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Memorias antigas e comprovam em parte alguns documentos veridicos.

Francisco do Rego Barros casou com Archangela da Silveira, filha de Domingos da Silveira, e de sua mulher Margarida Gomes da Silva, naturaes de Vianna. Este Domingos da Silveira estudou em Coimbra e foi procurador da Fazenda Real em Pernambuco: na idade de oitenta e cinco annos, no de 1636, os Hollandezes barbaramente o assassinaram. Era filho de Pedro Alves da Silveira, natural de Serpa, e de sua mulher Margarida Gomes Bezerra, natural de Vianna, filha de Antonio Gomes Bezerra, da casa dos Morgados de Paredes, como consta de documentos authenticos; e eram irmão de Duarte Gomes da Silveira, nascido em Pernambuco, e que foi um dos conquistadores da Parahyba, em cuja cidade instituio com faculdade Regia o Morgado do Salvador do Mundo, na Santa Casa da Misericordia, que elle fundou e dotou com 11:000 000 por Escriptura nas Notas do Tabellião Gonçalo Lopes de Oliveira em 6 de Dezembro de 1639.

O Rei D. João IV remunerou a Francisco do Rego Barros com o Foro de Fidalgo de sua Real Casa e o Habito de Santiago.

E foi do consorcio d'este Francisco do Rego Barros e sua mulher Archangela da Silveira, que, além de outros filhos, nasceo João do Rego Barros, de quem nos vamos occupar.

Lembrai-vos que sois Romanos, dizia a seus soldados um Capitão da antiga Roma, e este discurso os tornava infatigaveis nos trabalhos e intrepidos nos combates. Se não expressamente

com a palavra, com a linguagem muda do exemplo, que é a mais persuasiva, Francisco do Rego Barros intimava ao moço João do Rego Burros: Lembra-te que és meu filho. E o filho não desmentio o patriotismo e nobreza d'alma, que com o sangue do Pai lhe ardiam nas veias Tomou armas e embebeu-se nos combates, até que a Patria, esmigalhando o jugo estrangeio, exultou gloriosa e livre.

Por mais de trinta annos João do Rego Barros servio nas guerras do Brazil e de Pernambuco ; mas não podemos conhecer a quaes outras Provincias, além d'esta em que nasceo, coadjuvaram a sua espada e a generosidade do seu ouro. E' bem notavel que nenhum dos Historiadores d'aquellas guerras nem siquer mencione simplesmente o seu nome; quando é certo que elle militara em praça de soldado, Alferes e Capitão de infantaria, achando-se nas mais importantes occasiões de peleja; que concorrera liberal da sua fazenda nas fintas e contribuições que se lançaram para sustentação da guerra; e que deo até dous escravos robustos para servirem de soldados, e que serviram, até que ambos perderam em diversos combates as vidas; serviços tão relevantes que The mereceram dous escudos de vantagem. Talvez que o diploma d'estes dous escudos, que nos não foi possivel descobrir, especifique melhor as suas acções de valor nas lides guerreiras, e o seu hereditario e exemplar patriotismo.

Para tudo n'este mundo (é dictado vulgar) se precisa fortuna. Já o Escriptor illustre da Guerra Brazilica, expondo as condecorações e outros

premios conferidos a diversas pessoas pela defesa e libertação da Bahia, em 1638, disse: outros tambem viram só o premio do sangue que verteram em alguns que o não derramaram. Mas é de crer que, nos casos mencionados, as omissões e injustas desigualdades não procederam senão por involuntarios descuidos e erros; fatal imperfeição das obras humanas.

Si, porém, a voz solemne da Historia por fatalidade esqueceu até hoje o nome de João do Rego Barros, os seus chefes, companheiros na guerra, e o Monarcha não lhe faltaram com a devida estima e galardão, aquelles departindo-lhe dous escudos de vantagem sobre qualquer soldo ou ordena. do com que servisse, e o Monarcha pelo modo que passamos a vêr.

O habito de Cavalheiro da Ordem de Christo, o Foro de Fidalgo da Casa Real, o Governo da Provincia da Parahyba, e a propriedade do Officio de Provedor da Fazenda Real em Pernambuco, mediante o donativo em moeda de 4:800000, foram as mercès e vantagens com que o Monarcha distinguio a João do Rego Barros. Do Governo da Parahyba não podemos descobrir o diploma, e suppomos que foi por nomeação do Governo de Pernambuco, ou do Governador Geral do Brazil; e esse Governo da Parahyba o exerceo elle desde o anno de 1663 até o de 1670; e que o servio dig na e louvavelmente, manifesta-se já de residencia limpa que d'elle se tirou, e já da declaração do Monarcha no diploma da propriedade do Officio de Provedor da Fazenda Real, no qual se lê haver o Governador servido em todo o tempo que gover

nou com o mesmo bom procedimento com que se fizera anteriormente notavel em Pernambuco.

Observemos, porém, que durante o Governo de João do Rego Barros, na provincia da Parahyba, não houve ahi guerra estrangeira, nem intestina; e o procedimento a que allude o diploma predito, com que elle se ennobreceo em Pernambuco, consistio não só nos serviços de soldado, Alferes e Capitão, immerso nos combates, mas tambem nos dons gratuitos em moeda metalica e em generos, que por vezes liberalisou para mantença e bom exito da guerra por onde presumimos que na provincia da Parahiba, governando-a elle, contribuio generoso da sua fazenda para alguma obra ou serviço de necessidade ou utilidade publica.

Os tempos remotos dos nossos Avós poucas obras grandes e melhoramentos materiaes nos apresentam, fóra os Templos, as Fortalezas e Casas de piedade. Mas que d'ahi? Que elles desconheciam as suas vantagens? Que absolutamente não tinham genio e gosto para a grande architectura, fontes, pontes, canaes e estradas? O contrario depõem, quanto ao civil, o calçamento da Cidade de Olinda, o seu maravilhoso Varadouro, já hoje tão diverso ou extincto, os seus chafarizes, as suas admiraveis cisternas, o desapparecido Palacio dos Governadores, a Casa da Camara, e a Ponte da villa de Iguarassú: quanto ao militar as soberbas Fortalezas, que ainda existem, e outras demolidas e no tocante á Religião os admiraveis e sumptuosos Templos e Conventos.

Les grands monuments (disse um celebrado Escriptor) font une partie essentielle de la gloire de toute société humaine ils portent la memoire d'un peuple au delá de sa propre existence, et le font vivre contempo· rain des génerations qui viennent s'établir dans ses champs abanbonnés.

Mas, principalmente no primeiro seculo da Capitania de Pernambuco, desde a vinda do primeiro Donatario Duarte Coelho até a invasão dos Hollandezes, em 1630, os Povoads eram pequenos, e em meio da uberdade espantosa de uma natureza virgem, que á mão lhes offerecia a madeira, a caça, a pesca e a fructa quasi sem trabalho. Que fabricas magnificas e monumentos mundanos ou laicaes podiam ou careciam elles então emprehender? O corpo ou as necessidades temporaes tão facilmente accommodadas e fartas faltavam asylos e conforto ás almas elevaram-os. Não douraram Theatros, não embellezaram artificiacs passeios publicos deleitosos, mas sublimaram a Igreja da Misericordia e o seu conjuncto Hospital em Olinda, grandemente dotado, e á que successivamente não faltaram legados. O que teria sido pelo contrario? Se em vez d'este ultimo estabelecimento, a que se abrigavam os pobres e desamparados, e mesmo a Tropa se ia curar, existissem apenas theatros e outros que taes edificios de mero luxo e recrcio? O leitor o póde julgar em qualquer das relações d'esta hypothese. Levantaram mais os nossos illustres Antigos, e proveram liberalmente, n'esse periodo de tempo, as outras Igrejas e Conventos, que decoravam a levantada Olinda, na entrada dos Hollandezes,

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