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XX.

Mas agora de nomes e de usança
Novos e varios são os habitantes;
3 Os Delijs, os Patanes, que em possança
De terra e gente são mais abundantes:
Decanijs, Oriás, que a esperança

6 Tem de sua salvação nas resonantes
Aguas do Gange; e a terra de Bengala,
Fertil de sorte, que outra não lhe iguala.

XXI.

O reino de Cambaia bellicoso,

Dizem que foi de Poro, rei potente)
3 O reino de Narsinga, poderoso

Mais de ouro e pedras, que de forte gente:
Aqui se enxerga lá do mar undoso

6 Um monte alto, que corre longamente,
Servindo ao Malabar de forte muro,
Com que do Canará vive seguro.

XXII

Da terra os naturaes lhe chamam Gate,
Do pé do qual pequena quantidade

3 Se estende hua fralda estreita, que combate
Do mar a natural ferocidade:

Aqui de outras cidades sem debate
6 Calecut tem a illustre dignidade
De cabeça de imperio rica e bella:
Samorim se intitula o senhor della.

XXIII.

Chegada a frota ao rico senhorio,
Um Portuguez mandado logo parte,
3 A fazer sabedor o rei gentio

Da vinda sua a tão remota parte.
Entrando o mensageiro pelo rio,

6 Que ali nas ondas entra, a não vista arte,
A côr, o gesto estranho, o trajo novo
Fez concorrer a vel-o todo o povo.

XX. 3. Patanas (S). 4. gentes (R). 5. Decanís (M) Decânis (G) Decanis (L) Decanys (N). 6. Tee (L). 7. do Bengala (A).

XXI. 1. Reino (B G). 2. Rei (B GLNQS). 3. Reino (B G). 4. d'ouro (G). XXII. 1. chamão (B L). 2. cantidade (M). 3. So estende (A) uma (R). 5. Cidades (G). 6. te (L). 7. Imperio (B G). 8 Samori (G) Senhor (G)

XXIII 3. Rei (B G L NQ R S) Gentio (G). 4. tam (B M). 5. messageiro (M) Rio (B). 7. traje (G).

XXIV.

Entre a gente, que a vel-o concorria,
Se chega um Mahometa, que nascido
3 Fôra na região da Berberia,

Lá onde fora Anteo obedecido:
Ou pela vizinhança já teria.
6 O reino Lusitano conhecido,
Ou foi já assinalado de seu ferro,
Fortuna o trouxe a tão longo desterro.

XXV.

Em vendo o mensageiro com jucundo
Rosto, como quem sabe a lingua Hispana.
3 Lhe disse: „Quem te trouxe a est'outro mundo
Tão longe da tua patria Lusitana ?“
„„Abrindo "", lhe responde,

o mar profundo,
6 Por onde nunca veiu gente humana,
Vimos buscar do Indo a grão corrente,
Por onde a lei divina se accrescente.""

XXVI.

Espantado ficou da grão viagem
O Mouro, que Monçaide se chamava,
3 Ouvindo as oppressões que na passagem
Do mar o Lusitano lhe contava:

Mas vendo em fim, que a força da mensagem

6 Só para o rei da terra relevava,

Lhe diz, que estava fóra da cidade.
Mas de caminho pouca quantidade:

XXVII.

E que, em tanto que a nova lhe chegasse
De sua estranha vinda, se queria,
3 Na sua pobre casa repousasse,

E do manjar da terra comeria;

E despois que se um pouco recreasse,

6 Com elle para a armada tornaria;

Que alegria não póde ser tamanha,

Que achar gente vizinha em terra estranha?

XXIV. 3. Região (G) Barbaria (G L M R). 4. Anthêo (G) Antheo (L M). 5. vezinhança (B). 6. Reino (B G). 7. assignalado (G M N R). 8. tam (B M).

XXV. 1. messageiro (M) Mensageiro (R) jocundo (B S). 3. Mundo (G). 4. Tam (B M) Patria (R). 6. Per (M). 7. gran' (M). 8. Per (M) Lei (GL N Q R S) Divina (G) acrecente (B) accresente (G).

XXVI 1. gram (B) gran' (M). 2. mouro (R). 5. messagem (M). 6. pera

(M) Rei (B G L N Q R S). 7. Cidade (B G). 8. cantidade (M).

XXVII. 5. recreiasse (R). 6. pera (M) Armada (R). 7. tammanha (M).

XXVIII.

O Portuguez acceita de vontade
O que o ledo Monçaide lhe offerece;
3 Como se longa fôra já a amizade,
Com elle come e bebe e lhe obedece:
Ambos se tornam logo da cidade

6 Para a frota, que o Mouro bem conhece;
Sobem á capitaina, e toda a gente
Monçaide recebeu benignamente.

XXIX.

O capitão o abraça em cabo ledo,
Ouvindo clara a lingua de Castella;
3 Junto de si o assenta e prompto e quedo
Pela terra pergunta e cousas della.
Qual se ajuntava em Rhodope o arvoredo,
6 Só por ouvir o amante da donzella
Eurydice tocando a lyra de ouro,

Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.

XXX.

Elle começa: „Oh gente, que a natura
Vizinha fez de meu paterno ninho,
3 Que destino tão grande ou que ventura
Vos trouxe a commetterdes tal caminho?
Não é sem causa, não, occulta e escura;
6 Vir do longinquo Tejo e ignoto Minho,
Por mares nunca d'outro lenho arados
A reinos tão remotos e apartados.

XXXI.

Deos por certo vos traz, porque pretende
Algum serviço seu, por vós obrado:

3 Por isso só vos guia e vos defende
Dos imigos, do mar, do vento irado.
Sabei, que estais na India onde se estende
6 Diverso povo rico e prosperado
De ouro luzente e fina pedraria,
Cheiro suave, ardente especiaria.

XXVIII. 1. aceita (B S). 2. Monçayde (B). 5. tornão (L) Cidade (G). 6. Pera (M) Frota (R) mouro (R). 7. Capitaina (B G R). 8. Monçayde (B). XXIX. 1. Capitam (G). Capitão (B L N Q R S). 3. Juncto (M). 4. pregunta (B). 5. ajunctava (M). 7. lira (B). 8. Var. Toda a gente. ajuncta (M) mouro (R).

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XXX. 3 tam (B M). 4. cometerdes (B) cometterdes (G). 6. longinco (B).

7. Per. 8. Reinos (B G) tam (B M).

XXXI. 2. per (M).

XXXII.

Esta provincia, cujo porto agora
Tomado tendes, Malabar se chama:
3 Do culto antiguo os idolos adora,

Que cá por estas partes se derrama:
De diversos reis é, mas d'um só fôra
6 N'outro tempo segundo a antigua fama:
Saramá Perimal foi derradeiro

Rei, que este reino teve unido e inteiro.

XXXIII.

Porém como a esta terra então viessem
De lá do seio Arabico outras gentes,
3 Que o culto Mahometico trouxessem,
No qual me instituiram meus parentes;
Succedeu que pregando convertessem
6 O Perimal, de sabias e eloquentes;
Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,
Que presuppoz de nella morrer santo.

XXXIV.

Náos arma e nellas mette curioso
Mercadoria, que offereça, rica

3 Para ir nellas a ser religioso,

Onde o propheta jaz, que a lei publica:
Antes que parta. o reino poderoso

6 Co' os seus reparte, porque não lhe fica
Herdeiro proprio; faz os mais acceitos
Ricos de pobres, livres de sujeitos.

XXXV.

A um Cochim e a outro Cananor,
A qual Chalé, a qual a ilha da Pimenta,

3 A qual Coulão, a qual dá Cranganor,

E os mais, a quem o mais serve e contenta.
Um só moço, a quem tinha muito amor,
6 Despois que tudo deu, se lhe apresenta :
Para este Calecut sómente fica,
Cidade já por trato nobre e cria.

XXXII. 1. Provincia (B G). 2. Malauar (B). 3. antigo (BG) Idolos (B). 4. per (M). 5. Reis (B G L N Q R S). 6. antiga (B). 8. Reino (B G R). XXXIII. 1. entam (B). 4. instituirão (B L). 6. sabios (B G L R). 8. presupós (B)

XXXIV. 1. mete (B G). 3 Pera (M). 4. Propheta (B G) pubrica (B). 5. Reino (B G). 6. Cos (B). 7. Erdeiro (B). 8. aceitos (B S) sogeitos (B) XXXV. 2. Ilha (G R) pimenta (B G). 7. Pera (M). 8. per (M) tratto (B) tracto (M).

XXXVI.

Esta lhe dá co' o titulo excellente

De imperador, que sobre os outros mande;
3 Isto feito se parte diligente

Para onde em sancta vida acabe e ande:
E daqui fica o nome de potente

6 Samorim, mais que todos digno e grande,
Ao moço e descendentes, donde vem
Este, que agora o imperio manda e tem.

XXXVII.

A lei da gente toda, rica e pobre
De fabulas composta se imagina:
3 Andam nus. e sómente um panno cobre
As partes, que a cobrir natura ensina:
Dous modos ha de gente; porque a nobre
6 Naires chamados são, e a menos dina
Poleás tem por nome, a quem obriga
A lei não misturar a casta antiga:

XXXVIII.

Porque os que usaram sempre um mesmo officio,
D'outro não podem receber consorte;

3 Nem os filhos terão outro exercicio
Senão o de seus passados até morte.
Para os Naires é certo grande vicio
6 Destes serem tocados. de tal sorte,
Que quando algum se toca por ventura.
Com ceremonias mil se alimpa e apura.

XXXIX.

Desta sorte o Judaico povo antigo
Não tocava na gente de Samária:
3 Mais estranhezas inda das que digo-
Nesta terra vereis de usança varia.
Os Naires sós são dados ao perigo

6 Das armas, sós defendem da contraria

Banda o seu rei trazendo sempre usada

Na esquerda a adarga e na direita a espada.

XXXVI 1. co (B). 2. Emperador (B) Imperador (G LN QR S) as outras (R) 4. Pera (M) santa (B). 6. Samorij (B) Samori (G) dino (M). 8. Imperio (B G).

XXXVII. 3. Andão (B L) pano (B). 4. cubrir (B). 6. digna (B). 7. tẽe (L per (M). 8. mesturar (B)

XXXVIII. 1. usarão (B L) hu (B G). 2. De outro (B). 4. até á morte (G). 5. Pera (M). 7. per (M). 8. cerimonias (B R).

XXXIX. 3. ainda (R). 7. Rei (B G L N Q R S). 8. dereita (B) Direita (S)

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