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APRECIAÇÃO CRITICA1

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Reimprimindo se em Lisboa as obras completas de um dos mais correctos escriptores brasileiros e mais nacionalmente orientado, o insigne politico doutrinario do Jornal de Timon, o lucido critico da Vida do Padre Antonio Vieira, é quasi um dever que de Portugal seja acompanhada essa obra com as saudações que competem a um tão preclaro pensador. Na lápide da sepultura de João Francisco Lisboa lê-se: «Falleceu em 26 de Abril de 1863 na cidade de Lisboa.» Esta circumstancia fortuita ligou para sempre a sua memoria a esta terra, que saberá sempre honral-a como depositaria do seu ultimo e generoso alento.

O que se póde saber da vida activa e intellectiva de João Francisco Lisboa está largamente tracejado pelo seu consciencioso amigo o Dr. Antonio Henriques Leal, em uma narrativa de perto de cem paginas cheias de vivo interesse pela minuciosa informação historica. Este segundo prefacio, agora quando tudo está dito, deixa de ser uma superfluidade diante das ponderações referidas; é uma homenagem, que em vez de ser o apparato de phrases laudatorias, visa a converter-se em um juizo synthetico.

1 Este trabalho, devido á penna auctorizada de um dos mais eminentes escriptores de Portugal, o Ex. Sr. Dr. Theophilo Braga, devia ser publicado logo á frente do 1.o volume das Obras de J. F. Lisboa, o que infelizmente não pôde ter logar por haver sido escripto já depois de impresso o dito 1. volume.

Segue pois á frente do 2.o e ultimo volume; aproveitando nós o ensejo para mais uma vez agradecer ao seu illustre auctor, a boa vontade e desinteresse com que se dignou escrevel-o.

Tambem nos cumpre declarar ser esta a 3.a edição das Obras de João Francisco Lisboa, o que não foi dito no frontespicio do 1.o volume porque ao tempo em que foi publicado ignoravamos se se tratava de uma 2. ou 3.a edição, o que só agora soubemos por carta do nosso illustrado e velho amigo Dr. Pedro Nunes Leal, por quem fomos incumbidos, aqui em Lisboa, da sua publicação; e fazendo, em seu nome, estas declarações, reiteramos ao Dr. Theopilo Braga os agradecimentos por sua parte.

A. Cardoso Pereira.

João Francisco Lisboa nasceu em 1812 e morreu em 1863, occupando a sua existencia apenas meio seculo, pouco para a expansão productiva das suas potentes faculdades, que vingaram affirmar-se por fórma que a sua obra se impõe como um dos mais eloquentes titulos da civilisação brasileira. A perda de seu pae ainda na infancia, e o carinho da casa de seus avós onde foi creado, influiram na tardia cultura mental a bem da espontaneidade de caracter; caracter que o levou primeiramente á vida pratica de uma carreira commercial aos dezoito annos de edade (1827), que abandonou passados dois annos, absorvido pela paixão vehementissima do estudo. Nada se perdeu na formação d'aquelle espirito; tendo-se regenerado physicamente de um estado de criança valetudinaria pelo contacto da natureza na vida da Fazenda (1821-1825), tornou-se o espirito perspicaz e equilibrado pelo conhecimento da realidade na vida pratica do commercio (1827-1829). Os acontecimentos avançavam para elle; e entregue a vida intellectual, teve de formular opiniões, sustental-as, e imprimir direcção ao desvairamento dos partidos politicos, sempre na linha do bom senso, e no meio dos conflictos da sua terra, a provincia do Maranhão, conservando-se puro e intemerato. Pela Revolução de 7 de Abril de 1831, e fuga de Dom Pedro, o Brasil, no meio de uma prolongada regencia, tomava conta dos seus destinos pelo exercicio da sua autonomia nacional; n'esta crise violenta agitaram-se as facções dos ambiciosos e dos despeitados, e acobertaram-se com os lemmas de partidos politicos: havia o partido portuguez, que ainda pensava em retrogradar á dynastia bragantina, á época paradisiaca de D. João VI ou pelo menos ás audacias do primeiro Imperador, e era sarcasticamente denominado o partido Caramurú, e o Brazileiro, que sustentava com repressões a sua nascente e ameaçada liberdade. Essa instabilidade social através das varias regencias na menoridade de D. Pedro II, dando logar a revoltas, conspirações, perseguições pessoaes, odios e hostilidades mutuas, fizera-se sentir profundamente na opulenta provincia do Maranhão. Carecia-se ahi de um homem com ascendente moral, dotado de uma razão clara e de superior desinteresse; João Francisco Lisboa teve consciencia d'essa missão a que as circumstancias e o seu temperamento o chamavam. O seu nome começou a apparecer assignado nas representações a favor das causas de justiça e pela pacificação.

N'estas luctas partidarias da politica o aspecto local é sempre exagerado e implacavel; o Jornalismo, que começava na Europa a ser considerado como um poder do estado pelo seu influxo na opinião publica, em um paiz em que a excitabilidade nervosa é uma caracteristica dos temperamentos, tornou-se uma arma de combate. Os jornaes O Pharol Maranhense e a Aurora Fluminense destacaram-se entre os demais athletas como os que serviam de pontos de cohesão entre os partidos. Ser jornalista era andar exposto ás prisões discricionarias e a morte pelo assassinato; assim succumbiu na brecha o redactor do Pharol Maranhense. Foi em situação tão grave, em que a imprensa

liberal se via sem representação, que João Francisco Lisboa entrou com passo decidido na carreira jornalistica; publicou O Brazileiro (1832), que durou tres mezes, para dar logar ao reapparecimento do Pharol, consagrado pelas suas luctas e sacrificios do seu antigo redactor. N'estas luctas dia a dia fundou ainda João Francisco Lisboa outro jornal, O Ecco do Norte (1834), que durou tres annos, terminando por ventura forçado pela chamada ao cargo de Secretario do Governo provincial, e eleição de deputado á Assembléa da Provincia.

N'esse periodo da vida jornalistica em que manifestou a sua convicção profunda da liberdade, e o espirito de ordem auxiliado com a aspiração ao progresso, João Francisco Lisboa chegou pela sinceridade. e justeza das suas vistas a sustentar a necessidade de estabelecer a Federação das Provincias do Brasil. Bastava este facto para lhe dar um logar proeminente entre os homens illustres do Brasil. O jornalismo em que João Francisco Lisboa actuava sobre o seu meio social influiu tambem nas suas qualidades de escriptor, dando-lhe uma redacção facil, movimentada, resultante do habito da escripta instantanea segundo as exigencias de momento. Foi sobre esta naturalidade de estylo que assentou a firmeza das fórmas puras da lingua portugueza que elle hauriu no estudo dos prozadores quinhentistas como Barros, Couto e Lucena, e nos seiscentistas como Frei Luiz de Sousa, Bernardes e o incomparavel Vieira. Assim como a linguagem attica de Athenas revivesceu entre os Alexandrinos, assim o portuguez se continuaria no Brasil como na éra do seu purismo, se o exemplo de João Francisco Lisboa fosse adoptado.

Uma vez na Assembleia provincial, que lhe revelava o espirito federativo, manifestou-se o orador, com a posse completa da expressão, a escripta e a palavra. As luctas politicas interessavam-no como patriota e como critico; e tanto, que para combater em 1838 a reacção fundou a Chronica Maranhense, e em 1840 é apresentado como candidato á Deputação geral. Era o momento decisivo; ou entraria na politica activa e tornar-se-hia um vulto preponderante do segundo Imperio, capaz de forçar a pedantocracia liberal a separar-se d'esse sophisma das Cartas outorgadas, ou ficaria um desalentado diante das intrigas abjectas das parcialidades. João Francisco Lisboa era bastante recto e intelligente para ser temido pelas facções que exploravam as regencias, e a decepção da candidatura de 1840 deixou-o de vez enojadissimo da politica. Faltava-lhe este campo de acção; e póde-se dizer que o Brasil perdeu uma capacidade impulsora, que actuaria progressivamente nas suas instituições. João Francisco Lisboa não podia cahir na apathia; a sua actividade litteraria exerceu-se em varios escriptos com intuito pittoresco e ethnographico, como que assentando a mão para traçar as paginas de uma Historia da sua provincia.

O talento de orador tinha tambem de exercer-se, e manifestou-se o Advogado sem curso juridico, mas conhecedor das leis civis, criminaes e administrativas, eloquente pela convicção, e triumphante pela

inteira probidade. Causas politicas fizeram do tribunal o seu Capitolio, e dominava pelo perstigio da palavra valorisada por um caracter. O seu vulto era contemplado de longe, e em 1847 offereceram-lhe uma cadeira de deputado na Assembleia geral; conhecedor dos homens da situação e da simulação dos principios liberaes, recusou o convite mas não se desinteressou dos phenomenos politicos do seu paiz. Em vez de uma cadeira no parlamento, abriu elle uma nova tribuna, que exerceu uma influencia directa na corrente da opinião. Em 1852 publicou o primeiro numero do Jornal de Timon, em um folheto de cem paginas. Já não era a folha avulsa, que apparece reproduzindo ou explicando o facto do dia, que se rasga, passa, tal como o poeta Arnaud nos descreve o destino da folha solta. Era o pamphleto; aqui o gallicismo é intencional. O celebre escriptor francez Cormenin, nos folhetos e opusculos com que combateu os desvarios do Imperio, da Restauração, e ainda da segunda Republica, empregava sempre o pseudonymo de Timon; com esse nome, porventura tomado de Timon o Silographo, e não de Timon o Misanthropo, assignou Cormenin os seus folhetos Uma palavra sobre a lista civil; Sim e Não; Fogo, fogo; Ordem do dia sobre a corrupção eleitoral; a Soberania do Povo, etc. Com esses folhetos de Timon, Cormenin chegou a apear ministerios e a actuar na transformação das instituições administrativas. Com o nome de Timon foi admirado na Europa o vigoroso folliculario do reinado de Luiz Philippe; elle tinha descoberto uma arma de combate mais segura do que o jornal, não de effeito tão rapido, mas mais profundo. Foi sobre este typo que João Francisco Lisboa moldou o seu Jornal de Timon, que se continuou durante os seis mezes que esteve no Rio de Janeiro em 1855, e que terminou em Lisboa em 1858 no seu segundo volume, formando ambos os volumes umas oitocentas e e cincoenta paginas. O Jornal de Timon não é uma obra de occasião; é um commentario critico e historico, elucidativo para o momento, mas um documento para o futuro. E' ahi que revela a serenidade de animo, a bondade natural e uma tendencia para tirar da historia a luz interpretativa dos factos sociaes occorrentes. Faz como o profundo Macchiavelli nos seus Discursos sobre Tito Livio em relação aos acontecimentos da sociedade italiana da sua época. Esta direcção do Jornal de Timon encaminhava-o para as investigações historicas; nasce-lhe no espirito a aspiração de uma Historia da Provincia do Maranhão. Tinha qualidades para essa empreza de uma historia local, conhecendo profundamente os dois typos generativos da sociedade brasileira, os Municipios e as Capitanias; conhecia a importancia dos estudos ethnologicos das raças indigenas e dos costumes populares, os annaes das luctas com o elemento hollandez e francez, e as memorias manuscriptas dos tempos coloniaes. João Francisco Lisboa, apezar de conhecer as formas superiores da Historia, a que a elevaram Thierry, Guizot, Michelet e outros, não visava a escrever uma Historia geral do Brasil; ninguem se achava então mais habilitado, pois que o erudito era es

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