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Elle queria renovar as tradições de D. João II, sem saber se o joven rei era digno de sustentar a bandeira lusitana. Não póde, porém, o poeta ser responsavel por uma expedição de todo o ponto imprudente, sem logica e sem direcção, pela loucura, para melhor dizermos, de um rei aventureiro. Se a historia assim falla, e com tanta verdade que para ella Camões é a representação viva da patria, o poeta, mesmo por amar extremosamente seu paiz, não foi tão indulgente comsigo; bem pelo contrario tomou elle em sua consciencia uma parte de responsabilidade no desastre, e d'esse remorso ficou tão pungido que poucos mezes depois expirava em um abandono completo de espirito e de coração! Não era pois a expedição de Africa, considerada sob ponto algum de vista, o que podia reanimar o genio do poeta: era ella, sim, o veneno que devia matal-o!

CAPITULO II

DESGRAÇA E FIM DE CAMÕES

Ninguem descreveu ao vivo o interior da casa de Camões; essa lucta quotidiana da miseria com a fome, esses dialogos do genio com a sorte, não nos foram transmittidos pelos contemporaneos.

O genio foi muito tempo um privilegio fatal; mas á que se pode imputar a alliança tão antiga do talento e da miseria? porque as maiores intelligencias attrahem o soffrimento, como as alturas o raio ?

Não se pode crer na influencia de um destino occulto; a fatalidade de que fallava de seu leito de morte a mais bella das nossas esperanças desfeitas, (1) talvez pensando em ser elle a victima de seu coração e de seu talento, não tem valor perante a razão. Se o destino dos poetas fosse soffrer, quem poderia accusar a sociedade que os deixa cumprirem sua missão? e por outro lado que lei moral seria essa que só não se executa n'aquelles que prostituem e vendem a musa ao ouro dos reis e dos poderosos?

(1) Alvares de Azevedo,

De certo a imaginação é uma causa eterna de soffrimento, e n'esse sentido pode-se dizer que os poetas teem em si a fonte de sua desgraça. Com a alma de Byron, por exemplo, como há de ser feliz n'este mundo aquelle para quem o prazer, o amor, a gloria e até a dedicação convertem-se mal se lhes toca em fructos insipidos ou amargos?

Os homens assim organisados não podem aspirar á felicidade.

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que há na terra que possa saciar a sede que os devora, quando a agua que elles sonham não corre por estes valles, e seus labios rejeitam com desprezo a que a vida lhes offerece mais pura e mais crystallina?

São elles por certo os maiores idealistas da felicidade; ninguem cantou, como elles, os prazeres dos sentidos e os do coração; ninguem descobriu mais a poesia da terra, do que elles. Byron sobretudo, como descreveu a voluptuosidade da vida! No emtanto cada sonho realisado lhe parecia um cruel despertar, cada desejo satisfeito era uma illusão morta. Para quem nasceu assim o melhor destino era morrer moço,-na embriaguez passageira da gloria, combatendo pela Grecia.

A moderna poesia tem copiado essa melancolia das almas superiores, e não há poeta, destinado á morrer no seio da familia depois de ter cumprido seus deveres de homem, que não se julgue presa da doença dos genios. A tristeza vaga da mocidade, produzida pelo amor e pela ambição, e que parece ser apenas o crepusculo da vida, não deve ser confundida com essa imperiosa necessidade de um bem, que não se acha na terra, a qual que

bra a alma, como o fogo faz estalar a porcellana que o contem.

Muitos dos grandes poetas escaparam á essa melancolia, que parece despontar nas almas antigas e renovar-se com mais força no começo do século. Dante foi, como vimos, o escravo de sua tristeza; Camões que deveu sentil-a profundamente não succumbiu á ella.

Se a tristeza dos grandes poetas é determinada pela imaginação, sua desgraça é o effeito de causas particulares e individuaes. Outr'ora o circulo dos homens de lettras era limitado, e a imprensa, que consumia, não dava a fortuna. Hoje são muito outras as circumstancias; há em cada paiz uma clientela para os grandes talentos; o poeta não tem mais que recorrer á caridade dos ricos nem ao desdem protector dos reis; seu Mecenas é o povo.

A miseria de Camões está, como vimos, ligada aos revezes de seu paiz. Entregue á maior desventura, sentindo crescer o perigo, olhando á um tempo para as duas fronteiras, para o mar á ver se voltava a flôr da sua bravura sepultada em Africa, para leste á ver se já despontavam os primeiros soldados da Hespanha, a geração coeva do poeta não podia bem cuidar de suas desgraças nem suavisar-lhe o soffrimento. O homem desapparecia diante da nação; um gemido perdia-se no pranto universal do povo.

Não é assim essa geração tão culpada de ingratidão, como alguns acreditam; no meio de todos esses desastres, da dissolução geral da sociedade, no reinado de um cardeal decrepito, quando a dynastia não tinha mais representante, quando a invasão se aproximava das fronteiras, o que era

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o infortunio de um homem mesmo sendo esse Camões? Mas se a nação não podia cuidar d'elle, os amigos do poeta não deviam tel-o deixado morrer ao desamparo; esses fidalgos dos quaes elle foi companheiro, o convento de S. Domingos, que elle illustrou diante da historia com sua amisade, deviam ter entrado algumas vezes na casa do do poeta sob a forma da Providencia, que elle invocava. E' certo que o coração altivo de Camões devia recusar-se á dependente clientela nas casas dos grandes e dos poderosos" (1). Mas esse coração altivo mandava á noite o Jáo mendigar nos pontos frequentados de Lisboa, e onde o transeunte deixava cahir uma moeda de cobre, Manoel de Portugal, o conde de Vimioso, D. Gonçalo Coitinho e outros podiam lançar uma de ouro ! Ha tantos meios de fazer um beneficio e é tão facil matar uma dor e valer á alguem! A esmola, dada com ostentação, com ruido publico, destinada á vincular a musa e a gratidão do poeta á casa dos grandes, essa elle regeitaria com altivez; mas não seria elle quem recussasse o offerecimento da amisade, expontaneo e reservado, porque a beneficencia tambem tem pudor.

Fosse, porem, a causa da desgraça do poeta qualquer das enunciadas por seus biographos, ou outra desconhecida, ella foi muito longa, muito dura e tão persistente, que merece bem o nome de martyrio. Dizer tudo que elle soffreu, é impossivel pelo silencio dos testemunhos authenticos e da musa do poeta.

(1) D. Fr. Alex. Lobo.

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