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louvado, tudo o que ligou-se sympathicamente e foi propicio à independencia de um povo.

Quanto à musica, é sabido e já foi dito no citado artigo da Aurora de 13 de Setembro de 1833) que existem duas: uma do provecto compositor portuguez Marcos Portugal, a primeira que se compôz, e por meio da qual foi, nos primeiros tempos, cantado o Hymno da independencia (asserto este que nos foi confirmado pelo distincto professor e compositor brasileiro o fallecido fluminense Francisco Manoel da Silva), e outra que se attribue ao Sr. D. Pedro I.

Quanto aos versos da duas musicas, são os mesmos e da lavra de Evaristo Ferreira da Veiga, como ficou dito e provado.

Sobre este ponto apenas nos é permittido accrescentar o seguinte: que, ainda quando houvesse carencia absoluta de documentos (e elles são de sobra) para provar que foi Evaristo Ferreira da Veiga o autor do Hymno da independencia, que tem o estribilho « Brava gente brasileira » (como foi de mais outros seis e de outras muitas poesias, entre as quaes a « Despedida de Minas, que foi publicada em 1837 no Museu Universal e que foi sua ultima composição poetica), nunca poderia ser tal hymno producção do primeiro Imperador. Basta lêl-o: D. Pedro não poderia dizer de si em 1822 (fazemos-lhe esta justiça) o que se lê nos versos d'aquelle hymno; seria triste, estulto e soberanamente ridiculo.

Em casa do Sr. Arthur Napoleão, o eminente pianista, hoje commerciante, à rua dos Ourives n. 56, encontram-se á venda as duas musicas, estando a poesia de Evaristo dividida entre ellas.

Em um hymno patriotico parece-nos, entretanto, que os versos, isto é, as palavras, isto é, a fórmula mais expressiva e authentica do pensamento humano, tem preeminencia sobre a musica.

Escrevendo sobre este ponto, dissémos o seguinte, nas paginas do Jornal do Commercio de 6 de Janeiro de 1862, respondendo a una observação que então nos foi feita:

« Não ha paridade alguma entre um hymno patriotico, um hymno nacional e uma peça lyrica de canto italiano. Rouget d'Isle é conhecido no mundo, e principalmente em França, como autor da Marselheza, não tanto por causa da musica (que é igualmente de sua composição e esplendida), mas principalmente por causa d'aquelles celebres versos, animados do fogo sagrado da liberdade e do patriotismo.

« O que se cantava e se canta entre nós, o que electrisava e electrisa o espirito nacional não é ou não são a musica ou as musicas do Hymno da independencia (e tanto assim é que ha duas musicas que rarissimos distinguem), porém o verbo potente, talvez rude, mas inspirado da emancipação de uma grande nação americana.

<< O povo brasileiro não dizia, nem diz―dó, ré, mi, fá, sol, ld, si-mas « Brava gente brasileira, » etc. Isto é que o anima e enthusiasma, porque o engrandece, nobilita e exalta, porque é a concreção de seu amor-proprio nacional, porque é a explosão, cheia de hombridade, de seu patriotismo, um quasi desafio aos que pretenderem combater ou suffocar seus anhelos férvidos de independencia !

a O que excita o patriotismo ou o nacionalismo do inglez não são tanto as harmonias meio selvaticas de seus hymnos, porém estas expressões orgulhosas e caracteristicamente nacionaes: « Rule, Britannia, rule the waves, » ou a God save the Queen. »

Para a grande maioria ou para a quasi totalidade da nação brasileira não existe senão um Hymno da independencia, o que tem por estribilho « Brava gente brasileira. »

Com musica do primeiro Imperador ou de Marcos Por

tugal se podem recitar quaesquer quadras que tenham of mesmo rythmo e o mesmo numero de syllabas, e ninguem reconhecerá o Hymno da independencia; recitai, porém, a poesia que tem por estribilho a Brava gente brasileira » com qualquer outra musica que com ella se adapte, e todos dirão: Eis o Hymno da independencia com diversa modulação ou melodia.

Evaristo Ferreira da Veiga, repetimos, não foi patriarcha da independencia do Brasil (era muito moço para sêl-o), não foi coryphêo d'esse heroico movimento de liber tação do grande reino americano, não inseriu mesmo seu singelo nome em nenhum documento official d'esse pleito de honra para todos os brasileiros válidos; mas, no seu modesto retiro, ignorado e arredio, ergueu um canto cheio de civismo e de nobres estimulos, formulou um hymno patriotico, vinte e um dias antes do grito do Ypiranga, em prol da libertação do futuro Imperio brasileiro !... Não foi, pois, mudo e impassivel espectador d'essa luta gloriosa, d'esse tão nobre e tão digno certame, e podia dizer aos seus compatricios, na hora do seu infausto passamento, referindo-se aquella èra auspiciosa, aurora do grande dia (o 7 de Abril de 1831) que viu jubiloso surgir: « Eu tambem então palpitei, provei ou revelei a minha existencia, quando a patria nascia... quebrando seus grilhões... »

Em 2 de Agosto de 1877.

Hymnos Patrioticos

COMPOSTOS POR

EVARISTO FERREIRA DA VEIGA

POR OCCASIÃO DA

INDEPENDENCIA DO BRASIL

1o

HYMNO CONSTITUCIONAL BRASILIENSE (*)

Já podeis, da patria filhos,
Ver contente a mãi gentil :
Já raiou a liberdade

No horizonte do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá temor servil;
Ou ficar a patria livre,
Ou morrer pelo Brasil.

Os grilhões que nos forjava
Da perfidia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa....
Zombou d'elles o Brasil.

Brava gente brasileira, etc.

(1) Os elogios prodigalisados a D. Pedro I, n'estes e nos outros hymnos, pelo futuro redactor da Aurora Fluminense provam com quanto amor foi D. Pedro aceito pelos brasileiros, quanto n'elle confiavam, e provam que só seus actos posteriores poderam divorcial-o da nação brasileira. Evaristo era monarchista, mas prezava a liberdade constitucional.

O real herdeiro augusto,
Conhecendo o engano vil,
Em despeito dos tyrannos,
Quiz ficar no seu Brasil.

Brava gente brasileira, etc.

Revoavam sombras tristes
Da cruel guerra civil;
Mas fugiram apressadas,
Vendo o anjo no Brasil.

Brava gente brasileira, etc.

Mal soou na serra, ao longe,
Nosso grito varonil,

Nos immensos hombros, lógo,
A cabeça ergue o Brasil.

Brava gente brasileira, etc.

Filhos, clama, caros filhos,
E' depois de affrontas mil
Que a vingar a negra injuria
Vem chamar-vos o Brasil.

Brava gente brasileira. etc.

Não temais impias phalanges,
Que apresentam face hostil:
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.

Brava gente brasileira, etc.

Mostra Pedro, á vossa frente,
Alma intrepida e viril;

Tendes n'elle o digno chefe

D'este Imperio do Brasil.

Brava gente brasileira, etc.

Parabens, ó! brasileiros!
Já com garbo juvenil

Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

Brava gente brasileira, ete.

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