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Duperron de Casterà, pois parece alludir a ellas no Prefacio da sua traducção.

O editor da edição vulgarmente chamada jesuitica, de 15846, é o primeiro a dar-nos a noticia do naufragio nas poucas e ridiculas notas de que é acompanhada esta mais ridicula edição.

A primeira das Poesias varias ou Rythmas, coordenada pelo Licenciado Fernão Rodrigues Lobo Surrupita (1595), só toca de passagem no melhoramento da sépultura do Poeta, ordenado por D. Gonçalo Coutinho. Estas são pouco mais ou menos as noticias que mais se avisiņham da epocha em que elle viveu: passemos agora aos biographos do nosso tempo.

O Sr. Bispo de Vizeu D. Francisco Alexandre Lobo, despertado pela publicação da nitida edição do Morgado de Matheus D. José Maria de Sousa Botelho (1817), escreveu uma memoria critica, que se encontra na collecção das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, sobre a vida e escriptos do Poeta, a qual leva a palma a quanto sobre o mesmo assumpto se tinha escripto, pela perspicacia das conjecturas, polido do estylo e boa critica; porém o seu trabalho

5 Mr. Duperron de Casterà no prefacio da sua traducção se exprime por esta fórma, referindo-se á allegoria do Poema: «Peut-être me reprochera-t-on qu'en voulant denouer le fil de l'allégorie qui regne dans la Lusiade j'ai donné au Camöens des idées qu'il n'a jamais eues; j'avoue que c'est là le défaut ordinaire des commentateurs; mais je puis dire hardiment, que je n'ai pas même couru risque d'y tomber; le Poëte nous a devoilé l'esprit de ses fictions en jettant dans son ouvrage et surtout à la fin du neuvième chant, plusieurs traits de lumière, qui ne laissent aucun doute sur cet article; d'ailleurs il s'en est encore expliqué plus clairement dans quelques unes de ses lettres; ainsi l'on n'a qu'à le suivre pas à pas, et l'on verra que je ne lui prête rien.»

6 É a primeira parte onde achamos noticia do naufragio do Poeta, por esta fórma em uma nota a estancia 80. do canto vII. Isto dizia porque o Camões andando na India, começando a fortuna a favorece-lo, e tendo algum fato já de seu perdeo-se na viagem que fez pera a China, d'onde elle compoz aquelle Cancioneiro que diz:

Sobre os rios que vão por Babylonia, etc.

O editor escrevia quatro annos depois da morte do Poeta.

7 Estevão Lopes, editor das Rymas de 1595, é o primeiro que falla na trasladação dos ossos do Poeta. Assim se exprime dirigindo-se a D. Gonçalo Coutinho, a quem a edição é dedicada: Mas como não hei de exalçar até o céu a magnifica e mui heroica obra que V. M. fez em dar sepultura honrada aos ossos d'este veneravel varão, que pobre e plebeiamente jaziam no mosteiro de Santa Anna?»

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não é completo nem o podia ser, porque faltavam os documentos necessarios onde superabundava a erudição e merecimento do auctor. Com toda a diligencia- diz o nosso illustre biographo-não posso porém lisonjear-me nem me lisonjeio de offerecer aqui uma relação completa e clara em todos os pontos, e desembaraçada de qualquer duvida. Onde guardam silencio os documentos, ou se envolvem em sombra impenetravel, o que póde referir a historia se não quer degenerar em romance?

Este prelado tem sido com bastante injustiça taxado de pouco affeiçoado a Camões; quem ler com reflexão a sua Memoria se convencerá do contrario. O que tem dado logar a'esta opinião, abraçada por alguns, tem sido o elle defender ao Governador Francisco Barreto. Se isto é assim, confessamo-nos desde já co-réus no mesmo crime; mas n'isto temos por companheiro o proprio Camões, que no fim da vida, de quem se queixava era dos falsos amigos que o tinham mexericado com o Governador. Mais adiante mostraremos como elle foi favoravel ao Poeta no principio do seu governo, e qual era a probidade do seu caracter e genio pouco vinga

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8 Custa ver que a reputação do um fidalgo como Francisco Barreto, de tanta consideração, que na Africa e na India militou com tanto credito e se mostrou sempre tão liberal, affavel e cavalheiro, se apresente tão injustamente denegrida. Diogo do Couto nos dá d'elle o retrato maís lisonjeiro: Vêmo-lo temerario nos perigos mais do que convinha á sua posição; liberal, camarada officioso, e sempre propenso a perdoar as offensas recebidas. Tendo tido desavenças no tempo do seu antecessor, o Vice-Rei D. Pedro Mascarenhas, com Martim Affonso de Miranda, ao ponto de os apartarem, logoque tomou posse do governo foi de todos os fidalgos aquelle de quem se mostrou mais amigo, porque não se cuidasse que pelos desgostos passados lhe ficára má vontade. Uma anecdota conta o mesmo historiador, que mais claramente dá a conhecer a bondade do seu coração: Tendo um fidalgo por nome Antonio Pereira Brandão, que El-Rei mandára degradado por toda a vida para Africa, obtido de El-Rei, por intervenção de Francisco Barreto, a commutação da pena para o acompanhar á Mina, e tendo-o logo deixado por Capitão da fortaleza de Moçambique, este, em paga de tantos beneficios, lhe urdiu uma traição forjando uns capitulos falsos que mandára para o reino. Francisco Barreto, indignado de tão feia ingratidão, tendo acabado de ouvir missa, disse aos fidalgos que o acompanhavam que se ficassem, e levando só comsigo a Antonio Pereira Brandão, com tenção, ao que se suppõe, dé vir a vias de facto, porque o viram concertar um punhal que levava á cinta, The mostrou os capitulos que houvera á mão e que elle mandava para o reino: ao vê-los, aquelle ingrato fidalgo se lhe lançou aos pés, abraçando-o pelas pernas, rebentou em lagrimas pedindo-lhe misericordia com grandes soluços que ouviram os que estavam mais afastados. O Governador (diz Diogo do Couto), que tinha um coração muito mavioso e as entranhas cheias de brandura, voltou as costas e foi andando para a fortaleza com os olhos arrasados em lagrimas,

tivo, á vista de factos da sua vida, e pelo testemunho de um dos amigos mais intimos do nosso Poeta, o filho do Conde da Sortelha D. Alvaro da Silveira.

como se elle fosse o culpado, e tão affrontado que parecia vinha de algum grande trabalho. É verdade que o chronista da India no seu Soldado Pratico, fallando d'este Governador, diz que d'elle dicant Paduani; pois vejamos como um amigo o mais intimo do nosso Poeta, D. Alvaro da Silveira, e por isso nada suspeito, descreve as excellentes qualidades d'este excellente Governador, em uma carta que escreve a El-Rei, datada de 24 de dezembro de 1555.

O viso rei D. Pedro levou nosso Senhor para si bespora de Sam João, governou nove mezes, e pois he morto nam hà hi que fallar em cousas do seu tempo senão que nosso Senhor lhe dê o paraiso e mais descanço do que elle leixou a esta terra. Çocedeo francisco barreto que prazerá a nosso Senhor que o ajudará no serviço de Vossa alteza como elle tem os desejos e os poem por obra, e pois V. A. tão bem escolheo quem era para o seo serviço, Sirva se delle e lembre lhe que huma das cousas que distruhe esta terra são novidades, e homens novos nella; huma só cousa direi dele porque as outras velas ha V. A. em sua fazenda e serviço, mas crea V. A. que esta terra e povo sentirá muito em quanto elle servir V. A. como elle até qui tem servido serem governados nem mandados por outrem porque nunca homem tão amado foi do povo nem desejado..

Esta carta é escripta a 24 de dezembro de 1555, e em 10 de janeiro do anno seguinte apparece uma carta do Governador Francisco Barreto para El-Rei, recommendando este fidalgo para o cargo de Capitão-mór do mar, porém de uma maneira tão desinteressada, que faz o elogio do Governador, pois começa por dizer que o cargo é escusado, porquanto elle Governador tem 40 annos de idade e disposição para o escusar; porem que no caso de S. A. ser servido de crear este cargo, ninguem é mais apto por todos os motivos para o servir que D. Alvaro da Silveira. Desejoso de conhecer a fundo o caracter de Francisco Barreto, li uma carta de um Christovão Lopes de Sá para o Secretario Pedro de Alcaçova Carneiro, seu parente, na qual se queixa do pouco caso que o Governador fizera de uma carta de recommendação sua, e que Francisco Barreto governava a India com proveito dos seus creados, e de o não attender tendo elle servido muitos annos, e de attender outros com menos annos de serviço: no entanto, para o remediar, diz.que recebêra do seu Secretario alguns pardaus. Quem não vê n'esta carta a sordidez de quem a escreve, e o elogio o mais frisante do Governador, que despreza a valiosa recommendação de Pedro de Alcaçova para com um parente proximo, por isso que talvez o reputa pouco digno das merces reaes? O certo é que os grandes serviços d'este antagonista de Francisco Barreto não apparecem narrados por Diogo do Couto. O mesmo Camões, no fim da vida, não se queixava do Governador, mas dos falsos amigos que o tinham mexericado com elle, como nos diz o seu amigo e commentador Manuel Correia: Os mayores amigos que tinha o mexericarão com o Viso Rei da India, como elle me disse contando os enfadamentos que na India tivera, que foi causa de o prenderem e enfadarem. Se a isto juntarmos que o Poeta, depois da sua volta para o reino, conviveu com intimidade com D. Francisca de Aragão, com quem se carteava, sobrinha de Francisco Barreto, que ficou sua herdeira e dos seus serviços, vemos que o resentimento pessoal de Camões estava de todo extincto; mas se o não estava, perdoe-me o nosso illustre Poeta: Amicus Plato sed magis amica veritas. Não serei eu por certo que queime o incenso da lisonja perante um idolo, embora tão sympathico, e da veneração de nós todos os portuguezes, quando o seu fumo possa escurecer a fama de um homem que tambem, filho de Portugal, foi um bom servidor do estado. Demorámo-nos sobre este assumpto mais do que parecerá a alguns conveniente, porque não reputâmos inutil gastar algumas palavras quando estas podem servir para reivindicar a memoria de um nome illustre.

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A biographia que precede a edição do Morgado de Matheus D. José Maria de Sousa Botelho pouco mais adianta a não ser dar-nos a noticia da nota do exemplar dos Lusiadas que pertenceu a Fr. José Indio, e hoje possue Lord Holland: no mais é a reproducção do que escreveram os outros (fallo na parte biographica); e nem podia ser de outra maneira, porque faltavam os fundamentos para novas revelações. É muito louvavel todavia o enthusiasmo que levou o illustre editor a levantar ao seu Poeta um monumento tão glorioso como é a sua sumptuosa edição dos Lusiadas.

O mesmo enthusiasmo animou os editores da biographia que precede a edição das obras do Poeta dada á luz em Hamburgo no anno de 1834. Escrevendo fóra da patria, poucas mais noticias se lhes poderiam offerecer para darem mais estendido desenvolvimento ao seu desejo pela justa veneração que sabemos professavam pelo nosso Auctor.

Dos estrangeiros trataram em nossos dias este assumpto, entre outros a celebre M.me de Stael, Mr. Adamson, Mr. Ferdinand Denis, Mr. Aubert e Mr. Magnin. Não é nosso intento. analysar aqui as suas obras, pela brevidade a que somos obrigados a cingir-nos, o que faremos porém mais largamente em outra parte d'este nosso trabalho: só temos, como portuguezes, a agradecer-lhes a solicitude com que se deram a trabalhos tão alheios da litteratura da sua patria. É mais uma prova do grande merecimento do nosso Poeta, que attrahe tão poderosamente a attenção dos mesmos estrangeiros, pela excellencia das suas poesias e pelo romantico da sua vida.

Sobre o nosso opusculo seja-nos permittido o dizer que explorámos com alguma attenção differentes archivos d'esta cidade, e mui especialmente o rico deposito da Torre do Tombo, prestando-se tambem na Asia algumas pessoas a fazerem pesquizas, aindaque infructuosas, nos de Goa e Macau. As bibliothecas d'esta côrte, a Publica, as Reaes das Necessidades e da Ajuda, a da Academia Real das Sciencias, foram por nós directamente examinadas, bem como por interposta pessoa as do Porto, Coimbra e Evora, fazendo-se iguaes indagações fóra de Portugal nas principaes bibliothecas da

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Europa, e nas de algumas academias, como em seu logar advertimos. Repetidas vezes lemos e confrontámos as poesias de Camões, tanto as impressas como as manuscriptas, as quaes nos serviram de grande auxilio, pois, apesar da confusão que encerram, são elementos essencialissimos para quem tiver de escrever a sua vida. Estas nos levaram ás vezes a fazer novas conjecturas, desviando-nos em algumas occasiões do caminho já trilhado, quando a isso rasões plausiveis nos persuadiram.

São as obras dos poetas quasi sempre o espelho da sua vida, nas quaes ordinariamente se reflectem as suas mais intimas inclinações, e ficam consignados os factos mais notaveis da sua existencia. Não são poucos os exemplos que poderiamos apontar, e sirva por todos, para os não buscarmos do nosso Poeta, as poesias de Horacio, sobre as quaes se póde, quasi sem outro auxilio, formar a sua auto-biographia, começando pela sua educação que, por uma maneira tão interessante e filial, descreve na sua Satyra vi. As mais pequenas cousas não se devem desprezar; a um acrostico devemos nós o saber quem era a Sylvia de Diogo Bernardes, ou, para melhor dizer, sua mulher, como diremos mais largamente na vida que temos encetado d'este Poeta.

Mofava Pascal d'aquelles que diziam o meu livro o meu commentario; se um homem de tão profundos conhecimentos apresentava este pensamento sobre a genuina propriedade de qualquer producção litteraria, que farei eu? Seria sem duvida vestir-me com as pennas do pavão se eu não confessasse publicamente o grande auxilio que recebi de muitas pessoas doutas, das quaes espero no fim d'este meu trabalho dar noticia mais circumstanciada. Não posso comtudo deixar de agradecer antecipadamente ao Sr. José Manuel Severo Aureliano Basto, digno Official Maior do Archivo Nacional da Torre do Tombo (a cuja casa quasi que me reputo pertencer, se não officialmente, por adopção e frequencia de vinte e seis annos) por me haver proporcionado o exame dos documentos que fazem a parte principal do meu trabalho, e onde nasceu a idéa pela acquisição do Alvará da tença, primeira descoberta que ahi fizemos. Aceite pois o Sr. Official Maior e os mais

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