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TERCEIRA ÉPOCA (1570 a 1580)

CAPITULO VII

Camões depois do seu regresso a Lisboa

Fixação da chegada de Camões a Lisboa.-A Peste grande de 1569, segundo um manuscripto contemporaneo. -A procissão da Senhora da Saude na rua da Mouraria.—O Auto das Regateiras, e a reforma monetaria de D. Sebastião. Estado de tristeza do espirito publico.—Camões offerece o manuscripto dos Lusiadas a el-rei D. Sebastião. -A amizade com D. Manoel de Portugal.-A censura do Santo Officio. Caracter litterario do Padre Bartholomeu Ferreira. -Camões e os Frades de S. Domingos. O odio de Caminha e de Bernardes, depois da publicação dos Lusiadas.— Pedro da Costa Perestrello rasga a sua epopêa manuscripta. O roubo do Parnaso de Luiz de Camões. — Estacio de Faria teve este livro em seu poder.-Como se restitue esta obra pelos manuscriptos dispersos de Camões. Relações com Manoel Barata, D. Luiz de Athayde e Magalhaes Gandavo.

Estado de pobreza de Camões, pela Satyra de André Falcão de Resende. - Primeira jornada de D. Sebastião a Africa.A façanha de D. Pedro da Silva.-A tença de Camões. -O desastre de Alcacer Kibir.-Bernardo Rodrigues e a segunda epopêa de Camões. -Relações com o divino Herrera, chefe da eschola lyrica de Sevilha. -Morte de Camões com a nacionalidade portugueza.-Os ultimos annos de sua mãe D. Anna de Sá.-Degradação do caracter portuguez, alimentado pelos sonhos do Quinto Imperio. Como o sentimento descobriu a nacionalidade dos Lusiadas.-Tradição do respeito de Tasso por Camões.—Como a sciencia europêa acceitou Camões como o primeiro poeta do mundo moderno.

Depois de dezesete annos de ausencia e sem esperança de tornar a ver a patria, o momento em que se ouve o grito que annuncia a terra, faz estremecer de

alegria, e o coração estúa sob uma impressão tão forte como a do soffrimento. Camões sentiu isto, quando nos Lusiadas descreveu rapidamente esse instante, em que:

da etherea gavea um marinheiro

Prompto co'a vista :- - Terra! Terra! brada.

A sensação dolorosa d'esse jubilo ainda não foi traduzida em linguagem humana, como nas palavras de Camões:

Esta é a ditosa Patria minha amada,

A qual se o céo me dá que eu sem perigo
Torne com esta empreza já acabada,
Acabe-se esta luz ali commigo... (1)

Isto que elle diz do navegador que primeiro sulcou os mares do Oriente, cabe-lhe perfeitamente por ser o unico que até então levara ao cabo a empreza da creação de uma epopêa nacional. Esse momento excepcional da vida, em que o espirito sente robustecer-se pela lembrança do passado, reflectido em todas as cousas sobre que descançam os olhos, torna a ser cantado n'aquella primorosa estancia dos Lusiadas:

O prazer de chegar á Patria cara,
A seus penates caros e parentes,
Para contar a peregrina e rara
Navegação, os varios céos e gentes;
Vir a lograr o premio que ganhara,
Por tão longos trabalhos e accidentes,
Cada um tem por gosto tão perfeito,

Que o coração para elle é vaso estreito. (2)

(1) Lus., canto ш, est. 21.

(2) lb., c. ix, est. 17.

Entre as Cartas perdidas, de Camões, dá Faría e Sousa conta de uma, que fôra dirigida a um amigo do Porto, em que dizia que lhe custava ainda a crer o ter conseguido voltar á patria; tinha esse amigo encaixilhada a Carta como uma preciosidade, mas tanta estima não obstou a que o acaso a destruisse.

O jubilo com que Camões regressava a Lisboa contrastava com a tristeza publica causada pela Peste grande de 1569, pela quebra da moeda e pela incerteza da administração e da politica absorvida pela classe eccle: siastica. Lisboa já não era essa corte florente onde Camões passára os seus mais alegres annos; era uma necrópole quasi deserta aonde dominava o fanatismo, o escrupulo religioso, a cavilação traidora dos politicos, e uma criança hallucinada, novo Phaetonte, que empunhara as redeas do governo para apressar uma catastrophe. Camões regressava pobre, e veiu achar em Lisboa a indigencia motivada pelo abaixamento do valor da moeda. Em um manuscripto interessantissimo de 1569, se lêem estes dados: «A causa porque se tirou e abateu a moeda, foi porque vinha muita e em grande numero de Inglaterra secretamente, entre barris de farinha e entre pipas de pregos, e em outras muitas partes d'onde a podiam trazer escondida, e era tanto disto, que dentro em Inglaterra se estava fazendo e batendo em ruas publicas, e d'esta maneira nos enchiam Portugal de cobre e levavam todo o ouro e prata, e tanto com isto deitavam a perder este reino, que havendo grande multidão de moedas de ouro de mil reis, e de quinhentos reis de cruzes

e portuguezes, e de prata, despejaram o reino tão depressa d'esta boa moeda, que veiu a não haver uma senão por milagre.» (1)

Para corrigir este erro economico, os conselheiros do joven rei D. Sebastião commetteram outro erro mais desastroso, promulgando a lei e pragmatica de 14 de Abril de 1568, em que o patacão de dez reis era reduzido a trez; a moeda de cinco reis reduzida a real e meio; a de trez reis reduzida a um real; e a de un real reduzida a meio. Como para subtrahir D. Sebastião ás queixas do povo, levaram-no para Almeirim. É curiosissima a aproximação do Auto das Regateiras, de Chiado, com o manuscripto contemporaneo, da Bibliotheca de Lisboa; diz o Auto:

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(1) Ms. da Bibl. Nac. de Lisboa. Apud Dr. Ribeiro Gui

marães, Summario de Varia Historia, t. 1, p. 160.

VELHA: Todos nós isso cramamos,

comadre, manso o dizeis,
mas sam vontades de reis,
que quereis que lhe façamos,
como dizem lá vam leis. (2)

Pelo Manuscripto contemporaneo explicam-se todas estas allusões do Auto das Regateiras:

<< De maneira que esta Pragmatica saíu a quarta feira de trevas, estando El Rei em Almeirim, pelo que era lastima ver a gente de Lisboa pasmada, porque como havia pouca prata e não havia outra moeda senão cobre, e por terem todos esperanças de não cumprir a tal pragmatica, e cerrarem-se todos sem querer vender nada, e ser vespera de festa, julgue cada um aqui o povo de Lisboa, qual andaria e qual estaria, ao que accudiu a camara e a misericordia d'esta cidade, mandando a Almeirim dar conta a ElRei do reboliço que ía em Lisboa, que quizesse permittir houvesse emenda no mandado.-E a quinta e sexta feira estiveram assim todos esperando, sem n'estes dias quererem vender cousa alguma. E ao sabbado, vespera da Paschoa, vieram e trouxeram por novas, que ElRei mandava se cumprisse o que tinha mandado, sem remissão, havendo respeito ás isentas causas que para isso havia.- Foi tal a revolta e clamor n'este povo de Lisboa, por causa da muita perda que recebiam, que houve desesperados que, com

(2) Fl. 3.

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