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De nos jours, d'ailleurs, je ne vois d'emploi plus honorable et plus agréable de la vie que d'écrire des choses vraies et honnêtes qui peuvent... servir, quoique dans une petite mesure, la bonne cause.

TOCQUEVILLE.

PROLOGO

Sente-se ha muito, e por certo se estranha, a falta de noticias das coisas portuguezas; e essa falta vem a ser tanto mais notavel, quanto nos é quasi trivial o conhecimento do que existe ou existiu em França, na Belgica, na Inglaterra, e em outros paizes, ao passo que não sabemos perfeitamente o que mais de perto nos interessa.

Repugna-me ver n'este contraste o desamor das coisas nacionaes; parecendo-me antes, que elle se explica muito naturalmente pela facilidade que temos de satisfazer a nossa curiosidade, a respeito dos estranhos, na leitura de innumeros escriptos que todos os dias nos chegam de fóra.

Nos indicados paizes toma-se nota de tudo quanto merece a attenção do homem, de tudo quanto lhe interessa examinar e saber: a estatistica, nos seus variados aspectos e dominios, é uma realidade; e até as noticias dos tempos remotos estão já exaradas com todo o desenvolvimento e lucidez. D'est'arte, o individuo que pretende colher informações e instruir-se, encontra á mão os elementos indispensaveis de estudo e de exame.

Pondo de parte o que é relativo á administração, á industria, ao commercio, á navegação, etc., e limitando-nos aos estabelecimentos scientificos, litterarios e artisticos anteriores á época actual, poderiamos talvez dizer, com um escriptor portuguez: somos estranhos nas cousas de casa, e peregrinos na propria patria.

¿O que possuimos nós em materia de noticias legislativas, 0 historicas, estatisticas e criticas, relativas a taes estabelecimentos? Da maxima parte d'elles temos apenas algumas indicações avulsas, incompletas, imperfeitas. O estudioso que necessita de maior luz, de mais amplos desenvolvimentos, é condemnado a compulsar um sem numero de escriptos, estranhos aos interesses immediatos das lettras e das sciencias, os quaes, por isso mesmo, só de passagem, muito ao de leve, e com indifferença, se occupam de um ou outro facto da vida intellectual dos povos. Se n'esses escriptos não encontraes algum rasto de luz, força é que diligencieis devassar o segredo de mysteriosos archivos, ou desentranhar de diplomas officiaes, ás vezes conjecturalmente, as noticias que vos são indispensaveis.

Os nacionaes vêem-se privados de elementos de informação e de estudo, que lhes fazem falta; e os estrangeiros curiosos, não sómente padecem egual privação, mas, demais a mais, hão de censurar asperamente o nosso descuido, a nossa indolencia em assumpto de tal importancia.

E com effeito, a todos interessa ter conhecimento do que successivamente se foi providenciando para promover o desenvolvimento intellectual dos povos. A todos interessa, e mais que muito, ter diante dos olhos o quadro dos estabelecimentos scientificos, litterarios e artisticos do paiz, com a indicação positiva das datas da instituição, dos nomes e circumstancias dos instituidores, do objecto e fins d'esses estabelecimentos, dos seus progressos, das differentes peripecias da sua historia, da sua restauração, ou do seu aniquilamento.

Esta muito natural, e sobremaneira util curiosidade, applica-se

aos estabelecimentos que já deixaram de existir; quanto mais áquelles que chegaram até aos nossos dias, ou taes como foram creados, ou com a transformação que o tempo trouxe; e, finalmente, áquelles que as necessidades da nova organisação social tornaram indispensaveis na actualidade.

Convencido do que deixo ponderado, entendi que temos impreterivel necessidade de uma obra, na qual encontrem, nacionaes e estrangeiros, uma noticia de todos os estabelecimentos scientificos, litterarios e artisticos de Portugal desde a fundação da monarchia.

Reconhecida a necessidade do livro, esqueci-me da minha insufficiencia, cerrei os olhos ás difficuldades da empresa, e attendi unicamente ao dever que tenho de ser prestavel a este querido paiz, tão digno dos serviços de todos os seus filhos.

Puz mãos á obra; percorri todos os reinados da monarchia portugueza, e diligenciei desentranhar da historia, da legislação, das obras de alguns escriptores, de algumas publicações periodicas, as possiveis indicações dos acontecimentos e factos relativos á vida intellectual dos portuguezes, nas differentes phases da sua civilisação.

Desejando desempenhar, em toda a sua extensão, o encargo que tomei sobre meus debeis hombros, recolhi noticias historicolegislativas, e outras, a respeito, não só dos estabelecimentos litterarios, scientificos e artisticos propriamente taes, mas tambem das providencias, e até dos projectos que directa ou indirectamente prendem com os interesses da instrucção, ensino e educação. E a tal ponto levei o escrupulo, que julguei não dever desprezar entidade alguma, por mais modesta ou humilde que fosse, uma vez que, de qualquer modo, e em quaesquer proporções, tendesse a favorecer o estudo particular, ou o ensino publico.

Se o leitor formar uma série de grupos dos estabelecimentos

proprios das sciencias, lettras e artes, ha de reconhecer que todos elles estiveram presentes ao nosso espirito, no decurso do nosso trabalho, e que em cada reinado fomos indagando quaes entidades especiaes lhe pertenciam dentro dos mesmos grupos.

Assim, e como exemplo, direi que muito naturalmente se formam, no particular de que tratamos, os seguintes grupos, afóra outros que por brevidade omitto:

Academias; archivos; associações; asylos; aulas; bibliothecas; cadeiras; casas pias; collegios; conservatorios; conselhos e direcção de ensino; cursos; ensino; escolas; estudos; gabinetes; imprensas; institutos; jardins botanicos, etc.; linguas; livros elementares e outros; lyceus; museus; observatorios; recolhimentos; seminarios; theatros; universidades.

Pois bem; em cada um d'esses grupos colloquei os estabelecimentos especiaes respectivos, que encontrei em Portugal desde o principio da monarchia; conservando a cada um d'estes a denominação que teve, ou tem, e registando chronologicamente as noticias historico-legislativas e outras que lhe dizem respeito, e se me affiguram ser de verdadeiro interesse.

Mas ainda o consideravel numero de grupos, que mentalmente formei, não foi bastante, em presença do empenho que eu tinha de comprehender no meu quadro tudo quanto se refere á instrucção e ao ensino. D'aqui resultou a indispensabilidade de mencionar uma grande série de entidades que nos imaginados grupos não teem regular cabimento, com quanto versem sobre assumptos importantes da competencia do mesmo quadro.

No tocante aos estabelecimentos publicos, ou fundados pelos soberanos, ou por elles approvados e confirmados, procurei seguir em cada reinado as respectivas providencias legislativas, as regulamentares e administrativas; de sorte que, n'este sentido, fosse traçando a historia dos mesmos estabelecimentos em presença de successivos diplomas authenticos.

Quanto aos estabelecimentos de iniciativa particular, collectiva,

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