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NOTAS.

Suscitou-me a ideia deste romance a passagem seguinte de Dom Francisco Manoel de Mello, que transcrevo da sua primeira Epanaphora politica As alteraçoens d'Evora, anno de 1637 onde a pag. 28 diz assim :

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Fôra poucos annos antes, conhecido em aquella Cidade, um homem doudo, e dizidor, e por isso aceitissimo ao Povo, cujo nome era Manoel, e por jogo, e sua notavel grandeza ironicamente Manoelinho.

Usava fazer praticas pelas ruas ao vulgo; a quem com vozes desordenadas, e historias ridiculas excitava sempre a alegria, donde procedeo ser na Cidade, e seus contornos, a pessoa mais conhecida; a cuja lembrança recorrendo alguns de aquelles inquietos, foi ordenado entre elles, que todas as convocaçoens, cartas, editos, e ordens, se despachassem debaixo do sinal de Manoelinho d'Evora; porque assi se escusavà de ser jámais conhecido o Autor destas obras ; ficando aquelle nome, desde então, constituido por sinal publico, pera que se podessem entender sem confusam, em seus chamamentos. Nesta observancia amanhecião cada dia fixados pelas praças, e portas da Cidade, Provisoens, Bandos, e Decretos pertencentes ao estabilicimento de sua defensa: debaixo desta fórma se escrevião, e despachavão cartas ás Camaras do Reyno, se despedião os Ministros de seus officios, e se acomodavão nelles outros, em virtude de hum simples provimento, assignado por Manoelinho d'Evora. Chegou a tanto a autoridade de seus mandados, que bastava pera que hum Cidadão, Fidalgo, ou Ministro, deixasse a cidade, casa, e officio, ou entregasse sua fazenda, ser-lhe assi mandado pela incerta voz de Manoel; porque já se sabia, que nella era inclusa tacitamente a vontade do Povo, a que nenhum poder resistia. Assi se observou com muitos sospeitosos, dando-lhes termos de dias, e desterros, que forão dos condenados inviolavel

mente obedecidos; porque depois do preceito, cominavão logo as penas, que se seguião á sua inobediencia, as quaes não erão menos de morte, e incendio.

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Se o nome do Manoclinho d'Evora foi em 1637 o grito de guerra escolhido pelos povos daquella cidade, quando infructuosamente tentaram saccudir o jugo da dominação castelhana; se este nome foi o

presidiu á primeira tentativa da liberdade em Portugal; sagrado deve elle ser para o trovador, que só aspira a fazer recordar as glorias da sua patria; por isso o escolhi para assumpto deste romance.

A historia da feliz acclamação d'ElRey Dom João quarto, no dia 1. de Dezembro, é popular entre nós; desse dia data a dynastia reynante, e a nossa independencia nacional; porem é geralmente pouco sabida a historia da revolução d'Evora em 1637, que foi, por assim dizer, como a aurora anuviada daquelle bello dia: sendo só este motivo bastante para me decidir a esboçar um quadro daquella epocha.

Quem tiver a paciencia de consultar o Portugal restaurado do Conde da Ericeira, as revoluções de Portugal do Abbade de Vertot, e a já citada obra de Dom Francisco Manoel de Mello, verá que fui exacto na designação dos caracteres politicos: deste ultimo escriptor, e da mencionada epanaphora transcrevo o caracter de Miguel de Vasconcellos, que elle definio assim a pag. 21: Era Miguel de Vasconcellos herdeiro do

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aborrecimento, que o Reyno teve a seu pay Pedro Barbósa, homem togado de agudo, mas inquieto engenho, a que se seguio vida escandalosa, e morte violenta.,,

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Esta vida escandalosa de Miguel de Vasconcellos, é que me serviu de nexo principal da fabula de meu pequeno poema se tal nome pode caber a esse rozario de trovas, que eu escrevi com o titulo de roman

ce."

Bem imagino eu que alguns de meus leitores quereriam que lhes eu dicesse quem era o Manoelinho d'Evora, qual seu verdadeiro nome, e talvez a sua genealogia; facilmente podera satisfazer a sua curiosidade; aqui, em duas palavras; no texto do romance, em algumas trovas mais: julgo todavia dever responder-lhes que, ao escrever este romance, tive em vista symbolisar no Manoelinho d'Evora, louco, e errante por cauza da tyrannia de Miguel de Vasconcellos, o povo portuguez escravo pela dominação, e tyrannia de Castella: elle tinha perdido a razão, e por tanto a dignidade moral de homem; o povo portuguez tinha perdido a dignidade nacional, isto é, a sua independencia, e liberdade, que sam como a razão social e se o Manoelinho recobra o uso da razão, e reconhece a sua filha, ao grito da liberdade, proclamado nos calabouços pelo illustre Dom Gastão Coutinho, assim a nação portugueza recobra o uso de seus direitos, e reconhece como seus filhos os heroes do 1. de Dezembro de 1640, restau

rada a liberdade da patria, victima até então, como a infeliz Maria, e seu desgraçado pay, da prepotencia, e tyrannia.

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Alem deste motivo, outro quero accrescentar não menos forte; e é, que dezejei demostrar a verdade deste preceito do Redemptor do genero humano Bemaventurados os que soffrem perseguição por causa da justiça, porque elles alcançarão misericordia. Doutrina consoladora do desgraçado, como toda a moral divina do Evangelho. Por isso dei adrêde á loucura do Manoelinho o caracter religioso; elle tudo perdêra, menos a crença instinctiva de seus pays, assim como o povo portuguez tudo tinha perdido, menos a crença religiosa de seus maiores: a lingoagem do Manoelinho é a do profeta Jeremias, quando conta os rigores que soffria, no captiveiro de Babylonia povo d'Israel; porque, como o trovador sagrado, lamentava os soffrimentos de sua patria, sob o captiveiro de Castella.

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Quanto á parte historica dos factos essenciaes, acharão meus leitores nas citadas obras que eu consultei, a prova de minha constante fidelidade.

FIM.

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