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autôr, em toda a sua ardencia, em toda a sua irreflexão, são já elevados na idéa, porém literariamente inferiores aos Sonetos, em que o artista se nos mostra na sua pujança.

Evolutindo para um periodo de maior firmeza de convicções, vai pouco a pouco atingindo o indiferentismo do estoico, que consegue, por um esforço de ilusão, na ultima fase da sua vida, estudando o budismo, cujo céu, o Nirvana, ou aniquilamento absoluto da materia, é a conclusão de Buda, antecipada de muitos seculos á moderna filosofia das religiões.

Depois de por longos anos pugnar pela justiça, pela liberdade, pelo destronamento do velho Padre Eterno da mitologia cristã, refugia-se no estoico-budismo, apenas ilusorio porque o soneto Á Virgem Santissima e o seu tragico fim, suicidio, denunciam que a sua alma continuava anciando, anciando sempre.

Esta anciedade era a condição normal dos espiritos superiores da época, que marca a chamada banca-rota da sciencia. Caminhava éla vertiginosamente, abstratamente e as suas conclusões eram como a margem dum abismo em cujo seio se revolviam enigmas, cuja decifração parecia não chegar.

Mas as sciencias de que servem élas, se nos não trazem felicidade e apenas nos reduzem ou

pretendem reduzir a automatos intelectuaes, a maquinas pensantes?-dizia-se. O modo de ser da sociedade é artificial e briga com o homem no seu conjunto de idéas e aspirações insaciadas e por vezes incompreendidas. Para além dos limites das sciencias o pensamento humano poderá ainda atingir alguma coisa que o satisfaça, interpretando-as, e mais, atendendo ao homem como êle é, egoista de felicidade espiritual? Havia. Era a filosofia, de que muitos descriam.

O filosofo Nieztsche interpretou esta anciedade tornando-se seu éco e reclamou uma filosofia nova que satisfizesse a alma e o espirito humano nas suas mais complexas exigencias. Dos dissidentes das sciencias houve genios literarios que constituiram escola em França, que Quental representa entre nós Tolstoi na Russia.

Antero de Quental não era um artista para o publico; os seus versos eram gritos d'alma, mas gritos afinados pela harmonia do seu éstro; era o artista altruista deslocado na sua época, em que campea o egoismo.

Inclinado ao anarquismo, e a todas as doutrinas negativistas, verdadeiro campeão do bem absoluto, essa sublime utopia, cuja aproxima

ção sucessiva tanto atrai os espiritos superiores, póde dizer-se dêle:

Vós sois o novo sol da nova Promissão,

Tomae a arca santa em vossos ferreos hombros:
Levae-a pelo mundo; enchei a escuridão

De raios e de assombros.

Avante! azorragae a fronte de Satan
Com lategos de auroras!

Trabalhae, trabalhae nas forjas do porvir,
Mineiros do futuros, artistas da verdade!

(A Morte de D. João--GUERRA Junqueiro).

Os sonetos de Quental consolam a alma, pela elevação da sua idéa, pela sua musica, pela sua perfeição artistica impecavel. São, como classificou Oliveira Martins, como o limpido arroio que se depara ao fim de algumas horas de caminhada, ao viandante sequioso.

Todas as idéas, todos os pensamentos humanos, têm uma forma de expressão na literatura, que é a melhor, a mais perfeita e que os

artistas não fazem mais que tentar ou descobrir. Conseguida éla, os pósteros nas tentativas não fazem mais do que imitá-la, por desconhecedores desta lei.

Cameos, nos seus Lusiadas, atingiu a melhor forma adaptavel a uma epopéa nacional, que depois foi tão imitada pelos cronistas em verso. Já antes dêle Virgilio tinha conseguido os moldes duma epopéa, já inspirada na de Homéro e depois dêle todos os épicos o imitaram.

Soares dos Reis no Desterrado conseguiu também o desideratum, pela escultura, nesse tema. E modernamente Eça de Queiroz retratou tão fielmente os seus typos, que é impossivel trata-los novamente sem recair na imitação. Foi essa perfeição sublime que Quental atingiu nos principaes dos seus sonetos, que ficam para sempre como documento da alma portuguêsa.'

Póde uma nacionalidade morrer politicamente; o que fica déla são as manifestações artisticas, a ultima e mais adiantada fase da vida dum povo.

1 Esta idéa desenvolvi-a circumstanciadamente e constitui-a em lei, fundamentada em multiplos e irrevogaveis exemplos. Breve a publicarei em opusculo A lei da conceção na literatura.

A Grecia morreu e todavia do alto da historia, as artes gregas são luminares gigantescos que estendem até nós os seus raios deslumbradores.

Por isso o estudo da vida dum povo sem o da sua literatura, em que a sua sentimentalidade e os seus ideaes se manifestam, é necessariamente incompleto.

Os sonetos de A. de Quental correm agrupados por periodos correspondentes a épocas da sua vida de artista. Nos ultimos atingiu a perfeição maxima, o assombro.

Foi principalmente destes ultimos que selecionámos os espécimens.

Sonho oriental

Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsamica e fulgente

E a lua cheia sobre as aguas brilha.

2 Estão traduzidos em quasi todas as linguas vivas.

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