangões, que vendem por alto preço aos passageiros, levantando-o tanto mais, quanto he maior a necessidade dos que passão. E dahi vem o dizerem, que todo o que passou a serra de Amantiquira, ahi deixou dependurada, ou sepultada a consciencia » .

« VorigeDoorgaan »