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de Plutão. A crença catholica nos demonios e nos anjos permittia-lhe pintar mesmo com as côres antigas o seu inferno, e é por isso que n'elle vemos um pandemonium de todos os espiritos máos das differentes religiões. Camões podia dispensar-se de colorir tão phantasticas e temerosas scenas, e deixar tambem a magia, como a de Ismen, que dá á Jerusalem certa apparencia dos contos arabes das mil e uma noites. Havia no sentimento, na alma mundos desconhecidos que Dante entrevira, mas de que só Shakspeare devia ser o Colombo; era d'esses que o genio de Camões devia tomar posse! O amor, tão puro, tão verdadeiro em D. Ignez de Castro, podia ter outras faces. E' um pezar, que sentimos, ver que Camões não se apossou com resolução de seu papel de creador, que não tomou a iniciativa do genio. A elle pertencia a revolução que mais tarde operou-se e que cobrio o mundo antigo de ruinas, atravez das quaes apenas se destacam, mas essas desafiando o tempo, como columnas de uma arte desapparecida, mas inimitavel, a Iliada, os Lusiadas, e a Jerusalem.

E' talvez uma fatalidade que prende os homens ao meio em que vivem e fal-os duvidarem de si quando unanimes os contemporaneos os condemnam. E' preciso terem elles na alma uma força inquebrantavel para atirar da fronte os louros com que seu tempo quer coroal-os, e appellar para uma posteridade que talvez não venha nunca. Esse livro, ao qual elles confiam sua immortalidade, talvez nem lhes sobreviva! Com este receio preferem elles a corôa que seu tempo lhes dá, e entregam-se á toda a embriaguez de uma gloria universal. Talvez mesmo, como em Camões, não fosse nem desanimo

nem egoismo; talvez fosse o amor da patria. Os Lusiadas eram destinados á perpetuar menos o nome do cantor que os feitos do paiz, e temia o poeta que, adoptando para elles uma forma de futuro, ou fazendo nas lettras uma revelação, ficasse toda essa epopéa, de que elle era o Homero, condemnada ao esquecimento. Seu patriotismo não o deixou duvidar mais tempo, e buscou elle para fazer aceitar sua obra, que era o monumento da patria, a forma acceita, estudada, adorada em seu tempo, a forma da Iliada e da Eneida.

O que discutimos nós? O que aventuramos depois dessas razões adduzidas pró e contra?

Que o maravilhoso pagão foi uma barreira erguida pelo poeta diante de seu genio, um pezo de chumbo atado pelo tempo ás azas da aguia: que esse maravilhoso, além de limitar a circumferencia do engenho do poeta, tira á sua obra a naturalidade, a originalidade dos poemas nacionaes, que reflectem a alma, a vida, o sentimento do povo, fazendo-o parecer escripto, no seculo XVI, por um contemporaneo de Virgilio, despertado de um somno de quinze seculos.

Perguntando-se, porém, que uso fez Camões d'esses meios poeticos, diremos: elle renovou o polytheismo, deu ao antigo Olympo um brilho desconhecido mesmo na Iliada, traçou com as côres que pareciam gastas por Virgilio quadros de que a antiguidade não nos legou os rivaes, em uma palavra, compoz uma obra divina!

CAPITULO II

ADAMASTOR

As náos portuguezas, depois de uma já tão longa viagem, iam approximando-se da extremidade sul da Africa, do cabo das Tormentas. Era a fronteira do mar das Indias, a porta do Oriente, que ellas iam atravessar com as velas desfraldadas, pela esteira de Bartholomeu Dias.

Todos os que lemos os Lusiadas seguimos sempre com os olhos essas caravélas, prolongamento fluctuante da grande nação.

Camões é verdadeiramente o poeta da navegação. Suas descripções maritimas são inimitaveis. Homem do mar e poeta, devia elle ser o primeiro pintor das grandes scenas do oceano, e na verdade nenhum pincel reproduz a magestade de seus quadros.

Não pintou elle sómente a natureza, descreveu as impressões da alma diante d'ella; os sentimentos do navegante ficaram-nos todos em versos eternos. Não nos contou elle em uma de suas estancias o que se passa com aquelle que deixa a patria, que sente afastar-se do Tejo e que, quando a ultima penumbra da costa desapparece na raia do horisonte, acha-se entre o céo e o mar, murmurando já com lagrimas as palavras do poeta :

« Fortunati quorum jam mænia surgunt? »

<<< Felizes os que veem despontar os muros de sua cidade! >>

« Já a vista pouco e pouco se desterra
D'aquelles patrios montes, que ficavam:
Ficava o caro Tejo, e a fresca serra

De Cintra ; e n'ella os olhos se alongavam.
Ficava-nos tambem na amada terra

O coração, que as mágoas lá deixavam;
E já despois que toda se escondeo,

Não vimos mais emfim, que mar e céo. »

Como nos descreve elle no canto VI uma tempestade no mar das Indias e a calma que lhe succede! Não nos parece ver em todo o seu horror esse terrivel quadro maritimo: as náos alagadas, com os mastros partidos, os raios allumiando a noite negra e feia, os montes derribados pelas ondas, as raizes das arvores viradas para o céo, as velas rasgadas pela força dos ventos, e o canto triste das alcyones, cujo destino é cantar durante a tormenta as miserias do naufragio? E depois que vemos toda essa tempestade desfazer-se por força do amor, não dir-se-hia que sentimos o doce reflexo da luz matutina sobre o mar, fatigado de tanta colera e coberto ainda de suas espumas ?

Nenhum poeta descreveu tão bem os grandes espectaculos do oceano, nenhum tambem foi tão homem do mar, como Camões; elle sentiu a impressão dessas scenas, atravessou os perigos da tormenta, salvou-se de um naufragio, viveu, por assim dizermos, com os olhos fitos no mar caminho da patria distante.

Como pinta elle uma vigia á bordo! a náo isolada no meio do oceano e a vigia velando à noite; é uma noite de luar, uma noite serena, em que apenas a brisa corre pelas ondas sem despertal-as e os marinheiros dormem ao relento do céo tropical:

«Da lua os claros raios rutilavam
Pelas argenteas ondas neptuninas;
As estrellas os céos acompanhavam,
Qual campo revestido de boninas :
Os furiosos ventos repousavam
Pelas covas escuras peregrinas;
Porém da armada a gente vigiava,
Como, per longo tempo, costumava. »>

A' vida do mar, do desterro, das armas deveu elle sem duvida parte de sua individualidade moral e poetica; sobretudo a longa contemplação do horisonte, do firmamento, do infinito, porque em uma navegação de muitos mezes o pensamento não tem senão esses sublimes objectos em que fixar-se, devia ter dado á sua obra essa uniđade, essa harmonia, esse perfume todo intrinseco de religião, de patriotismo, de justiça e de amor, que nenhuma litteratura sentio exhalar-se de uma unica de suas obras primas! tanto é verdade que o infinito é a patria de tudo que é realmente grande, e que o genio fecundado pelo ideal póde ser chamado divino!"

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A mais soberba, porém, de quantas creações o o mar inspirou á Camões é o Adamastor. Dizemos. o mar, porque foi talvez ao dobrar pela primeira vez o cabo das Tormentas que elle teve essa concepção. Comprehende-se que por uma noite sombria a costa africana tomasse as proporções de um phantasma, e que ao atravessar esse cabo de tão máo agoiro o poeta meditasse sobre o dominio do Oriente, que elle tinha depois franqueado á sua patria, e visse nisso uma grande fatalidade vencida. pelo genio de seu paiz á custa de innumeros sacrificios. N'esse momento, as catastrophes de que elle fez propheta Adamastor, vir-lhe-iam á memoria, sua imaginação provocada naturalmente pelo

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