Pagina-afbeeldingen
PDF
ePub

Personificando I isboa sob o nome de Sião, escreve essa estrophe memoravel, que tanto tem dado que fazer aos commentadores:

A pena d'este desterro

Que eu mais desejo esculpida
Em pedra, ou em duro ferro,
Essa nunca seja ouvida

Em castigo do meu erro.

Chegando a Gôa, naufrago e pobre, como elle diz na estancia LXXX do Canto VII:

Agora da esperança já adquirida

De novo mais que nunca derribado...

foi mandado recolher a uma prisão, tendo de defenderse de todas as intrigas com que o calumniaram na ausencia. A sua vida acha-se n'este periodo descripta no Canto VII dos Lusiadas, estancias, LXXIX, LXXX, LXXXI, eLXXXII, com uma desolação profunda, como quem geme na penumbra de um carcere arbitrario:

Olhae, que ha tanto tempo que cantando
O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
A fortuna me traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo e novos danos:
Agora o mar; agora experimentando
Os perigos mavorcios inhumanos,

Qual Canace, que á morte se condemna,
N'uma mão sempre a espada na outra a penna.

Agora, com pobreza aborrecida
Por hospicios alheios degradado;
Agora da esperança já adquirida,
De novo mais que nunca derribado.
Agora ás Costas escapando a vida
Que de um fio pendia tão delgado;
Que não menos milagre foi salvar-se,
Que para o rei Judaico accrescentar-se.

E ainda, nymphas minhas, não bastava
Que tamanhas miserias me cercassem;
Se não que aquelles que eu cantando andava
Tal premio de meus versos me tornassem.
A troco dos descansos que esperava,
Das capellas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram
Com que em tão duro estado me deitaram.

Na estrophe LXXXVI d'este mesmo Canto allude á severidade de Francisco Barreto, dizendo que não hade cantar:

quem acha que é justo e que é direito Guardar-se a lei do rei severamente...

Depois de Camões se achar preso nos carceres de Gôa, recebeu a nova da morte de D. Catherina de Athayde, succedida no mesmo anno em que elle partira para a China, em 1556.

No Soneto CLXXII, que nos manuscriptos trazia a rubrica Das suas perdições, descreve Camões a profundidade d'esta primeira impressão, na fórma de uma prophecia:

Liso, quando quizer o fado escuro,
A opprimir-te virão em um só dia
Dous lobos; logo a voz e a melodia
Te fugirão, e o som suave e puro.

Bem foi assim; porque um me degolou
Quanto gado vacum pastava e tinha,
De que grandes soldadas esperava.

Oh, por mais dano, o outro me matou
A cordeira gentil, que eu tanto amava,
Perpetua saudade da alma minha.

Por aqui se vê, que o injusto mando de Francisco Barreto, e a noticia da morte de D. Catherina de Athayde, o supplantaram no mesmo dia. O snr. Visconde de Juromenha fixa a morte d'esta dama da rainha em 1556, com o seguinte fundamento: «No Livro das Moradias da Casa da rainha D. Catherina, apparece o seu assentamento assignando ella quasi sempre os recibos do ordenado, ainda que algumas vezes por procuração, até ao ultimo quartel de 1555, que ainda assigna. No fim porém, do anno de 1556 apparece o assentamento de Dama de uma irma d'esta senhora por esta fórma: D. Joanna de Lima hade haver todo o quartel a rasão de 10 000 rs. por anno. Etc. recebeu por si em Lisboa a 30 de Dezembro de 1556. D. Joanna de Lima. Descontou-se 600 rs. de registo do Alvará e 21 rs. de direitos. Não torna mais a apparecer o assentamento de D. Catherina de Athayde, por onde se collige claramente, e ousamos dizer sem perigo de errar, que por morte d'esta senhora, pôde seu pae, pela sua vagatura no paço, obter da Rainha fazer entrar no seu logar esta

12 TOMO I

outra sua filha. » (1) D. Antonio de Lima, no seu Nobiliario, falando d'esta senhora, diz: «morreu no paço, moça;» o que leva a crêr que em 1556 não contaria mais de vinte e seis annos, ou que teria nascido não muito longe de 1530; sobre esta hypothese natural, quando Camões foi pela primeira vez desterrado da côrte, teria D. Catherina de Athayde dezeseis annos, o que nos explica a opposição que se fez a estes precoces amores. Um dos maiores inimigos de Camões, o mediocre Pero de Andrade Caminha, escreveu um Epitaphio (fórma poetica do seculo XVI) a esta Dama, que assombrava pela formusua:

Aqui jaz escondida aquella Dama
Fermosissima e rara Catherina :
Que no mundo terá gloriosa fama,
De cuja vista a terra foi indina.
Aqui chorou o Amor, e d'aqui chama,
Que n'esta pedra toda de honra dina,
Cantem immortaes versos e louvores

A formosura, as Graças e os Amores. (2)

Os elogios de Caminha n'este. Epitaphio, referem-se á gloriosa fama que D. Catherina de Athayde terá no mundo por ter sabido resistir ao amor. Emquanto este metrificador esgotava a banalidade, Camões sentia aquelle inimitavel Soneto XIX, que começa pela phrase com que termina o que se intitula Das suas perdições:

(1) Jur., Obr., t. 1, p. 35. Vid. supra p. 139.
(2) Epitaphio xxп. Obras, p. 269.

Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo, d'esta vida descontente;
Repousa lá no céo eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Roga a Deus, que teus annos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a vêr-te
Quão cedo de meus olhos te levou.

Na Ecloga XIV, á morte de Nathercia, allude Camões a este golpe prematuro:

Como não te applauceu tão tenra edade
Ao cortar do seu fio, oh Parca dura,
Que agora o mundo matas de saudade?

Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Náos partidas no principio do anno de 1557, soube Camões da morte de el-rei D. João III, e principalmente da sentença que condemnava Simão Vaz de Camões, seu pae, para o degredo perpetuo do Brazil, com pregão e cadeado. Durante a sua perseguição nos carceres de Gôa, escreveu Camões um poema composto de quatro Sonetos ligados, que trazem nos manuscriptos o titulo: «Trovas que fez um preso dizendo o mal que fizéra, e lamentando fortuna e tempo. » (1) O Soneto primeiro, que é o v impresso, descreve a situação em que se achava o desgraçado poeta:

(1) Jur., Obras, t. 1, p. 365.

*

« VorigeDoorgaan »