Pagina-afbeeldingen
PDF
ePub

ção portugueza que forçada do máu témpo se lhes veio metter nas mãos; e em mais duas outras, velhas e mal aparelhadas que ainda acaso conservavam, se fizeram á vela no dia 28 de fevereiro de 1644, deixando a artilharia encravada, e a cidade em um lastimoso estado de ruina, pois nos ultimos momentos, entendendo vingar a sua desgraça, destruiram um grande numero de edificios.

Os hollandezes, que embarcaram, andavam por trezentos, segundo o conde de Ericeira, e por perto de quinhentos, segundo Berredo, afóra oitenta indios. Ambos porém são acordes em afirmar que mais de mil e quinhentos hollandezes, e quinhentos indios pereceram devorados pela terra que com tanta perfidia tinham violado e usurpado.

Mas estas asserções sobre a importancia relativa das duas forças inimigas, e dos mortos e feridos nos diversos combates, não se hão de acolher sem restricções, porque os escriptores portuguezes exageravam naturalmente as cousas, em ordem e no sentido de mais exaltar a gloria, aliás incontestavel, com que algumas dezenas de colonos mal armados, sem soccorro algum da metropele ou das capitanias visinhas, sacodiram em poucos mezes um jugo tam pesado como odioso.1

1 João Cornelles deixou no Maranhão seiscentos homens. Depois trouxe Anderson mais setecentos, como quer Berredo, ou trezentos e cincoenta, segundo o conde de Ericeira. Nenhum delles tracta de mais soccorro algum hollandez que entrasse

Os hollandezes, ao retirar-se, abandonaram nas praias do Camossi as reliquias dos seus indios auxiliares; mas estes vingaram-se cruelmente deste indigno tractamento, surprehendendo diversos presidios do Ceará e entregando-os ás forças portuguezas, depois de passarem á espada as respectivas guarnições. Assim terminou o dominio hollandez no Maranhão, como havia começado-por um acto de má fé e de perfidia-e depois de haver durado mais de vinte sete mezes, dezesete dos quaes se haviam passado em uma guerra incessante e implacavel.1

no Maranhão. E' impossivel pois que ficassem mil e quinhentos mortos, e ainda se fossem embora trezentos ou perto de quinhentos.

1 Veja-se nota A no fim do volume.

LIVRO IV.

PARALLELO DAS INVASÕES FRANCEZA E HOLLANDEZA.

Á quem estuda a historia do Maranhão, e compara as duas invasões estrangeiras, que logo nos seus começos se succederam uma á outra com tam pequeno intervallo, não é possivel que escape o pronunciado antagonismo do caracter, fins, meios e resultados de ambas ellas.

A physionomia da invasão hollandeza é toda militar; a guerra com todo o seu cortejo de horrores, aggravados pelas paixões ruins dos conquistadores, eis ahi o unico quadro que temos a observar nesse periodo fatal de vinte sete mezes que vae de 25 de novembro de 1642 a 28 de fevereiro de 1644.

Em plena paz, e abusando da fraqueza de um povo imbelle e desarmado, não menos que das irresoluções de um velho septuagenario, esses soldados- merca

Jornal de Timon-N. 6-7-8-9--10.

dores, por um acto de perfidia sem igual, surprehendem a nascente cidade de S. Luiz, e logo assignalam a sua presença, pelas profanações e sacrilegios, pelos saques e contribuições forçadas, pelos attentados e ultrages emfim á honra e liberdade dos pacificos e descuidados habitantes. E mal paga ainda desses actos de violencia que infelizmente deshonravam então a maior parte das guerras, já de si odiosas e crueis, a sua cobiça infrene e insaciavel decreta at desapropriação dos engenhos de assucar, e juntando ao roubo a humilhação e o escarneo, transforma os proprietarios despojados em feitores, e os obriga a cultivar em proveito alheio, uma terra que haviam desbastado com suas mãos, e regado com o suor de seu rosto.

Quando mais tarde o excesso da oppressão, exasperando os animos, produziu a sublevação; as devastações, incendios, matanças e supplicios são o unico espectaculo que offerece a historia da occupação hollandeza.

As tentativas dos francezes para se estabelecerem quer no Rio de Janeiro, quer no Maranhão, se mallograram successivamente, já pela debilidade dos meios que empregava a metropole, já pelos azares da guerra e incapacidade dos chefes; ou já finalmente pelas divisões e discordias que entre elles rebentavam, e valeram a Villegagnon o cognome odioso de Cain do Novo-Mundo. Os seus estabelecimentos nunca chegaram a criar raizes, e nem passaram

jámais de alguns fortes com meia duzia de casas derredor. Os hollandezes, muito ao revez disto, invadiram o Brasil com esquadras formidaveis, e muitos mil homens de desembarque, e senhorearam mais de trezentas leguas de costa desde Pernambuco até o Maranhão, perdurando o seu dominio cerca de um quarto de seculo. E não obstante foram expulsos do paiz, pelos proprios recursos dos colonos seus habitadores, a quem em geral a metropole ou abandonou de todo, ou ajudou mui frouxamente.

Suspeitam muitos que os escriptores portuguezes, obcecados pelo seu odio contra estrangeiros, calumniaram os hollandezes, Não duvidamos que exageras sem, e carregassem as côres do quadro, mas o certo é que tanto Berredo que narra as atrocidades da segunda invasão, como sobretudo Diogo de Campos que combateu em pessoa contra os francezes, tractam a estes com singular benevolencia. Donde se hade concluir, á vista do resultado que acabamos de assignalar, que as mais das arguições feitas aos hollandezes são veridicas, no essencial, ném é possivel explicar o grandioso esforço dos colonos que sacodiram o seu jugo, a não ser pela pressão de um governo iniquo e insupportavel.

De resto, não são os escriptores portuguezes somente, mas os mesmos estranhos que formam este conceito dos hollandezes; e senão, ouçamos a Fernão Denis, que segue elle mesmo a Pedro Moreau, testemunha ocular do que narra na sua-Relação verda.

« VorigeDoorgaan »