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CCXLIV

Aos homens hum só homem pôz espanto,
E o pôz a toda a humana natureza;
Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza,
Porqu'antes que nascesse era ja Santo.

Propheta foi na Mãe; em fim, foi tanto,
Qu'entre os nascidos houve a mór alteza;
Que da Luz, sem a vêr, vio a grandeza,
Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto.
Aquella voz foi elle sonorosa,

No concavo dos Orbes resonante,
E que a Carne inculpavel baptizou;
Quem do mór Pae ouvio a voz amante;
Quem a subtil pergunta industriosa
Com sincera resposta socegou.

CCXLV

Vós só podeis, sagrado Evangelista,
Angelico abrazado Seraphim,

E na sciencia mais alto Cherubim,
Do que he mais sabio Amor ser Coronista.

Divina e real Aguia, cuja vista

Vio o qu'he sem princípio, o qu'he sem fim,
De Jacob mais querido Benjamim,
Quem mais campea de Joseph na lista.
Apostolo, e Propheta, e Patriarca,

Ao Principe dos Ceos o mais acceito,
Qu'em seu seio dormindo então mais via.

A quem o mesmo Deos por irmão marca;
Quem por
filho da Mãe unica feito,

Em

corpo e e alma

goza o claro dia.

CCXLVI

Como louvarei eu, Seraphim santo,
Tanta humildade, tanta penitencia,
Castidade, e pobreza, e paciencia,
Com este meu inculto e rudo canto?
Argumento que ás Musas põe espanto,

Que faz muda a grandiloqua eloquencia.
Oh imagem, qu'a Divina Providencia
De si viva em vós fez para bem tanto!
Fostes de Santos huma rara mina;

Almas de mil a mil ao Ceo mandastes
Do mundo, que perdido reformastes.
E não roubaveis só com a doutrina
As vontades mortaes, mas a Divina;
Pois os seus rubis cinco lhe roubastes.

CCXLVII

Ditosas almas, que ambas juntamente

Ao ceo de Venus e de Amor voastes, Onde hum bem que tão breve cá lograstes, Estais logrando agora eternamente; Aquelle estado vosso tão contente,

Que só por durar pouco triste achastes,

Por outro mais contente ja o trocastes,
Onde sem sobresalto o bem se sente.

Triste de quem cá vive tão cercado,

Na amorosa fineza, de hum tormento Que a gloria lhe perturba mais crescida! Triste, pois me não val o soffrimento,

E Amor para mais damno me tee dado
Para tão duro mal tão larga vida!

CCXLVIII

Contente vivi ja, vendo-me isento

Deste mal de que a muitos queixar via:
Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria.
Discordia e semrazão, guerra e tormento.
Enganou-me co'o nome o pensamento:

(Quem com tal nome não se enganaria?)
Agora tal estou, que temo hum dia
Em que venha a faltar-me o soffrimento.
Com desesperação, e com desejo

Me paga o que por elle estou passando,
E inda está do meu mal mal satisfeito.

Pois sobre tantos damnos inda vejo

Para dar-me outros mil hum olhar brando, E para os não curar hum duro peito.

CCXLIX

Deixa Apollo o correr tão apressado,
Não sigas essa Nympha tão ufano:
Não te leva o amor, leva-te o engano
Com sombras de algum bem a mal dobrado.

E quando seja amor, será forçado;

E se forçado fôr, será teu dano.

Hum parecer não queiras mais que humano Em hum sylvestre adorno vêr tornado.

Não percas por hum vão contentamento
A vista que te faz viver contente;
Modera em teu favor o pensamento.
Porque menos mal he, tendo-a presente,
Soffrer sua crueza, e teu tormento,
Que sentir sua ausencia eternamente.

CCL

Nas cidades, nos bosques, nas florestas,
Nos valles, e nos montes, teus louvores
Sempre te cantem musicos pastores
Nas manhãas frias, nas ardentes sestas.

E neste Templo donde manifestas
E repartes agora teus favores,

Com psalmos, hymnos, e com varias flores
Sejão celebres sempre as tuas festas.
Estes te offreção pés, ess'outros mãos;

D'aquelles pendão sobre os teus altares
Monstros do mar, de servidão prisões.
Que eu cuidados, enganos e affeições,
Muito maiores monstros, e milhares
Te deixo aqui de pensamentos vãos.

CCLI

Vi queixosos de Amor mil namorados,

E nenhuns inda vi com seus louvores;
E aquelle que mais chora o mal de amores,
Vejo menos fugir de seus cuidados.

Se das dores de Amor sois mal tratados,
Porque tanto buscais de Amor as dôres?
E se tambem as tendes por favores,
Porque dellas fallais como aggravados?
Não queirais alegria achar algua

No Amor, porque he composto de tristeza,
Na fortuna que acheis mais agradavel.

Nella e nelle achei sempre a mesma luạ,
Em
quem nunca se vio outra firmeza,
Que não seja a de ser sempre mudavel.

CCLII

Se lagrimas choradas de verdade

O marmore abrandar podem mais duro,
Porque as minhas que nascem de amor puro
Hum coração não rendem a piedade?
Por vós perdi, Senhora, a liberdade,

E nem da propria vida estou seguro.
Rompei desse rigor o forte muro,
Não passe tanto avante a crueldade.

Ao prezar de desprezos dae ja fim:

Não vos chamem cruel; nome devido
A quem se ri de quem suspirá e ama.
Abrandai esse peito endurecido,

Por o que toca a vós, ja não por mim,
Que eu aventuro a vida, e vós a fama.

CCLIII

Ja me fundei em vãos contentamentos,
Quando delles vivi todo enganado
De hum phantastico bem, e de hum cuidado,
De que só cuidão cegos pensamentos.

Passava dias, horas e momentos,
Deste enleio de amores tão pagado,
Que tinha só
por bem-aventurado
Quem só
por elles mais bebia os ventos.
Mas agora que ja cahi na conta,'
Desengana-me quanto me enganava;
Que tudo o tempo dá, tudo descobre.
O Amor mais caudaloso menos monta.
Qu'he de gostos mais rico eu ignorava,
Aquelle que de amores he mais pobre.

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