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CCLXX

Se grande gloria me vem só de olhar-te
He pena desigual deixar de ver-te,
Se presumo com obras merecer-te,
Grande paga do

Se

engano

he desejar-te.

quero, por quem és, talvez louvar-te,
Sei certo, por quem sou, que he offender-te.
Se mal me quero a mi por bem querer-te,
Que premio quero eu mais que só o amar-te?
Extremos são de amor os que padeço,
Ó humano thesouro, ó doce gloria;
E se cuido que acabo então começo.
Assim te trago sempre na memoria;

Nem sei se vivo, ou morro, mas conheço,
Que ao fim da batalha he a victoria.

CCLXXI

A formosura desta fresca serra,

E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra:
Em fim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos offrece,
M'está (se não te vejo) magoando.
Sem ti tudo me enoja, e me aborrece;
Sem ti perpetuamente estou passando
Nas móres alegrias mór tristeza.

CCLXXII

Sospechas, que en mi triste fantesia
Puestas hazeis la guerra a mi sentido,
Bolviendo, y rebolviendo el afligido

Pecho con dura mano noche y dia:

Ya se acabó la resistencia mia,

Y la fuerça del alma, ya rendido Vencer de vós me dexo arrepentido De averos contrastado en tal porfia: Llevadme a aquel lugar tan espantable, Que por no ver mi muerte alli esculpida, Cerrados hasta aqui tuve los ojos: Las armas pongo ya, que concedida No es tan larga defensa al miserable; Colgad en vuestro carro mis despojos.

CCLXXIII

Sustenta meu viver hua esperança
Derivada de hum bem tão desejado,
Que quando nella estou mais confiado,
Mór dúvida me põe qualquer mudança.
E quando inda este bem na mór pujança
De seus gostos me tee mais enlevado,
Me atormenta então vêr eu, que alcançado
Será por quem de vós não tee lembrança.
Assi que, nestas redes enlaçado,

A

penas dou a vida, sustentando
Huma nova materia a meu cuidado.

Suspiros d'alma tristes arrancando,
Dos silvos d'huma pedra acompanhado,
Estou materias tristes lamentando.

Com

CCLXXIV

Ja não sinto, Senhora, os desenganos,
que minha affeição sempre tratastes,
Nem ver o galardão, que me negastes,
Merecido por fé ha tantos anos.

A mágoa chóro só, só chóro os danos
De ver por quem, Senhora, me trocastes;
Mas em tal caso vós só me vingastes
De vossa ingratidão, vossos enganos.
Dobrada glória dá qualquer vingança,
Que o offendido toma do culpado,
Quando se satisfaz com causa justa;
Mas eu de vossos males e esquivança,
que agora me vejo bem vingado,
Não a quizera tanto á vossa custa.

De

CCLXXV

Que póde ja fazer minha ventura,
Que seja para meu contentamento?
Ou como fazer devo fundamento

De cousa que o não tee, nem he segura?

Que pena póde ser tão certa e dura,

Que possa ser maior que meu tormento?
Ou como receará meu pensamento
Os males, se com elles mais se apura?

Como quem se costuma de pequeno
Com peçonha criar por mão sciente,
Da qual o uso ja o tee seguro:
Assim de acostumado co'o veneno,

O uso de soffrer meu mal presente
Me faz não sentir ja nada o futuro.

CCLXXVI

Quando cuido no tempo, que contente
Vi as perolas, neve, rosa e ouro,
Como quem vê por sonhos hum thesouro,
Parece tenho tudo aqui presente:

Mas tanto que se passa este accidente,
E vejo o quão distante de vós mouro,
Temo quanto imagino por agouro,
Porque de imaginar tambem me ausente:
Ja forão dias, em que por ventura

Vos vi, Senhora, se assi dizendo posso
Com o coração seguro estar sem medo:
Agora em tanto mal não mo assegura
A propria fantasia, e nojo vosso:
Eu não posso entender este segredo.

CCLXXVII

Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasse
Essa grã perfeição e gentileza,

Logo deo por sentença, que a crueza
Em vosso peito amor accrescentasse.

Determinou, que

nada me apartasse,

Nem desfavor cruel, nem aspereza;
Mas qu'em minha rarissima firmeza
Vossa isenção cruel se executasse.

E, pois tendes aqui offerecida

Est'alma vossa a vosso sacrificio,
Acabai de fartar vossa vontade.

Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida;
Acabará morrendo em seu officio,

Sua fé defendendo e lealdade.

CCLXXVII

Eu vivia de lagrimas isento,

N'hum engano tão doce e deleitoso,

Qu'em qu'outro amante fosse mais ditoso
Não valião mil glorias hum tormento.
Vendo-me possuir tal pensamento,
De nenhuma riqueza era invejoso;
Vivia bem, de nada receoso,

Com doce amor e doce sentimento.
Cobiçosa a Fortuna, me tirou

Deste meu tão contente e alegre estado; E passou-se este bem, que nunca fôra: Em trôco do qual bem só me deixou Lembranças, que me mátão cada hora, Trazendo-me á memoria o bem passado.

CCLXXIX

Indo o triste pastor todo embebido
Na sombra de seu doce pensamento,
Taes queixas espalhava ao leve vento,
Co'hum brando suspirar d'alma sahido:

A

quem me queixarei, cego, perdido,
Pois nas pedras não acho sentimento?

Com quem
fallo? A quem digo meu tormento?
Que onde mais chamo, sou menos ouvido.
Ó bella Nympha, porque não respondes?
Porque o olhar-me tanto m'encareces?
Porque queres que sempre me querelle?
Eu quanto mais te busco, mais te escondes!
Quanto mais mal me vês, mais te endureces!
Assim que co'o mal cresce a causa delle.

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