Pagina-afbeeldingen
PDF
ePub

nas aproximado do Brazil, sem chegar comtudo a tocar nelle. 1

Seja como fôr, não nos parece ponto digno de averiguar-se, á custa de tam laboriosas investigações, qual destes ousados aventureiros se mostrou primeiro e tam de passagem nestas regiões; que não é grande o seu merito delles, nem dos corsarios e piratas que depois infestaram as mesmas paragens, em andarem velejando ao longo da costa, e tomarem terra em uma ou outra enseada, para se refazerem do quebramento e cançaço da viagem, deixando por unico rasto e memoria de sua passagem, erigida alguma tosca cruz de madeira, ou cravado algum marco de pedra na plaga deserta e abandonada.

Não obstante, os antigos chronistas e historiadores armaram grandes disputas sobre isso, não menos que acerca da origem e etymologia do nome deMaranhão. Quanto ao ultimo ponto, o mais provavel é ter sido semelhante nome derivado do de al

1 Não foi tanto ao puro accidente de uma tempestade, que deveu Cabral ser arrojado á costa do Brazil, senão tambem as correntes occeanicas, que ignorava, e que o impelliram, sem que elle o sentisse, para terras que não procurava. Antes d'elle tres tentativas tinha já feito a Hespanha com o fim determinado de descobrir terras da America. A primeira foi dirigida por Alonso de Hojeda, que em fins de junho de 1409 achou-se em uma terra alagada, naturalmente sobre a fóz do Apody, a 5o ao sul da equinoxial. Vicente Yanes Pinçon aportou ao cabo de Santo Agostinho a 25 de janeiro de 1500. A terceira, emprehendida por Diogo de Lepe,chegou ao mesmo cabojum mez pouco mais ou menos depois de Pinçon, e discorreu como elle pela (Dos EEDD.) costa até o Amazonas.

gum desses transitorios descobridores, pois o appellido de-Muragnon-, aportuguezado depois, já de muitos séculos atraz era conhecido na Hespanha. Entre outras conjecturas a tal respeito, refere ainda Berredo que o nome podia vir das traidoras maranhas que Lopo de Aguirre, um dos primeiros exploradores, armára a um seu companheiro; e o famoso padre Antonio Vieira, zombando a seu modo, e usando dos costumados trocadilhos, disse que o Maranhão não queria significar outra cousa, senão-maranh grande.

É de notar que este nome foi dado no principio ao Amazonas, e não á nossa ilha e provincia, para onde seguramente passou em virtude de algum engano ou falsa supposição dos primeiros exploradores, confirmado depois pelo uso e pelo tempo. Berredo pretende que os que escaparam ao naufragio de Ayres da Cunha, querendo ennobrecer a sua desgraça, assoalharam de volta à metropole que ella tivéra logar na bocca do gigante dos rios; mas esta conjectura parece assentar menos na realidade de um facto, que na maneira de ornar o estylo que usava aquelle auctor.

Deixemos porém estas pueris discussões, e passemos ás emprezas verdadeiramente dignas de memoria, como são os descobrimentos e explorações dos

homens de genio e de sciencia, e depois dellas, a posse permanente com animo de povoar, cultivar e civilisar o paiz descoberto.

A primeira expedição desta natureza, que se tentou para o Maranhão, foi a de Ayres da Cunha, socio com Fernão Alvares de Andrade do insigne historiador João de Barros, a quem el-rei D. João III fez doação desta capitania, no anno de 1531, como mercê de seus muitos serviços. Vejamos primeiramente o que sobre esta mallograda tentativa escreveram o proprio João de Barros e outros auctores antigos.

«El-rei D. João III (diz Barros na sua Decada 1a) re<partiu em doze capitanias a provincia de Santa Cruz, «dadas de juro e herdade ás pessoas que as têm. Os «feitos da qual, por eu ter uma destas capitanias, me «tem custado muita substancia de fazenda, por rasão «de uma armada que em parçaria com Ayres da Cu«nha e Fernão Dalvares d'Andrade, thesoureiro-mór «deste reino, todos fizemos pera aquellas partes o anno de quinhentos trinta e cinco. A qual armada «foi de novecentos homens em que entravam cento e @treze de cavallo, cousa que pera tam longe nunca «sahiu deste reino, da qual era capitão-mór o mes«mo Ayres da Cunha: e por isso o principio da melicia desta terra, ainda que seja o ultimo dos nos«sos trabalhos, na memoria cu o tenho vivo, porque morto me deixou o grande custo deşta armada, sem fructo algum,»

Manuel Severim de Faria, que escreveu a vida

deste historiador, dá sobre aquella expedição, e as causas e rasões que a persuadiram e frustraram, noticias mais copiosas. «Neste tempo (refere elle) quiz cel-rei D. João III mandar povoar a provincia de San<ta Cruz, vulgarmente chamada Brazil, que Pedr`al<vares Cabral, levado da força dos ventos descobriu anas primeiras praias do mundo novo, indo pera a «India, no anno de 1500. E pera se a povoação fa<zer com mais facilidade e menor despeza da fazen«da real, repartiu el-rei aquella provincia em varias «capitanias na fórma que os reis primeiros fizeram povoar as ilhas achadas no mar Oceano; mas não «foi igual o successo porque sendo cada ilha uma pe<quena porção de terra, onde não havia habitadores «que defendessem a entrada aos estrangeiros, foi faecil cousa povoar cada capitão a sua, ajudando-se «principalmente da visinhança do reino, e da pres«tança que umas as outras se faziam por estarem per«to e quasi á vista. Porém no Brazil, como cada ca«pitania era de cincoenta leguas de costa, e habita«da de gentes guerreiras, tendo o soccorro de Por«tugal duas mil leguas distante, e cada capitania tam «fraca que não podia soccorrer a visinha, vieram as «mais destas povoações, que intentaram os donatarios, <a perecer de todo, e só quasi tiveram bom successo «as que os reis tomaram pera si, porque, como as <fazendas neste reino, pela estreiteza delle, sejam «muito limitadas, não tiveram aquelles povoadores «cabedal pera se valerem de novo soccorro, se pade

«ceram qualquer infortunio, principalmente nos prinacipios. João de Barros, comtudo, como era de nobre «espirito, e desejoso de se empregar em cousas gran«des, pediu a el-rei uma destas capitanias, e elle lh’a «concedeu, de jure e herdade, com os privilegios e «isenções das outras; mas alcançando bem as difficul«dades da empreza, determinou dar parte della a Aycres da Cunha e a Fernão de Alvares de Andrade, «thesoureiro-mór do reino, pera com este cabedal «maior poder reduzir a empreza a prospero fim. «Fez-se por parte desta companhia a maior armada «que pera aquellas partes até então tinha ido, porque se aprestaram dez navios com novecentos ho«mens, dos quaes eram mais de cento de cavallo, e <com todo o necessario pera a jornada, de mantimentos, munições e artilharia, se fizeram á véla «no anno de 1539, indo por capitão o mesmo Ayres eda Cunha, que levava comsigo dous filhos de João «de Barros.

«Era a capitania, que lhe coube em sorte, a do Ma<ranhão, parte septentrional do Brazil, e a mais en«nobrecida delle em grandeza de rios, fertilidade de

plantas, abundancia de animaes, e fama de riquis«simas minas. Foi este rio descoberto por Vicente «Annes Pinçon no anno de 1499,1 pela coroa de Cas

10 descobrimento de 1499 não é de Pinçon, mas de Alonso de Hojeda.

(DOS EEDD..)

VOL. II.

5

« VorigeDoorgaan »