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NOTA Á PAGINA 389. - O padre Cordeiro na Historia Insulana, liv. vı, cap. xxx, n.o 338, explica a origem do alcunho faca sem ponta dado aos Tereeirenses, como um vexame exercido pelo governador João de Urbina no tempo de Filippe 1.

INTRODUCÇÃO

Os cantos populares do Archipelago açoriano dividem-se em duas partes: uma actual, movel, continuamente em elaboração, por que é um ecco da vida, uma linguagem das paixões e dos sentimentos de hoje; a outra é tradicional, historica, em desharmonia com os costumes presentes, mas repetida ainda religiosamente como lembrança de costumes e successos que já passaram. O cancioneiro é a parte lyrica; o romanceiro a parte epica, e a de mais importancia.

Ao estudar-se o romanceiro das Ilhas dos Açores devemos ter em vista: que as tradições cavaTheirescas foram para ali levadas nos principios do seculo XV, pelos primeiros descobridores e colonos mandados pelo Infante Dom Henrique; que no seculo XV, os romances eram considerados como propriedade do baixo povo, e por isso despresiveis, infimos, lhes chamava o Marquez de Santillana; que até ao presente os povos dos Açores viveram quasi, por assim dizer, incommunicaveis; que o seculo XV é o periodo em que na Peninsula se formou a parte mais bella dos romanceiros, que principiou a ser recolhida no Cancionero general de Hernando del Castillo em 1491, e no Cancionero de Anvers de 1550; finalmente, que o numero dos romances perfeitamente anonymos e bellos andará pouco mais ou menos por cem. Portanto, os romances açorianos estão em um estado de pureza e de originalidade tal, que uma grande parte dos

costumes juridicos do tempo das cartas de Foral lá se encontram, não comprehendidos, mas ainda lembrados; e a lingua, falada n'essas pequenas epopeas, é a do seculo XV, contemporanea do Cancioneiro de Resende.

Seja qual for a epoca do descobrimento das ilhas dos Açores, ou em 1432, como quer Gabriel de Valsequa na carta inedita feita em Malhorca em 1439, ou recuando ao seculo XIV, como indicam as cartas de Parma e a catalan, ou entre 1380 e 1400, por isso que se acham no Atlas inedito da Bibliotheca Pinelli, os cantos insulanos são os mais antigos da tradição popular portugueza. Creados na grande elaboração poetica dos seculos XIV e XV, que a Reforma abafou, pertencem exclusivamente a uma epoca em que estavam livres de todas as influencias cultas e artisticas, que tem desnaturado os Romanceiros de Hespanha. Em 1428, data em que se julga ter Dom Duarte começado a escrever o Leal Conselheiro, lá cita a palavra rimanço como significando uma fórma simpres, para melhor se reter de memoria. Enumerando as causas da mudança do nosso caracter, escreve assim:

Da terra, compreissom;

do leite e vyandas, criaçom;

dos parentes naçom;

das doenças e acontecimentos, occasion;
dos pranetas, costellação;

dos Senhores e amygos, conversaçom;

de nosso Senhor Deos, per special spiraçom
nos he outorgada condiçom e discreçom. 1

1 Leal Conselheiro, cap. XXXIX, p. 218. - Azurara, na Chronica da Conquista de Guiné allude ao Poema do Cid. Edição de Paris, p. 4. Fala tambem dos grandes poemas cavalheirescos, quando allude aos «clamores da grandeza dos Alemaães, e da gentilleza da França, e da fortaleza de Inglaterra, e da sabedoria de Italia... » p. 12. Tal é a opinião do Visconde de Santarem, p. 1x, not. 2.

Em seguida diz o rei: «Aquestas cousas suso scriptas que mudam nossa discreçom e condiçom escrevy em simpres rimanço por se melhor poderem reter.» Dom Duarte fazia uma má ideia da fórma do romance e vagamente a conhecia, porque não a soube imitar, dando-lhe a fórma monorrima, que era o que mais feria o ouvido. Notese que a palavra rimanço não se deve confundir com linguagem vulgur, por que o monarcha escrevia o livro n'ella, e escusava de caracterisar assim as maximas a que deu um certo arranjo de rima.

Como originarios do baixo povo da Peninsula formado dos mosarabes, ou fusão do godo-lige com o arabe, os romances populares, do seculo xv para traz, podem com certeza attribuir-se ao mesmo genio que dictou as profundas normas de liberdade nas cartas dos Foraes, e na Architectura. 1 Religião, arte, poesia e direito tudo creou de novo o genio mosarabe.

Na ilha de Sam Jorge ainda hoje se denominam os romances populares com a palavra Aravias. 2 A designação é nada menos do que uma revelação historica: a origem arabe dos romances populares da Peninsula. Esta questão foi primeiramente proposta por Antonio José Conde, no prologo da Historia de la Dominacion de los Arabes : « Como a sciencia e a poesia eram uma parte essencial da educação cavalheiresca dos nossos Arabes e contribuiam para reproduzir o espirito e os costumes d'este povo, não quiz privar a minha

4 União do estyllo byzantino com o gothico, por influencia dos cativos arabes, que trabalharam nas cathedraes do seculo XII.

2 Em uma carta o meu illustre compatriota João Teixeira Soares diz: <Observarei a V. que o povo applica a todos os Romances e Xacaras o epitheto de Aravias. 24 de Novembro de 1868.>

Historia d'estes ornamentos do gosto oriental, já porque não existe entre os Mouros uma historia valiosa que não traga mais ou menos versos. Inseri os trechos mais caracteristicos que tem relação com os acontecimentos. N'isto mesmo quiz imitar os Arabes na minha traducção, empregando o nosso verso de romance. E' o rythmo mais usado na poesia arabe, e que, sem duvida alguma, nos serviu de modelo. Imprimi os versos como os arabes os escrevem. Dois versos de romance equivalem a um verso arabe, que é dividido em duas partes: O nosso primeiro verso fórma a primeira metade ou primeiro hemistichio do verso arabe que se chama saldribait ou entrada do verso; o nosso segundo fórma o segundo hemistichio arabe que se chama ogrilbait ou fecho do verso. Uma estancia dos nossos romances, de quatro versos, corresponde a quatro hemistichios ou a dois versos arabes. Faço esta reflexão para que se não extranhe a nova maneira de imprimir os versos castelhanos. Imprimi-os assim para que esta prova material da origem arabe dos nossos romances saltasse aos olhos.» O illustre orientalista hollandez Dozy combate esta opinião de um modo absoluto, dizendo que a poesia arabe era assás artistica e aristocratica para que se popularisasse. 2 Apesar de isto ser assim, os arabes da Peninsula tiveram uma poesia vulgar, que o baixo povo ouvia, e de que nos restam documentos nas citações do Arcipreste de Hita quando enumera os instrumentos que não serviam para os cantares arabicos, e aponta o canto

1 Obra cit. p. xIII.

2 Recherches sur l'histoire politique e littéraire de l'Espagne pandant le moyen âge. Apud Ticknor.

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