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Taes cousas, taes historias de mulheres,
Que a ser homem, de certo não casava.
Olhe, Amiga, que as ha de todo o lote,
Singulares, e asperas em tudo,
Unindo certas baldas ao semblante:
As bonitas são cheia de vaidade,
As feias, de ordinario caprichosas,
São de todas as mais impertinentes,
Não ha subido preço que as affronte,
Com tanto que enfeitadas appareção.
Dos zelos o furor suggere a muitas
Projectos infernaes, negras vinganças.
Ha mulheres que nunca estão contentes,
Ha mulheres que nunca tem saude,
Ha mulheres emfim que até pancadas
Não se acanhão de dar, quando raivosas.
Oh! que dita tiverão nossos Homens,
E que riscos da sorte não correrão!
Eu, e o Escrivão vivemos tão unidos
Que até, mal comparando ! se algum dia,
Na grave procissão da Quarta-feira,
Faltasse o bento andor dos Bem-casados,
Melhor que nós ninguem o figurava.
Eu, e Gosme (a Visinha replicava)
Tambem vivemos como a Igreja manda.
Não se encontrão na villa outros casados,
A não ser Dona Clara, e seu Marido,
Que commigo, e meu Cosme se comparem
Na perfeita harmonia, e paz completa.
Cosme não tem vontade, excepto a minha;
Assim, nunca ha motivos de contenda.
Se digo, faça-se isto, elle obedece;

Se exprimo, quero este outro, amen, responde;
Se alguma rara vez de mim differe,

Por amor do socego logo cede.

Vêde pois, Clara minha, se é possivel
Que alguem nos leve a palma cobiçada
De termos mais bondades que deffeitos!
Fallando bem de si com tal desgarro,
Largas horas durarão as conversas

Entre as duas Matronas de janella,
E mutuamente assim se ião soprando
Centelhas de vaidade, que mais tarde
Em Dona Clara incendio produzirão,
Que teve desafogo em nobre Festa;
Como o leitor verá no proprio tempo,
Se almo engenho tiver, e faculdade,
Para em tudo narra-la, como devo.
Contiguo a Cleto Baldo residia
Um loquaz Boticario, amigo velho,
Chronista social de toda a villa,
Politico adherente ao que era antigo,
Do ruidoso gamão parceiro eterno.
Em casa sua as tardes se juntavão,
Diversos moradores de Goianna.
Alli o Juiz de paz, o bom Vigario,
O Juiz de fora, e outros mais Senhores
Discorrião ardentes, todos juntos

No Bispo, em Luiz do Rego, bem lembrado
Capitão general, que alli mandara,
Nas passadas revoltas da Provincia,
Com seus heroes, ineptos, e burlescos.
O Mirabeau porém de tal concurso,
Era um Mestre de escola cujo nome
De Roberto passou a Mestre Berto.
Terrivel confusão, vasta leitura,
A mente lhe trazião sempre accesa
Em planos, em discursos, em systemas,
Que frequente estampava a seus amigos.
Perdido pelos gozos desta vida,
Sem pode-los haver da tenue bolsa,
Vingava-se em viver do pasto d'alma,
Em trovejar contra a fraqueza humana,
Em pregar as doutrinas de Epicuro,
Proferindo discursos engenhosos,
Ora serio, eloquente, e arrebatado,
Ora vulgar, raivoso, e desmedido,
Sem tento nas palavras que dizia.
Berto porém como outros opinava,
Que esta seita consiste unicamente

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Em passar vida alegre, e sem cuidados,
Sem offensa de Deos, das leis do mundo.
E com taes pensamentos agradaveis,
Com systema tão bello, e tão plausivel,
Trazia n'um marulho a fraca mente
Da Mulher do Escrivão, que tanto orçava
Para o gosto de festas, e banquetes.
Oh! quem vira Roberto em seus delirios
Do Grego louco as scenas revivendo,
Sempre feliz em sonho de prazeres,
Fantasiando quadros de ventura,
E ás vezes de tal modo arrebatado,
Aos entes que creava tão entregue,
Que os Meninos na Escola resmungando
A seus olhos Amigos parecião,
Reunidos alli por convivencia!
Este Homem singular da nobre villa
Tinha nella sectarios numerosos;
Gracejando, ralhando em seus discursos,
Contra o tibio viver de alguns Senhores,
Achava nas Matronas echo immenso,
E fortes sympathias entre os Moços.
A Mulher do Escrivão principalmente
Nunca ensejo perdia de escuta-lo;
A ponto crú das horas de conversa,
Quer chovesse, quer não, sempre ao postigo,

Qual Freguez assignante de Theatro,

Vinha escutar as fallas de Roberto,

E depois em silencio as ruminava,
Com fito sempre na futura Festa.

CANTO II.

Na botica uma tarde, entre os Amigos,
Começára o Vigario palavroso
A fallar em materias complicadas,
Admirando os patáos, que se benzião
De seu grande saber, vasta memoria.

Vibrava em alto som o gordo Padre
Contra o que elle chamava alegre vida,
Vida de esquecimento do outro mundo,
De prazeres, farandulas sem conto,
A que correm humanas Creaturas,
Quaes Crianças atras de borboletas.
Dizia ser loucura, ser chimera,
Buscarem os mortaes gozo do mundo,
Como se nelle eternos habitassem;
Como se a morte, e os jogos da fortuna,
As molestias, desgostos, e cuidados,
Não viessem toldar a cada instante
No calix do prazer a lympha pura.
Amigos (exclamava compungido)
Esta vida não chega nem a netos!
Bem faz nosso Escrivão, sisudo e parco,
De quem nunca se contão desvarios;

Come para viver, simples se traja,

E os bens que herdou, e os bens que ajunta, guarda

Para um dia lega-los á pobreza.

Vêde que não derrama seus haveres

A troco da cobiça dos sentidos.

Nunca deo cem mil réis por um ginete,

Nem ricos apparelhos tem da India,

Assim longo fallou contra as delicias

Porque os homens na Terra tanto almejão;
Citou santos Prelados, e Poetas,
Citou Platão, Diogenes, Lycurgo,
E outras mais Personagens citaria,
Se a torrente sem fim lhe não cortasse
Importuno Freguez azafamado,
Um caustico pedindo em voz de tiple.
Cançado mestre Berto das miserias,
Anachronismos, erros que escutára,
Confusão de pessoas, e lugares,
Em homem cujas letras tinhão fama,
Insoffrido soprou nasal trombeta,
Tirou da caixa enorme ampla pitada,
E tomando a palavra assim rebentą:
Senhores, grande cousa é ser Vigario

Em terras de ignorancia como a nossa!...
Perdoe, Mestre Berto (diz o Padre)
Deixe a materia, ataque só a forma;
De principios tratamos, não de factos.
Quaes principios (responde o Pedagogo)
Que quer dizer principios sem effeitos?
Pois não são elles regras para os homens?
E Vossa Senhoria por ventura

Não veio criticar os nossos actos,
Não ralhou contra factos por principios ?
Preso em seu proprio laço (grita Cosme)
Foi tudo raso, tudo causticado!...
Em fé de boticario agora digo,

Que senti meus remorsos inda ha pouco,
De haver tido ao jantar perú de forno,
Em vez de reparti-lo co'a pobreza.
Rirão-se todos, e amainado o riso,
Prosegue Mestre Berto argumentando:
Que rígido Ermitão, pobre e tristonho,
Vivendo além da raia dos bumanos,
Despre sando affeições, e bens da terra,
Me viesse prégar despego delles,
Com paciencia talvez o escutaria,

Sem louvar o máo gosto, e grande asneira
Daquelle que a si proprio se maltrata.
Porém, senhores, contra convivencias,
Contra innocuos prazeres quem pragueja ?
Quem hade em tal bordão ferir primeiro ?...
Um Vigario bem nedio, e rubicundo,
Amigo certo de lauta, alegre mesa,
Com rica, variada e fina adega;
Um Clerigo feliz, que não rejeita
A doçura do mel, sabor das frutas,
O peixe delicado, as gordas aves,
Que insigne Cozinheiro lhe prepara!...
Sem fallar nos presentes que recebe
De bellos alfinins, de trouxa d'ovos,
Que á porfia lhe mandão seus Freguezes.
Um Senhor conhecido nas estradas
Pelos nobres cavallos que apresenta,

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