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de Belem, atravessar os mares da Africa, dobrar o cabo Tormentorio, chegar á Mombaça e Melinde, vencer uma tempestade e, descobrir a India pela claridade da manhã―ha outra acção: é a historia do paiz. Essa começa na legenda, e desenvolve-se até quasi Alcacer. Ao lado do Gama ha Affonso Henriques, que venceu os mouros, D. João I, que venceu a Hespanha; é o poema da nação! Esse foi o seu espirito, esse foi o pensamento do poeta!

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Camões amava Portugal como um filho e cómo um amante. Seu livro é a expressão desse amor, que se pode chamar no mais puro sentido da palavra―uma paixão. Era um penhor de vida, que elle queria dar a seu paiz; uma revelação celeste lhe dizia que o seu poema seria talvez um dia o maior titulo da gloria portugueza, que esse livro seria uma bandeira. Portugal era pequeno pelo territorio, quiz elle fazel-o grande pelo espirito, e para isso determinou-se a crear a legenda de sua patria; coloriu todos os feitos heroicos, com a luz do mytho, e assim elevou o seu paiz acima dos outros. Dos povos modernos da Europa, Portugal é o unico que tem um poema nacional: sua historia é uma longa epopea!

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PARTE TERCEIRA

O MARAVILHOSO PAGÃO

CAPITULO I

USO QUE FEZ CAMÕES DO MARAVILHOSO PAGÃO

As mais bellas pinturas dos Lusiadas são desenhadas com as côres de Homero, com um raio do Olympo. Mas, se a mythologia inspirou ao poeta quadros immortaes, como a apparição de Adamastor, as nymphas cercando a frota do Gama, a ilha dos Amores, prendeu por outro lado seu genio, não o deixando desenvolver-se em toda a sua originalidade. Se á maneira do poeta grego, seu mestre, houvesse elle creado uma theogonia, se houvesse povoado com creações suas o mundo dos espiritos, anjos ou demonios, se houvesse sido sempre o poeta de sua fé, e tido a coragem de Dante ou a sobriedade de Tasso, os Lusiadas não teriam certas bellezas convencionaes, nem pareceriam ás vezes obra de outro seculo e de outro mundo que aquelles em que viram a luz. Antes de julgarmos em geral o valor do maravilhoso pagão, vamos mos

trar os defeitos e as bellezas, que o emprego dos meios poeticos de Virgilio deixou no poema portuguez.

Venus é a protectora da frota lusitana; apparece ella sob todos os nomes nos Lusiadas, e se este fosse um poema religioso seria o poema de Venus. Baccho é desde o primeiro canto o inimigo dos portuguezes. Algum critico inclinado á ligar tudo em um systema poderia pensar que Camões queria destruir a impressão do poema de Nonnus, e que esse Baccho não era senão o sol cioso dos portuguezes que queriam desvendar o segredo de seus dominios e de seu berço.

Porque Venus é assim a protectora da raça lusitana? A adoração de Camões por Virgilio explica o ter elle procurado para seu paiz a divina guarda da mãi de Enéas.

<< Dou-vos tambem aquelle illustre Gama
Que pera si de Enéas toma a fama, >>

e quem compara os Lusiadas á Eneida vê que o destino do filho de Anchises, a gloria de sua odysséa, e a de ter fundado um novo reino longe da patria, foi o destino que Camões buscou para a descobridor da India. De modo nenhum queremos dizer que os dois poemas tenham uma só inspiração; a obra do poeta portuguez é perfeitamente nova na execução, e ainda que elle traçasse á seu genio uma barreira, que era a arte de Aristoteles e o plano dos velhos poemas, o d'elle só tem de parecido com seus antecessores os limites que deu á sua obra; dentro, porém, dessas regras da poetica de Virgilio, moveu-se elle sempre com a espontaneidade de seu prodigioso engenho.

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Dando ao Gama, ou querendo dar ao Gama, o prestigio historico de Enéas, o poeta collocou a familia lusitana, como o outro collocára, depois de Homero, a familia troiana, sob a protecção da deusa do amor.

Se illudidos e atraiçoados vão os portuguezes em Mombaça ancorar em um ponto onde a abordagem é facil e a victoria segura para os mouros, é a linda Erycina quem os salva collocando-se com as Nereidas em frente á frota lusitana e pondo

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no madeiro duro o brando peito >>

de modo a forçar para traz a náo do almirante, desviando-a da barra inimiga.

Se, escapando ás ciladas do rei de Mombaça, Vasco da Gama implora a misericordia celeste, e invoca à guarda divina para que lhe mostre a terra que andam buscando, dizendo-lhe:

«Pois só por teu serviço navegamos, >>

quem lhe ouve essa supplica é a formosa Dione. Não parece que é no interesse desse paganismo já sepultado sob as ruinas de dez seculos e de um mundo todo que andam os portuguezes navegando?

Se no meio da grande tempestade armada por Baccho, estando as náos já prestes a desapparecer no oceano, Vasco da Gama eleva á Deus uma oração magnifica, em que não lamenta a morte, mas o não ter morrido combatendo pela patria, o céo não se commove, e é só Venus que ao luzir pela madrugada no firmamento e ao visitar

<< A terra, e o largo mar, com leda frente, »

sente-se tocada de medo e de ira ao ver a sua

cara armada. Não é á um gesto divino, como esse .biblico ao qual foi feita a luz, que se desfaz a tempestade; a metereologia christã não tinha ainda as honras da poesia, as forças da natureza eram as divindades que povoavam o invisivel. Desfaz-se a tempestade porque Venus manda as nymphas coroarem-se de grinaldas de rosas e os ventos namorados não podem mais soprar; Orithia prende Boreas, Noto abranda-se á um sorriso de Galatéa, e somente pelo poder do amor a tempestade que tinha quasi devorado a frota lusitana, e com ella o dominio portuguez nas Indias e a memoria dessa expedição immortal, foi vencida em alguns momentos. Quando a manhã lançou seus primeiros raios nos outeiros, que atravessa o Ganges, os marinheiros poderam saudar a terra da verdadeira India.

Emfim, se depois d'essa longa peregrinação pelos mares do Oriente, vão os portuguezes voltar cansados de tantas fadigas á terra natal, temendo não ter outra recompensa mais que a da historia, e essa para os chefes, é Venus quem faz surgir para elles a ilha dos Amores.... especie de paraizo musulmano onde as nymphas, mais bellas que as houris do propheta, recebem os ousados navegantes da India. Seja essa ilha a allegoria da immortalidade e da gloria, seja mesmo o puro reinado da Venus celeste, a verdade é que foi Venus quem sustentou, quem conduzio, e quem recompensou os exploradores do Oriente.

Esquecendo por agora o valor litterario de cada um d'esses sublimes quadros, vejamos que effeito produz essa mythologia ainda espalhada por todo o poema.

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