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PRELIMINAR

Nos numerosos trabalhos sobre a Vida de Camões, que até ao presente não satisfazem ás condições da verdadeira historia, em todos elles se observa uma constante conflagração das interpretações criticas e da tradição inconsciente em volta do facto. Umas vezes é a tradição, mal comprehendida, que se toma como facto positivo; outras vezes é a sua interpretação ou as inferencias tomadas como realidade, prevalecendo a imaginação sobre a verdade.

Ha sempre que dizer de novo sobre a Vida de Camões, corrigindo ou restabelecendo pelo criterio severo estas relações que envolvem o facto historico. O verdadeiro estudo só se realisará quando pelo conhecimento geral da Epoca em que viveu Camões, da psychologia da sua individualidade, e do quadro biographico contornado nos tópicos irrefragavelmente conhecidos pelos documentos authenticos já achados, se limitarem as interpretações criticas á localisação dos factos em um quadro definitivo, e á determinação dos residuos de verdade historica, que se encerram n'essas tradições ou lendas pessoaes. Porque a verdade nas tradições consiste no testemunho do facto pelas impressões que d'elle ficaram, e é pela analy se psychica d'essas impressões, obedecendo a normas embora inconscientemente, que nos aproximamos da verdade da realidade historica

Como os biographos que vieram depois da geração de Camões, esses investigadores do seculo XVI, como Pedro de Mariz, Severim de Faria, Paiva de Andrade e Faria e Sousa, não souberam penetrar o sentido das

tradições camonianas, os criticos que lhes succederam despresaram esse riquissimo material do passado historico, perdendo os fios conductores para uma verdadeira reconstrucção. Quanto mais distante tanto mais geral se torna a tradição, desligada dos particularismos que a pervertem e a confundem: é por esta nova capacidade que os historiadores modernos penetraram mais profundamente no passado, por que essas épocas chamadas tempos fabulosos encerram o deposito das impressões de successos que não deixaram de si outra memoria, mas psychologicamente tão verdadeira, que ou nos mythos theogonicos ou nas lendas épicas servem para reconstituir uma Civilisação rudi

mentar.

Hoje o que melhor representar a Vida de Camões com mais verdade historica, com mais nitida comprebensão da sua época, estabelecendo com mais segurança a relação do genio com o seu meio mental e social, offuscará por ventura a gloria que compete a quantos o precederam? Não; e, sem modestia, basta ter presente aquelle principio que traz Voltaire no seu Diccionario philosophico: «Tudo se faz por gradações, não cabendo a gloria a ninguem.»

No preambulo das memorias da sua vida, Goëthe appresenta esta indicação para um estudo biographico: Parece-me que o objecto principal de uma biographia consiste em representar o homem que se visa no meio da sua época, e mostrar até que ponto o conjuncto lhe foi obstaculo ou o auxiliou; que ideias seguidamente formara do mundo e dos homens, e, se elle foi artista, poeta, escriptor, como lhes deu expressão:. Seguimos esta norma. Camões nasce em uma época em que a decadencia de Portugal se dourava com os restos de uma apparatosa grandeza, e quando na Europa prevalecia a dictadura monarchico-catholica sobre o espirito livre da Renascença. A vida do poeta decorreu entre calamidades sociaes, decepções intimas, perseguições e desventuras, em que nunca succumbiu. Alentou-o o ideal, a que todos esses soffrimentos deram relêvo, que se tornou o Pensamento novo da consagração da Patria em um Pregão eterno. E quantas angustias o torturaram e mesmo o momento aziago da sua morte, não foram senão os meios e a prova como melhor sentiu e completamente se unificou com a sua terra.

CAMÕES

EPOCA, VIDA E OBRA

Ao iniciar as expedições maritimas do seculo XV, o genio da raça lusitana manifestava o caracter ethnico da sua origem ligurica. Os grandes Descobrimentos e as temerosas navegações imprimiram ao Povo portuguez o vigor de uma Nacionalidade autonoma entre os outros Estados peninsulares; e a essa nacionalidade uma acção historica, exercendo a missão impulsora de uma nova Era, na marcha progressiva da humanidade. Confinado entre o continente e o mar, Portugal, pela tenacidade de raça inconfundivel, realisara no seculo XII a aspiração tradicional da independencia como estado politico; mas foram os seus portos, as suas armadas dominando no Mare librum que lhe crearam os recursos economicos, deixando então de ser um appendice da Hespanha. A sua burguezia não se af

firmou pelas revoltas communaes, mas nas luctas do trafico mercantil dos productos de inexploradas regiões, apeando o emporio exclusivo de Veneza. Quando esses vastos dominios geographicos reclamaram colonos, capital e confiança para o credito, as exiguas condições d'este pequeno povo foram causa material da sua decadencia ante o concurso das poderosas nações da Europa, e nunca uma degenerescencia imaginaria.

No seculo XVI, o maior seculo da historia, é quando resplandecem todas estas condições vitaes da Nacionalidade portugueza, nos aspectos mais delicados do sentimento, da intellectualidade e da acção individual. Na Litteratura e Arte quinhentistas o sentimento nacional inspirou as mais bellas creações estheticas: no Theatro, revelando-se em Gil Vicente a tradição mantida na vida popular; no Lyrismo, a passividade amorosa designada pelos criticos estrangeiros-alma portuguezapela sua emocionante expressão; na Architectura, revivescendo na época manuelina no mosteiro dos Jeronymos, fórmas ainda communs á Hespanha lusa ou occidental, com a ornamentação do gothico-florido com os novos productos das regiões orientaes; no Direito, sancionando o costume do reino, ou as antigas garantias populares, embora os reinicolas as codificassem segundo as leis romanas e canonicas. E' n'este seculo quinhentista, que a Lingua portugueza entra na disciplina grammatical, iniciada por Fernão de Oliveira, proclamando o Doutor Antonio Ferreira, que se falle, escreva e cante essa lingua, adaptada ás narrativas da Historia por

João de Barros e Damião de Góes, tornandose uma manifestação organica do nacionalismo. Bem dizia Frederico Schlegell: «Feitos memoraveis, grandes successos e largos destinos, não bastam para captar a attenção e determinar o juizo da posteridade. Para que um povo tenha este privilegio, é preciso que elle saiba dar conta dos seus feitos e dos seus destinos. E' esta harmonia que caracterisa o genio portuguez no seculo XVI, na affirmação complexa de profundos symptomas de vitalidade.

Mas sob este esplendor da éra quinhentista, trabalhava uma força depressiva de desnacionalisação, exterior á nacionalidade, pela ambição do unitarismo iberico dos seus monarchas, coadjuvados pelo unitarismo catholico. Ao encetar-se o ultimo quartel do grandioso seculo, Portugal era convertido pelos seus dirigentes temporaes e espirituaes em uma provincia castelhana.

Não se apagou, apesar da dissolução dos caracteres e de sanguinosas violencias, a consciencia da nacionalidade portugueza; Camões deu expressão a essa força latente, e tornouse o Symbolo d'ella. Camões, que nasceu no periodo das fortes energias; que assistiu á transição da generosa Renascença para a phase perturbada e esteril; que viu toda a extensão do dominio portuguez na Africa, India e extremo Oriente, nos seus desfalecimentos moraes, Camões foi o luminoso espirito que sentiu a raça na sua resistencia indoma vel e deu expressão artistica ou universal a essa consciencia historica. No momento em que se iam apagando os testemunhos que mostravam Por

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