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IX

ção consulta o «Diccionario bibliographico», e hoje em dia o paga pelo duplo do seu valor primitivo.

Do modo que eu desejára o livro de bibliographia extreme, resumido e espurgado de nomes que não podem magoarse por esquecidos, director para os que formam livraria, e accessivel aos recursos de quem os tem medianos é este Manual bibliographico portuguez intelligentemente redigido pelo snr. Ricardo Pinto de Mattos.

Ha, n'este livro, o modesto intuito de inventariar o mais valioso da herança de trez seculos de escriptores; e, com certeza, nenhuma obra benemerita de legitima estimação foi omittida, e poucas são as lembradas sem direito a serem parte na bibliotheca dos estudiosos. Ha aqui, porém, series de livros frivolos que não tinham direitos bem definidos á cathalogação; mas o collector, incluindo n'esses os de minha lavra, pareceme que antes quiz obsequiar-me a mim que insinual-os á consideração dos seus leitores.

O snr. Ricardo Pinto de Mattos exercita o seu emprego na bibliotheca publica do Porto. Ha annos que lida com livros e com o pensamento na organisação modesta e proveitosa deste Manual. Compulsou de espaço as preciosidades d'aquelle estabelecimento; pouco a pouco foi avolumando as notas dos seus estudos; e, por vezes, transpondo as balisas de mero informador, colheu uteis noticias de livros extrangeiros, correlativos aos assumptos versados nas obras nacionaes que inventariou.

Raros são os artigos em que faltam os preços obtidos nas licitações dos exemplares menos vulgares. Innocencio Francisco da Silva deu o exemplo, tendo-o recebido de Brunet, e dos diccionaristas-livreiros que assim o praticavam por vantagem de sua profissão; porém, de modo se houve o finado bibliophilo que bem pode conceder-se uma tal qual originalidade á sua maneira de cotar o valor dos livros, quer expondo com certa satisfação as bagatellas por que os adquiriu, quer arguindo de fraude os negociantes que os mercadejavam á medida do seu desejo ou da necessidade do comprador. Estas minudencias eram pequenas e descabidas em obra de tal cunho e de tal escriptor.

Dá o snr. Mattos os diversos preços obtidos nos leilões do Porto, e assim mostra a impossibilidade de determinar o valor de obras cujo merecimento depende de circumstancias que nada tem com a valia intrinseca e virtual do livro. Sem embargo, os compradores tem muito que aproveitar, guian

do-se por este bom indiculo das variantes, aliás caprichosas que soffrem os livros hoje comprados e amanhã vendidos no mesmo concurso de licitantes. Elles tem os seus fados, dizia o critico romano.

Se nos não engana o ja enveterado affecto que temos a esta especie de estudo, o snr. Mattos prefez o unico Manual bibliographico que temos e que hade ser acolhido benevolamente pela utilidade, pelo tamanho e pela barateza relativa. Transluz d'este trabalho grande attenção, feliz esforço no resumir sem cortar pelo necessario, e sobre tudo grande severidade na chronologia das ediçoens. Todas as obras d'esta especie vem propiciamente agouradas n'este tempo em que a livraria portugueza se está gosando da bem-querença dos que estudam, e dos que, apezar de não professarem lettras, colleccionam raridades a grande custo.

Julio Janin, grande escriptor e bibliophilo, escreveu estas profundas verdades: «Amar os livros é renunciar ao jogo, á golodice, ás pompas vans, ás corridas de cavallos, aos amores funestos. O bibliophilo está como abrigado das tempestades politicas; servem-lhe de parapeito os seus livros aos aviltamentos e sobrancerias aulicas. E' senhor e rei. Não o perturbeis na sua festa, e respeitai-lhe os seus intimos jubilos.»>

O livro do snr. Pinto de Mattos será um dos bem-vindos ás livrarias; por que a selecção é que as torna mais nitidamente apreciaveis, e são os directores da natureza d'este Manual os competentes para a formação, não direi do gosto, mas, com certeza, do discernimento na escolha.

S. Miguel de Seide,

abril, 1878.

Camillo Castello Branco.

ADVERTENCIA DO AUCTOR

Com o fim de reunirmos em um só volume a noticia dos livros preciosos, raros e curiosos, para nosso uso e em beneficio dos bibliophilos, coordenamos este indiculo bibliographico, que intitulamos-Manual Bibliographico Portuguez.

Mencionamos muitos dos livros chamados classicos, por que entraram no Catalogo dos que se hão de lêr para a continuação do Diccionario da lingua portugueza, mandado publicar pela Academia Real das Sciencias, de que sómente sahiu o primeiro volume com uma noticia dos auctores e suas obras. De escriptores contemporaneos tomamos conhecimento de alguns sómente; todos melhor cabimento teriam em volume especial.

Fizemos quanto possivel para que a noticia das obras descriptas fosse fidedigna, e, se alguma vez o não conseguimos (por que, na verdade, em bibliographia appresentam-se difficuldades não faceis de aplanar, e é, além disso, trabalho fastidioso) superabundou-nos o dezejo de acertar, empregando para isso os nossos limitados conhecimentos, e cerceamos não pouco os nossos interesses, por não podermos dispôr de tempo.

Recorremos aos tractados bibliographicos publicados, e tivemos presentes muitos dos livros que possue a Bibliotheca portuense, que vão indicados com um asterisco-circumstancia que aproveitará de futuro, não só á Bibliotheca, mas ainda ao publico em geral.

Fizemos menção das obras impressas, que de Lisboa foram mandadas á Exposição de Paris, de 1867, informamos os amadores, ácerca do merecimento de cada uma das obras, e do preço por quanto se teem vendido em diversas partes.

XII

Todo este trabalho foi generosamente revisto pelo Sr. Camillo Castello Branco; e pois é apurado litterato e reconhecido bibliophilo, esclareceu, illustrou e amplicou a noticia de muitas obras importantes e a de seus auctores, com a maestria e conhecimentos que todos lhe apreciam.

Depois da resenha d'algumas obras escriptas por judeus oriundos de Portugal, que vai no fim, fizeram-se alguns additamentos e correcções de faltas que passaram durante a impressão; e, se ainda assim, algumas se encontrarem, da melhor boa vontade as corrigiremos em occasião opportuna.

O methodo que seguimos é semelhante ao de Brunet, pois indicamos os auctores pelos seus appellidos e circumstancias pessoaes dos mesmos, para melhor se avaliarem os seus escriptos.

Fôra nosso intento junctar um indice alphabetico de todas as obras descriptas n'este volume; mas para não tornar o livro mais volumoso, publicar-se-ha em separado, se preciso fôr.

Assim mesmo quer-nos parecer que o nosso modesto trabalho do Manual Bibliographico Portuguez será util a todas as pessoas que delle fizerem uso. E' esse o nosso desejo; pois sermos util foi o nosso fim.

A

*Segunda edição: ibi pelo mesmo impressor, 1555. in-8. 1

vol. de 116 folhas.

É livro raro e estimado. Sahiu sem o nome do traductor; mas consta
da Chronica da Piedade, por Fr. Manoel de Monforte, L. 3. §. 4.o que Fr.
Christovão de Abrantes não só traduzira os Exercicios Espirituaes de
Eschio, mas que tambem lhe serviram de norma de vida, fallecendo em
cheiro de santidade.

No leilão da livraria de Souza Guimarães, d'esta cidade, houve um
exemplar da primeira edição, que se vendeu por 900 reis. D'estes exerci-
cios ha outra traducção attribuida ao P. Diogo Vaz Carrilho, que sahiu
com o titulo seguinte: - Exercicios divinos das tres vias purgativa, illumi-
nativa e unitiva, compostos em latim pelo Veneravel Doutor Nicolão Esquio.
Traduzidos em Portuguez por ordem de João Galrão. Lisboa, por Antonio
Craesbeeck de Mello, 1669, in-32.o de vi1-389 pag. e mais 6 de indices no fim.
Foram reimpressos em Lisboa, mais correctos e emendados, em 1746.
A traducção de Abrantes é preferivel á de Vaz Carrilho.
Vid. tambem Fr. Bernardino de Aveiro.

ABREU (Antonio de). Com o nome de Antonio de Abreu, se en-

contra (posto que poucas vezes, porque é livro raro) um pe-

queno livro de poesias de 50 pag. no formato de 8.° peq. com o

titulo seguinte:- Obras ineditas de Antonio de Abreu, amigo

e companheiro de Luiz de Camões, no estado da India. Fiel-

mente extrahidas do seu antigo manuscripto que possuimos em

papel asiatico. Lisboa, na Imprensão Regia, 1807. 8.o peq. de

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