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Animaes exquisitos, passarolas
De máu aspecto, e monstros singulares,
Amphibios numerosos e macacos
Hirsutos e travessos, tudo serve,
E todos teem seu prestimo. Aquelles
Que só nos vultos curam, esses homens,
Que Cesar conheceu, vendo em Pharsalia,
Preenchem seus logares nos banquetes,
Servem a certos fins, e tambem prestam
Pâra adubo de risos, p'ra recreio
Da gente mais cordata que os contempla.
Sem elles mal iriam os festejos,
E, sem elles, eu juro, que ha donzellas
(De taes pares condignas totalmente),
Que tristes dormiriam pelos bailes.
Oh! gente afortunada, se soubesse,
Conhecer seu valor, e grande pêso !
No entretanto gozai do largo mundo,
E, por fim, quando a morte vos alcance,
Ireis todos p'ra o céu, que é o voɛso reino.

Brilhavam, nesse tempo, em toda a parle, Mil adornos de Flora, não riquezas De prata burilada. Puros vidros Com agua inda mais pura, recebiam Ramos verdes, e flores da floresta, Tão lindas, tão mimosas, e suaves, Que dos olhos levavam dentro d'alma, Brando sentir, hnmano e bem fazejo.

As flores companheiras são do homem, E só delle recebem doce trato:

Os brutos seus encantos não percebem ;

"

Não tendo a luz do céu, e Deus no peito,
Mal podem ver bellezas na materia,
O rigido tapir sae das ribeiras,
Corre pêlas campinas matizadas,
Pisa os ricos tapetes de natura,
Da gentil açuçena morde a face,
E rompe mil capellas engraçadas,
Com que Alonso enfeitára a linda Cora.

Do festim os salões naquelle día,
Estavam convertidos n'um bosquete,
Idéa natural de mestre Berto,
Pâra trazer dos campos a frescura
Do tecto hospitaleiro que o honrava.
Ramos cheirosos do araçá bravio,
Tecidos co'a limeira, e co'a pitomba,
Faziam linda trança co'a folhagem
Da vermelha pitanga, e da mangaba.
Vergonteas de canella, e da baunilha,
Diziam, que o Brazil tambem é Asia.
Galhos de cajueiros, e do artocapo,
E palmas reluzentes do alto côco,
Completavam o arranjo deleitavel
Do campestre recinto simulado,
Por fructos, e por arvores da terra.

Niveas toalhas cobriam largas mesas,
Onde, por duas filas, se avistavam,
Sobre parras, e flores escolhidas,
O ananaz soberano e aromatico,
Do Maranhão trazido áquelles lares.
Fructas de conde (cujo mel cheiroso
E' nata vegetal) estavam postas,

Defronte de quadrados amarellos
De suaves bananas delicadas,
Linda pera dos tropicos felizes.
Laranjas, abacates, verdes limas,
Morenos sapotís, que o bom Filinto
Em vez de trouxas d'ovos comeria,
Tomavam seu logar ao pé de cestas,
De mangas soberbissimas e raras,
Que de Itamaracá recebem nome.
Outras fructas formosas e fragrantes,
Com mil doces, e pratos delicados,
Prefaziam o quadro mais completo,
E o mais grato dessér do mundo inteiro.

Sobre as mesas, desta arte, guarnecidas, Trascalando os effluvios de Pomona, Escravos apurados assentaram, Grande cópia de pratos fumegando, Com viandas e môlhos de appetite. Appareceram quartos de vitella, Alvo lombo do cerdo e gorda vacca, Várias aves, e caça peregrina, Cujo sabor lhe vem da vida alpestre, Pescado e camarões do manso rio, Em loiras frigideiras borbulhando, Empadas de palmito, grandes tortas, Arroz de forno com jardim de salsa. E, p'ra timbre final do rico apresto, Avultava o melhor dos grandes pratos, Leitão de espeto, glória dos banqnetes.

Com la disposição tudo era prompto, Quando Baldo, acenando a mestre Berto,

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Confessou ser incerto e vacillante,
Sobre qual dos senhores reunidos,
Teria logar de honra ao pé de Clara.
Hoje voga o princípio de igualdade,"
Sisudo reflectiu o heroe da festa,
Receio dar offensa neste trance,
E no enleio cruel depreco aviso. "
Mestre Berto falou desta maneira:
- As sciencias, as armas, e as riquezas,
Disputam a miudo a primazia,

E os homens arrolados em taes classes,
Para si têm querido a precedencia,
Não só nos actos serios e distinctos,
Porém inda nos bailes e banquetes,
Onde ás vezes se encontram misturados,
Céde tudo, porém, á cortezia,

Quanto a igreja se mostra em qualquer parte.
As armas, e as lettras retrocedem,
Os ricos, e os soberbos se desviam,
Os proprios diplomatas dão-lhe o passo,
Pois de tudo sabendo não ignoram,

Que o dizer, que seu reino é do outro mundo,
Importa que ella sempre é sobranceira,
Com as azas estendidas, e voando,
Qual sublime condor, sempre elevado
Por cima do que é grande cá da terra.
Dê, pois, ao seu fiel representante
O logar mais distincto que lhe cabe :
Entregue Dona Clara ao bom vigario.
Assim se fez, e musicas do bosque,
Tangeram a entrada pâra o banquete,
E todos com semblantes de alegrià,
Tomaram pelas mesas seus assentos,

Applaudindo o soberbo lanço d'ôlhʊ,
O gôsto, a novidade do apparato,
E ludo emfim que ali se descobria.

Depois de curta pausa tinem pratos,
Retinem garfos, facas e colhéres,
Susurro de festim alto começa,

Olhos scintillam, mãos soccorrem boccas,
Mestre Berto comia, e não falava,
E Baldo, sempre alerta em seus deveres,
Attendia ao serviço das senhoras,
Affavel presidindo ao seu convivio.
Dona Clara, vestida em ricas sedas,
Seu bom gosto mostrava nos cabellos.
Enorme, coruscante e alto pente,
De artistico lavor tinha cravado
Pêlas tranças luzentes de azeviche.
Conta-se que era tal o seu tamanho,
Que o vigario, por vezes, qual Damocles,
Temendo que caísse, deu suspiros !
Era porém o andaime bem seguro,
E a matrona, soberba do enfeite,
Para todos olhava com sorrisos,
Linguagem do prazer que a possuia.

Passava-se o banquete alegremente,
Cosme contava histórias divertidas,
Reinava um tiroteio de bons ditos,
Corria o loiro vinho effervescente.
Oh! que festa ditosa era a de Baldo!
Que prazer, que gracejos, que doçura,
Que toque divinal lhe cala o peito?!...

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