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APONTAMEMTOS PARA A HISTORIA DA LINGUA
PORTUGUEZA

SOBRE A LINGUAGEM DOS CANCIONEIROS

edade media, não parecem ter tão fundo conhecimento da essencia e forma dos cancioneiros como se devia esperar do seu saber. Basta-nos indicar para exemplo a imperfeição do pequeno glossario, que o sr. Varnhagen ajunctou ás Trovas e Cantares. Não só se não indicam n'elle um grande numero de palavras dos cancioneiros mas ainda das ali indicadas algumas não trazem as significações (chus, guarvaya, sentirigo, seserigo, vel, velida,) outras trazem significações erradas (cousimenlo, cousecer, proffaçar). Dos cancianeiros de D. Diniz e D. Resende não ha glossarios; apenas o Dr. Lopes de Moura explicou algumas palavras e formas do primeiro em notas.

Não temos a pretenção de resolver todas as difficuldades, que nos offerecem os cancioneiros: contentamo-nos com reduzir o seu numero ao minimo.

Em quanto á ordem do estudo da linguagem dos cancioneiros, que seguimos, é simples. Dividimos esse estudo em duas partes: uma dedicada á lexicologia, outra á grammatica.

N'outra serie d'estudos que encetámos consideramos os cancióneiros sob o ponto de vista da poesia e da historia, mas não é só por esses dous lados que elles podem ser encarados: como monumentos da lingua, a sua importancia é grande, sobretudo porque elles nos dão a conhecer dous dos momentos principaes da historia do portuguez. Os primeiros cancioneiros, o de D. Diniz e o do Collegio dos Nobres, mostram-nos o estado da lingua quando ella se tornou litteraria; o ultimo, o de Resende, apresenta-nos a lingua na epocha que precede immediatamente o periodo classico, periodo em que a nossa lingua segundo a opinião corrente, se aperfeiçoaria por in-fluencia do estudo das lettras greco-latinas. Não pretendemos entrar aqui no exame d'essa opinião academica; preparamos sómente alguns dados para resolver se o aperfeiçoamento de que falla é imaginario, e se o não é em que consistiu, o que não nos dizem os que creem n'elle. A marcha para chegar a essa solução é simples, mas não pode seguir-se sem fazer a longa analyse que encetamos, e que nos não permitte por emquanto chegar a vistas syntheticas. A comparação dos primeiros cancioneiros e monumentos coevos (a trad. da Historia geral, etc.) com o cancioneiro de Resende e monumentos da mesma epocha revela-nos as modificações autonomicas da lingua. As diffe- NB. DD. indica o Cancioneiro de D. Diniz, renças entre os monumentos d'essas duas epo- e o numero adeante a pagina; TC. as Trovas chas realisaram-se por gradações de que nos e Cantares (Cancioneiro do Collegio dos Nodão conta os monumentos intermedios. Outra bres, ed. de Varnhagen) e o numero adeante comparação dos monumentos da ultima d'es-o n.° da cantiga.

sas epochas, com os monumentos do periodo

Na parte lexicologia apresentamos já as palavras e formas dos cancioneiros, hoje fóra de uso, já as palavras n'elles empregadas em sentido diverso do actual.

Na parte grammatical indicamos as particularidades phonicas, morphicas e synteticas, em que a linguagem dos cancioneiros differe da do periodo chamado classico.

Lexicologia dos primeiros
cancioneiros

chamado classico mostra-nos a evolução n'este Adubar. Em documentos citados por Sancta periodo, e diz-nos qual é a natureza d'essa Rosa de Viterbo Eluc. apparece esta palavra evolução: se ella é autonomica, se devida, com o sentido de reparar, compor e congenecomo é de uso dizer-se, a uma influencia res e tambem tractar. Mais indefinido é o seu alheia. sentido na seguinte passagem:

No estudo da linguagem dos cancioneiros não é só o ponto de vista theorico, a marcha da historia da lingua, que nos preoccupa: o ponto de vista pratico, a sua interpretação litteral tem importancia a nossos olhos. As difficuldades que offerece a um leitor vulgar a leitura d'esses livros é talvez uma das causas da ignorancia, que d'elles tem a maioria d'aquelles mesmos, que leem os auctores chamados classicos. A ideia de que os cancioneiros são escriptos em linguagem grosseira, e barbara affasta os leitores, que se contentam de lhes saber o nome. Além d'isso, ainda homens versados na nossa litteratura e historia da

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TC. 241.

E ja meu consello non sei;
Ca ja o meu adubad' é.
Damos-lhe a significação de terminado, re-
solvido. Vid. o contexto da cantiga.
Adur. Com difficuldade (de a e duro):
E sabe Deus que adur eu vin y

Dizer vos como me vejo morrer. TC. 172.
....adur me podia falar.

DD. 152.

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TC. 213.

per rey, nem iffante

Des aly a diante

Non me cambharia.

DD. 84.

TC. 11.

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Id. 16. que o

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TC. 205

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TC. 110. passagem:

Quero m'ante mia coit'andurar. TC. 209. Anvidoso. Esta palavra é derivada de invidia, mas o seu sentido não é já invejoso mas torturado por o desejo, por a saudade. .... mia Señor

De que m'eu trist'e chorando.parti,

E muit'anvidos'e mui sen sabor. TC. 210. Atender. Esperar.

Pero dela non atend'outro ben. TC. 192. Atrever. Confiar:

E os amigos en quem atrevia

De que me ten en al por avidado
Non ll'o dizen.

Avidar.

TC. 192.

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....

DD. 133.

de morrer, ou de viver Sab'el caxe no meu poder. Interpretamol-a por cahe, com que tambem é identica phonicamente, sendo o x, como j, 9, s ez, uma consoante chamada para evitar o hiato; cf. trager de trahere, etc. Chus. Identico phonica e funccionalmente ao lat. plus:

Pero nunca vistes moller
Nunca chus pouco algo fazer.
Cima. Fim:

Na cima gualardon prende.
Coita, coyta, cuita, cuyta.
Podedes-me partir gran mal
E graves coytas que eu ey.
E na mia coita, pero vos pesar
Seja.

TC. 156.

TC. f.

DD. 91.

TC. 2.

Encontra-se passim nos cancioneiros. Comprir. No sentido primitivo de complere, encher:

Tanto a fez Deus comprida de ben
Que mays que todas las do mundo val,
DD. 61.

Compridamente. Completamente ou longa

mente:

Possa conpridamente no seu ben Falar

DD. 16.

...... non sei oj'eu quen

TC. 5.

Id. 173.

DD. 65.

Côorto. Conforto (f syncopado):

CD. 27.

...... deus que sab'o gram torto Que mi ten, mi dê côorto.

DD. 103.

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TC. e.

TRAGICOS SUCCESSOS DE PORTUGAL

pela usurpação de D. Miguel, relativos á Praça d'Almeida

POR * * *

(1834)

CAPITULO II

A oppressão na Praça d'Almeida é desastrosa, logo que em 1828 a ella são arrastados presos politicos.

Cousecer. cousidor, cousimento. O sr. Varnhagen dá a estas palavras o sentido de aco- Ao norte de Portugal, a tocar na raia da ther, acolhedor, acolhimento; mas o exame Hespanha, a distancia de legua, em um alto, das passagens em que occorrem mostra que e em uma esplanada, está situada a Praça tal não é o verdadeiro sentido. Eis essas pas-d'Almeida, outr'ora forte na defesa; porém sagens: hoje fraca pela ruina dos seus muros. As suas muralhas rasas com a terra, e o dilatado dos seus fossos a tornaram respeitavel aos seus inimigos. Em outro tempo foi mais populosa esta villa; hoje apenas terá 400 fogos, e de permeio amiudadas ruinas do tempo da invasão franceza. Tem sómente duas portas nas avançadas da cruz, e de Sancto Antonio, e em seguida grandes arcadas a prova de bomba. Tem seis baluartes; o de S. João de Deus é respeitavel pela sua segurança, e pelas gran

E cousecem me do que fuy dizer
Que non queria sen Señor viver.
Ja m'eu quizera con meu mal calar
Mais que farei con tanto cousidor? Id. id.
Se prouguess'amor ben me devia
Cousimento contra vós a valer.
E mia Señor sei eu guardar outren,
E a mi que mi avia mais mester,
Non sei guardar, e se me non valer
Escontra vós, mia Señor, outra ren,

Id. 126.

mado. As abobodas, as casas d'arrecadação, e as de guarda foram convertidas em prisões n'esta épocha desgraçada.

Non mi á mi prol, quando me prol non ten des abobodas subterraneas sobre que está firCousimento que me valer devia, E mia Señor vel por Sancta Maria, Pois Deus non quer que eu faza cordura, Fazend'y vós cousiment'e mesura. Id. v. A nenhuma das ditas palavras, vê-se claramente, convém o sentido que lhes dá o douto editor das Trovas e Cantares. Se elle aqui e n'outros casos tivesse empregado o verdadeiro meio de resolver difficuldades d'esta natureza, a etymologia e a comparação com os dialectos congeneres, não teria cahido em tal erro, a que por certo o levou a supposição d'uma relação phonica entre cousimento e acolhimen

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As prisões, que em Maio de 1828 começaram de ter exercicio n'aquella Praça, foram a civil, as tres da principal, as duas de Sancto Antonio, e suas avançadas; prisões de grande segurança, e sempre vigiadas. As ultimas quatro eram subterraneas, e a prova de bomba. O regimento onze de infanteria, que fazia a guarnição, era quem as defendia, e era esta caterva de tigres, que á porfia serviam de verdugos a quantos retinha captivos, sacrificando á sua desmedida raiva, e sanhudo rancor a estes inermes: bastava qualquer d'estes monstros saber o nome de um preso para falsamente o accusar logo ao official da guarda, e no dia seguinte o desgraçado gemer sem apello, nem aggravo debaixo das varadas d'estes litores crueis. A mais leve satisfação, que os presos mostrassem em seus semblantes, era motivo forte para se tornarem suspeitos, e na madrugada seguinte serem victimas de um atroz castigo! Não se podia articular Pedro, nem Maria. O fallar baixo, ou um pouco mais alto, era bastante para novo castigo! Quantos, que estando dormindo, eram accusados de insultarem as sentinellas? Quantos eram de madru

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gada chamados ás arcadas, e cercados pelos se lhes apresentava a correspondencia de suas soldados eram espancados até se não poderem familias, e amigos!!! As cartas eram abertas, levantar da terra em que jaziam, sem que seus e examinadas perante o governador da Praça, dolorosos gemidos movessem aquelles co- e se apparecia alguma reticencia, ou expressão rações de bronze, insensiveis á compaixão? suspeita, aquelles a quem eram dirigidas sofQuantos por fim d'estes tormentos principia-friam as varadas por aquelles, que as escrevam a adoecer com uma febre lenta, que cor- veram. Tudo era terror, tudo espanto !! tava em breve os fios da sua existencia !!! O terror, e susto nos calabouços, a barbaridade, e o atrevimento nos soldados ficavam a par. É incrivel o auge a que chegaram em toda a Praça d'Almeida. Cada soldado era um tigre armado; cada preso um automato inerme, que só cuidava de se esconder á luz do dia para melhor escapar aos excessos da tyrannia?

Se para minorar seus males inventavam algum intertenimento de jogo, de toque, ou canto, tudo debaixo das maiores penas lhes era vedado: só era permittido aos presos andarem tristes, cabisbaixos; era então que a tropa folgava alegre. A comida, a bebida, o papel, tudo quanto entrava nas prisões era escrupulosamente examinado, para não podeNos calabouços só era permittido entrar rem ser introduzidas as noticias sobre a nossa cada dia a nova guarda a tomar conta dos pre-futura liberdade e da mesma sorte o eram as sos, que lhe eram entregues, e a revistar todo cartas, que sahiam das prisões, e desgraçado o seu interior para segurança. O rigor que d'aquelle, cujas lettras eram mal entendidas! praticavam com os presos, o estendiam aos No meio de tão espantoso rigor de quando em serventes, que cuidavam do seu sustento; quando por diversas maneiras (*) entravam as muitas vezes producto das esmolas, que a ca- noticias n'estas sombrias habitações da miseridade dos fieis facultava a estes desgraçados, ria, e da morte! Era este o violento estado privados de sua fortuna. das prisões da rude, e grosseira Almeida, segunda Praça do Reino, quando arrancado do Aljube do Porto, a ellas fui arrastado !!!

CAPITULO III

Perseguição do escriptor, e seu itinerario das

Eram os serventes, e os creados aquelles de quem a guarnição mais desconfiava; ella estudava com o maior escrupulo as suas palavras, os seus gestos, e acções. Chegava a tal aperto esta severa pesquiza, que muitas vezes nem permittiam que os serventes olhassem para os prisões do Porto para as d'Almeida. presos; para que elles não lessem em seus semblantes o que se passava nos corações. Reitor da Igreja que por expectativa sua maSegundo as noticias, que corriam, segundo o gestade me havia dado em 1825; apenas tiandamento das operações militares, era assim nham decorrido vinte e sete dias depois da o aperto; de sorte que por estas providencias minha collação em Coimbra, quando no dia de guarnição, nós julgavamos do adianta- quinze de Junho de 1828 sou perseguido pela mento da nossa causa. A passos largos o Du- relé do povo em nome de Deus, e de D, Mique de Bragança adiantava a restauração, e guel: como se Deus mandasse perseguir !!! os serventes mais desviados eram das grades D'este tumulto popular pude evadir-me: deidas prisões, de sorte que a guarnição era a xando minha cara familia corri a Coimbra, baque commettia aos serventes os nossos reca-luarte então defendido pelas tropas fieis; mas dos; por ser impossivel o tractar com elles, e eu tive de compartilhar a mesma sorte infeliz. ouvirem o que lhes diziamos, houve tempo No dia 22 de Julho fugi da face dos meus amigos em que os creados ficavam a distancia de mais para mais os não ver em seis annos, que dede cincoenta passos: tal era o terror de que correram. Fui, sem elles o saberem, omisiaros oppressores estavam possuidos!! Tudo pa- me na Bairrada, onde felizmente encontrei recia conspirar-se contra os infelizes opprimi- um ecclesiastico digno, humano, e pouco asdos nenhum allivio, nem distracção lhes era sustado, a alma mais bem formada que tepermittida; até a correspondencia de suas fa- nho conhecido, com quem vivi 27 mezes, e de milias lhes era vedada. É impossivel pintar quem me recordarei sempre com a mais viva em tão curto pano o horroroso quadro de tão saudade. A fatalidade porém quiz que eu fosse duradoura tragedia!! Em cada madrugada eram envolvido com outros em um cerco pelo batanas arcadas da prisão grande de Sancto Anto-lhão de caçadores 8 nas faldas do Bussaco em nio mais de vinte os padecentes, uns accusa- 6 de Setembro de 1830, e pela prisão arrandos pelas sentinellas, outros pelos mesmos cado d'entre os braços do meu verdadeiro companheiros, qual um prior do Soito da Casa, amigo.

e um chamado Bezelga; só por fazerem serviços ao partido de D. Miguel, a que pertenciam.

Que terror e susto para os presos, quando

(*) Pelos differentes sympaticos; pelo picado, pelas senhas, e por muitos modos, como em seu logar se dirá.

D'aqui seguimos no dia seguinte para Mezão Frio, aonde chegámos já de noute. Coube-me por sorte ir para a enxovia, oude a fria terra nos serviu de cama n'esta noute, em que pelo muito suados que chegámos, pensavamos pereceria a nossa saude, felizmente os trabalhos nos animaram e constantes nos soffrimentos seguimos no dia seguinte até Lamego, a 16 leguas do Porto.

Passando logo ás prisões d'Aveiro, onde venção nos preparavam: ali fomos compame retiveram quinze dias, e depois ao Aljube nheiros de ladrões, que se não portaram mal do Porto para onde a alçada me requisitára, comnosco, principalmente depois que o juiz permaneci ali preso até 19 d'Outubro de 1831, da prisão provou as mãos d'um meu compaesperando a toda a hora o meu degredo, fe- nheiro. lizmente porém fui.comprehendido na primeira conducta de 52 presos, que algemados, e com cordas fomos arrastados até á Praça d'Almeida, a distancia de trinta e duas leguas. A escolta que nos conduzia era boa pelo que toca aos melicianos da heroica cidade do Porto, que nos tractaram bem até nos largarem em Lamego, d'onde continuamos a nossa derrota escoltados por 200 voluntarios d'ali. Do Porto pois sahimos os 52 escoltados por 26 melicia A estrada de Mezão Frio para Lamego corre nos, outros tantos dos regimentos 12 e 19, e ao longo da margem direita do rio Douro, e sete cavallarias. Logo no primeiro dia fomos na Regua é que se passa em barca para subir ficar a Baltar, a 4 leguas do Porto. Esta terra uma elevada collina, além da qual está a cidade é miseravel, e muito miseravel a enxovia, que de Lamego. No meio d'esta distancia estão as tendo só 72 palmos em volta, poude conter os Caldas de Motedo, aonde habita Antonio de 52 desgraçados, desprovidos de todo o soc- Lacerda Pinto da Silva, que em 1828 foi genecorro. Era já alla noute quando ali chegamos, ral das armas da Beira Alta. Apenas este die do povo nem um só habitante se prestou a gno homem nos viu algemados, desceu a enver-nos, e muito menos a soccorrer-nos! Ao contrar-se comnosco, fez parar a conducta, á sahir d'esta prisão no dia seguinte fomos qual mandou dar refresco aos presos que iam ameaçados com a morte; porque o comman- a cavallo por não poderem andar, ao commandante da escolta presumiu ouvir-nos algumas dante da escolta, e ao Meirinho da alçada fez cousas pouco favoraveis ao seu governo; as entrar em sua casa; e quando se concluia o nossas desculpas porém socegaram o espirito jantar dirigiu ao commandante a seguinte inquieto d'este servidor de D. Miguel. De resto conversa: «Senhor capitão, não é por este tractou-nos bem até Lamego, e só temos a «modo que se tractam pessoas de bem, levanlouvar o seu porte para comnosco, apenas de- «do-as assim tão opprimidas: nos tempos visou em toda esta conducta firmeza de cara-«constitucionaes quando a segurança do escter. De Baltar fomos no segundo dia, 20 d'Ou- «tado pedia alguma prisão, ou deportação, tubro, dormir a Penafiel, a duas leguas de dis«nunca vi practicar taes excessos: hontem retancia.

Quando subiamos por esta infame terra, que se acha extendida ao longe, e na subida d'uma collina, não se ouviam senão gritos sediciosos de morras confundidos com os vivas, que davam ao usurpador. Eram estes os trovejantes sons, que articulavam os habitantes da cidade: pelas janelas não se viam senão mulheres, meninos, velhos, moços, voluntarios, ecclesiasticos, todos a uma voz em alaridos gritando contra nós. O vigario geral da terra desempenhou bem o seu papel em favor de seu amo, e uma padeira, quando passava o preso reitor de Rans, protestou leval-o ao supplicio. Muito differente foi a nossa sorte apenas nos recolhemos ás prisões, que desde o principio se achavam atulhadas de presos politicos. Ali recebemos de todos os presos os soccorros de que careciamos, nem sabiam o que nos fizes sem. Deram-nos as suas camas, comida, e todo o necessario.

«cebi uma carta de Lisboa, em que se me diz «que os presos da Torre de S. Julião passam «para Elvas, o que nos indica grande movi«mento nas cousas do estado. Os constitucio«naes em 1828 depozeram-me de general da «Provincia, porque, por ser parente do Silva, «julgavam que teriam eguaes sentimentos, po«rém não sabiam quem tinham em mim, que «até ao presente, apesar das muitas rogativas «do governo, nunca quiz seguir tal partido», e virando-se para um dos presos (Vicente José de Vasconcellos) continúa: «logo que chegue «a Almeida exponha ao governador meu so«brinho o modo como aqui o tractei, e que lhe «sirva isto de governo para o futuro, e que a «minha espada nunca se ha de desembainhar «contra portuguezes, e que os tracte bem». Despedimos-nos agradecidos, e seguimos para Lamego.

Todo o dia de hoje, apesar da nossa oppressão, foi-nos muito aprasivel pela linda vista que apresentam todas estas collinas, e margens do Douro, que são um continuado jardim desde as suas faldas, até á elevação dos seus .

No dia seguinte, 21 d'Outubro seguimos até Amarante, aonde chegamos pela tarde, e mettidos em uma apertada enxovia recebemos o preciso soccorro, que os serventes com pre-cumes.

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