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ESTUDOS

SOBRE A

TRIBU MUNDURUCU’»

MEMORIA

ESCRIPTA E LIDA PERANTE O INSTITUTO HISTORICO GEOGRAPHICO BRASILEIRO

'Pelo engenheiro

ANTONIO MANOEL GONÇALVES TOCANTINS

Socio correspondente do mesmo Instituto.

I

Viagem ás aldeas centraes dos Mundurucus, situadas no valle do Alto Tapajoz.—Itinerario de Belem, capital da provincia do Pará, até essas aldeas.-Scenas da vida selvagem.

A 18 de Junho de 1875 parti de Belem, com destino ao Alto Tapajoz.

A viagem de Belem a Santarem pelo rio Amazonas, e de Santarem á Itaituba pelo Tapajoz, é feita em cinco dias, em um dos grandes vapores da companhia do Amazonas.

Em Itaituba embarquei em uma pequena canôa, tripolada por oito indios, quasi todos da tribu Maués, e penetrei pelas cachoeiras do Alto Tapajoz.

Com dez dias de viagem cheguei á Missão do Bacabal, que o governo imperial mandou fundar, e que foi effectivamente fundada á margem direita do Tapajoz em 23 de Fe10

TOMO XL, P. II

vereiro de 1872 por Fr. Antonino e por Fr. Pelino de Castrovalva. Esta missão contém cerca de quinhentos indios da tribu Mundurucú.

O missionario Fr. Pelino, unico que então ahi se achava, pois que o seu companheiro já se havia retirado do Bacabal, cedéu-me para interprete um indio Mundurucú, que, além do seu dialecto, tambem comprehende e falla as linguas portugueza e tupí.

Continuei minha viagem pelo Tapajoz acima, e com cinco dias, a contar da Missão do Bacabal, cheguei á foz do rio Caderery, affluente, pelo lado direito, do mesmo Tapajoz.

Ahi devia eu encontrar, segundo se me havia dito, um audaz sertanejo, que conhece o caminho que leva ás aldeas centraes. Infelizmente, porém, não o encontrei. Ninguem de minha tripolação conhecia ao menos o curso do rio Caderery.

Estava eu embaraçado, por falta de guias e de informações, quando vimos por acaso apparecerem na praia dois selvagens Mundurucus.

Perguntȧmo-lhes, por intermedio do interprete, que tempo nos seria necessario para chegarmos ás fontes do Caderery.

O mais idoso dos dois selvagens respondeu pelo seguinte signal com o dedo indicador apontou para o nascente, descreveu uma semi-circumferencia na direcção do curso apparente do sol até o poente, acompanhando este movimento com o olhar, gestos e vozes expressivas, e repetiu pausada e distinctamente seis vezes a mesma mimica de tal sorte, que, antes que o interprete o houvesse traduzido, já eu comprehendêra que o selvagem queria dizer que seriam necessarios seis dias.

Disse-nos mais que, ás cabeceiras do Caderery, encontrariamos outros indios, que nos poderiam guiar até a aldêa de Necodemos, de onde elle e seu companheiro vinham.

Este nome de Necodemos, que os Mundurucús deram a uma de suas principaes aldeas, impressionou-me, pois é o appellido do judeu generoso e compassivo, que fez modestas honras funebres a Christo, dando-lhe um lençol para amortalhar-lhe o cadaver e um sepulchro para o guardar.

Porque deram os Mundurucús este nome à sua aldêa não o sei dizer. Presumo que a identidade de nome nada mais seja do que o effeito de méro acaso.

Como quer que seja, resolvi-me a procurar a aldea de Necodemos de preferencia a qualquer outra.

Alguns guerreiros d'essa aldêa, segundo referiu ainda o mesmo informante, tinham chegado, poucos dias antes, de uma guerra, e conservavam duas cabeças de inimigos mumificadas, collares de dentes humanos e outros trophéos.

E não tive de arrepender-me d'essa preferencia, porque em Necodemos fui bem recebido, e encontrei mais viva do que em outra qualquer parte a tradição da genesis Mundurucú, que considera justamente esta maloca ou aldea como o berço do genero humano.

Segui pelo Caderery acima. Rio singular! Todos os dias tinhamos de passar á força de braços nossa ligeira embarcação por cima de bancos de area. Aqui confirmei a opinião que havia formado de que o Caderery, assim como o Araguaya, Juruena, Mamoré, e outros affluentes superiores que alimentam os grandes tributarios meridionaes do Amazonas, taes como o Tocantins, o Tapajoz, o Madeira e outros, se esgotariam totalmente durante o verão, ficando os alveos a sêcco se não fossem as cachoeiras do curso médio, que servem de compertas a tão impetuosa corrente. O declive geral do curso médio d'esses grandes affluentes do Amazonas, que descem do planalto central, é maior do que convem para constituir um curso d'agua nas condições normaes de um rio.

Emfim, ao amanhecer do sexto dia calculado pelo indio, encontramos uma arvore atravessada sobre o rio, em forma de ponte, e á margem uma tosca cabana. Não havia pessoa alguma. Tocámos buzina para chamar á falla o proprietario da cabana, que devia achar-se caçando nas matas vizinhas. Não apparecendo ninguem, seguimos viagem, deixando eu alguns insignificantes presentes para annunciar a passagem de pessoa amiga.

Julguei dever proceder d'este modo lembrando-me que o capitão-tenente Soares Pinto fora atacado e morto pelos selvagens por haver destruido pontes que elles haviam lançado sobre o rio. Ora, não se pode fazer esta navegação sem destruir as pontes, e nem sempre é possivel restaural-as.

Por isso, todas as vezes que eu não podia collocal-as de novo sobre os mesmos lugares, pois que ainda encontrámos n'esse dia mais quatro pontes, deixava presentes para de alguma sorte compensar o prejuizo que causava ao selvagem. No fim d'esse dia tornou-se o rio totalmente innavegavel era-nos impossivel levar nossa canôa mais adiante. Felizmente, n'esta apertada conjunctura, encontrámos uma outra ponte sobre o rio e uma cabana á margem ; tocámos buzina com persistencia, e, vimos por fim apparecer um velho indio, acompanhado de uma india, que teria trinta annos de idade, e cinco crianças menores, uma das quaes ainda de peito. Chegaram em seguida dois robustos rapazes.

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Escusado é dizer que todos os indios que encontramos n'essas alturas, homens e mulheres, velhos, moços e crianças, estavam inteiramente nús.

Facilmente reconhecemos que esta familia pertencia á tribu Mundurucú, porque a moça, os rapazes e o velho, estavam todos pintados no rosto, no peito e em todo o corpo. com os losangos e outras figuras caracteristicas da tribu

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