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pelo arcabuz e pela espada, contra a flecha e o tacape? Qual era a população indigena provavel do Brazil, e especialmente do Maranhão, ao começar a colonisação portugueza? Podia ella computar-se por milhões? Foram os Portuguezes que a ferro e fogo aniquilaram tantas e tam florescentes aldeas? A nação brazileira actual de quem descende, dos portuguezes, ou dos selvagens? Foram estes os que deram a base para o nosso caracter nacional, ainda mal desenvolvido? E será com effeito a coroa da nossa prosperidade o dia da sua inteira rehabilitação?

A natureza mesma destas questões nos arrasta para est'outras considerações. Sem duvida, os indigenas foram victimas de grandes atrocidades. Prescindindo mesmo do mal que os invasores foram obrigados a fazer-lhes, em legitima defeza, e a bem da propria conservação, sabida cousa é que tribus inteiras foram exterminadas, ou pela guerra, ou pela escravidão, igualmente iniquas. A raça, que por ser civilisada, tinha mais estreita obrigação de dar o exemplo da moderação, abusou muitas vezes por um modo indigno, da sua immensa superioridade; os selvagens eram havidos em conta de brutos, estranhos ao gremio da humanidade, e effectivamente tractados como taes, sendo mister para rebater estas estranhas e odiosas pretenções, que por bulla do papa fossem elles declarados verdadeiramente descendentes de Adão e Eva, e com igual direito aos fóros dos mais homens.

Mas por aquella instabilidade e reacção natural ás

cousas humanas, hoje se manifesta uma tendencia absolutamente contraria. O nosso actual Imperador, dizem, mostra grande interesse e curiosidade por tudo quanto diz respeito ás raças aborigenes que antigamente senhoreavam o seu vasto imperio. Um grande poeta (e os poetas tambem são reis e imperadores a seu modo, e dentro da sua esphéra) no primei ro ardor de uma imaginação ainda virgem, e longe da patria ausente, cantou, envernisou, amenisou, poetisou emfim os costumes ingenuos, as festas innocentes e singellas, as guerras heroicas, a resignação sublime, e a morte corajosa, bem como os trajos elegantes, e as decorações pomposas dos nossos selvagens. E eis ahi todo o mundo a compôr-se e menearse a exemplo e feição dos reis, e aturdindo-nos em prosa e verso com tabas, mussuranas, yverapemas, janubias e maracás. Tal propõe que nos actos officiaes e no parlamento não se use de outra lingua, senão da geral ou tupica; este lastima que todas as nossas villas e cidades conhecidas por nomes portuguezes, ou de sanctos, se não baptisem desde já, e como principio de rehabilitação, com termos e vózes tupinambás; est'outro clama emfim que esses bons e veneraveis antepassados viviam aqui felizes e tranquillos até a epocha da conquista, e que já é tempo de fazer-se grande e solemne reparação ás iniquidades della. Ora, se tudo isto não constitue uma eschola organisada para a completa rehabilitação das raças vencidas-melhor diriamos, quasi extinctas-dos antigos

selvagens, revela ao menos uma tendencia e reacção formal, não menos exagerada que indiscreta, contra as idéas outr'ora dominantes.

O Instituto Historico e Geographico do Brazil, que foi fundado, vive e prospéra sob a immediata protecção do Imperador, nada recommenda tam sollicitamente aos seus socios correspondentes, como a remessa de noticias circumstanciadas sobre os costumes dos indios, a significação em vulgar do nome de cada nação ou tribu-como traziam elles o cabellose dormiam em redes ou no chão-se de lado ou resupinos-se traziam os beiços, ventas e orelhas furadas de que eram os batóques-como expressa ou expressava cada uma das tribus as palavras—sol, lua, fogo, agua, peixe, mel, pé, mão, cabello, boca, nariz, olhos &-quaes os numeros emfim até onde podiam contar?1

Todo o mundo comprehende certamente o alcance, utilidade e deleite destas curiosas e laboriosas investigações. Mas o que não podemos soffrer de boa sombra, na nossa qualidade de grego, do mais puro sangue de Athenas, é que nos queiram obrigar a volver trezentos annos atraz, passando-se as ficções do romance e da poesia para a historia e vida real. O perigo está tam imminente, que Timon recêa a cada instante lêr nos annuncios do-Diario do Piága-a notiticia de haver desembarcado em Javireé o excellentis

1 Vejam-se as Revistas Trimensaes do Instituto Historico.

VOL. II.

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simo presidente Ararigboia, vindo de Guanabára, a bordo do vapor imperial-Tupan.

O sr. dr. Antonio Gonçalves Dias escreveu o seguinte na sua-Introducção aos Annaes de Berredo.

«Dos portuguezes vinham para o Brazil só os que «não tinham sufficiente coragem para se lançarem so«bre a Asia e Africa, cujos campos, cujas cidades, «cujos imperios tantas vezes repetiram com terror o «nome portuguez, Foi esta a rasão, por que os reis «de Portugal tiveram sempre os olhos cravados n'a«quellas partes do Oriente onde a sua gloria se plei«teava, deixando por tanto tempo o Brazil á mercê dos «seus deportados e dos seus aventureiros.

«Para Asia e Africa mandava Portugal a flor da sua «nobresa; para o Brazil vinha o rubute da sua popula

ção: havia excepções: mas estes vinham por engano, «como veio Pedro Alvares Cabral. Os de lá adquiriam gloria,―os daqui lucravam fortuna: aquelles eram heroes, estes commerciantes. De volta à metropole «trocavam-se as partes; os primeiros que só podiam «mostrar as cicatrizes, morriam nos hospitaes,-os se«gundos que só tinham fortuna, construiam palacios.— «Como pois não haviam de buscar o Oriente as almas «grandes de Portugal, que as houve sempre e muitas; «e como não haviam as almas interesseiras de affluir «para onde se descobriam minas de oiro e diamantes?

«Eis porque as primeiras paginas da historia do «Brazil estão alastradas de sangue, mas de sangue in<nocente vilmente derramado. O unico motivo de quasi todos os factos que aqui se praticaram durante tres «grandes séculos foi a cobiça,-cobiça infrene, insaciavel, que não bastavam fartar os fructos de uma «terra virgem, a producção abundantissima do mais fertil clima do Universo, e as mais abundantes minas de metaes e pedras preciosas.

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Se vos perguntam porque tantos riscos se corre«ram, porque se affrontaram tantos perigos, porque se subiram tantos montes, porque se exploraram tan<tos rios, porque se descobriram tantas terras, por«que se avassallaram tantas tribus: dizei-o-e não mentireis:-foi por cobiça!

Era por cobiça que os governadores vinham a estas «<terras tam remotas, onde nenhuma gloria os esperaava; era por cobiça que os proprios missionarios dei«xavam a frisa e a orla das roupetas nestas florestas «sem caminho, porque tantas privações passaram, por«que soffreram tantos martyrios. Um delles escrevia ca D. Affonso VI, encarecendo as obras da Compa«nhia: «Assim que, Senhor, vamos tomando conta «destas terras por Deus e para Deus.»

1 Não exageramos; o Padre Antonio Vieira escrevia ao Rei de Portugal:-Peço a V. M. que os Governadores e Capitãesmóres que vierem a este estado sejam pessoas de consciencia, e porque estes não costumam a vir cá... Carta de 20 abril de 1657.

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