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Os Mundurucus, que tinham para este lado as suas rêdes, e cuja vizinhança me poderia incommodar, cederam-me graciosamente o lugar, levando-as para outro lado.

Devo deixar bem patente a generosa hospitalidade que recebi em Necodemos, tanto mais de sorprender, quanto procedia de barbaros, inteiramente estranhos a nosso trato social. Tudo foi posto à minha disposição; nada fizeram que podesse enfadar-me ou contrariar-me.

Velhos e moços fizeram um circulo em torno de mim. Não havia ali uma só mulher nem mesmo criança do sexo feminino. No extenso casarão, onde me alojei, situado no meio da aldea e chamado « ekçá,» só são admittidos homens.

Minha visita foi uma festa para os selvagens; admiravam com curiosidade tudo quanto viam a vela de spermacetti que accendi, o relogio, a mala de viagem, a carteira; tudo examinavam, passando de mão em mão, no meio de ruidosas gargalhadas.

Assim levámos até meia-noite; os Mundurucús apreciavam muito esta diversão, unica em sua vida, quando me nos o esperavam. Por fim disse-lhes que estava cançado, e elles me reponderam: « Pois então dorme. » E immediatamente cada um retirou-se para sua rêde, dizendo-me : Até amanhã—« Cuia dhê. »

Mas estes barbaros têm o costume de tocar buzina durante toda a noite no seu quartel ou ekçá. Parece um signal de alerta. Ora um, ora outro, que na occasião desperta, tira-se de seus cuidados, lança mão da buzina, que tem sempre suspensa ao tecto sobre a rêde, e leva a tocal-a durante o tempo que lhe parece. Após este, outro faz o mesmo. E esta musica monotona e tristonha echôa lugubremente pelas matas circumvizinhas. E' gosto puramente selvagem.

IV

Um Mundurucú me faz presente da cabeça mumificada de uma moça da tribu Parintintin, e conta-me como e por que matára esta moça.

Um d'estes barbaros, de vinte e cinco a trinta annos de idade, expansivo e desembaraçado, orador verboso, no dia seguinte me fez presente da cabeça mumificada de uma moça da tribu Parintintin. Esta cabeça, que se acha

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actualmente no museu nacional, conserva sua abundante cabelleira; na frente está raspada, como se fòra á navalha. Assim, a fronte parece prolongar-se sobre a cabeça até quasi o meio; no centro d'essa fronte artificial destaca-se uma mecha circular de cabellos negros. Trazia um ornato

de pennas de brilhantes côres. Devêra ser de uma moça da moda em sua tribu, que foi morta em guerra.

Mas aqui devo observar que os Mundurucús fazem frequentes guerras a outros gentios seus inimigos, com o fim precisamente de aprisionar mulheres moças e crianças, e não de matal-as. Matam sim os homens, cujas cabeças conservam como trophéos. Quando se preparam para estas correrias dizem francamente: « Eu vou porque preciso de uma mulher para me casar, ou preciso de um pequeno para filho de minha mulher. »

Qualquer guerreiro Mundurucú devia, pois, ter o maior empenho de aprisionar, e não de matar uma rapariga como aquella, cuja cabeça me era offerecida.

Com effeito disse-me o barbaro que só por engano a matára no ardor do combate, que lhe não permittira distinguir o sexo. Ella sahia correndo da cabana, que elle e seus companheiros haviam sorprendido pela madrugada, e elle lançára-se atraz d'ella e a atravessára pelas costas com a sua formidavel taquára. Quando a reconheceu mulher e moça teve pezar. Comtudo cortou-lhe a cabeça, extrahiu-lhe o cerebro, expôl-a å fumaça de lenha verde até mumifical-a.

E' singular, porém, a extrema ternura com que o barbaro fratava a cabeça de sua inimiga. Entre as tribus Mundurucú e Parintintin reina desde longos annos odio de morte, e fazem-se guerras de exterminio.

Mas este Mundurucú estava como louco pela cabeça Parintintin. Não a deixava um só momento. Quando chegou a occasião de eu retirar-me de Necodemos, como adiante direi, elle, bem como doze outros indios, acompanhou-me durante oito dias de viagem, através das matas, até as cabeceiras do Caderery. Durante este trajecto, quando se approximava a noite e tinhamos de pousar, o indio fincava em terra, junto à sua rêde, uma haste que trazia expres

samente para isto, e sobre ella suspendia a cabeça, como em um cabide, cobrindo-a cuidadosamente com uma toalha que eu lhe havia dado.

Ao amanhecer, seu primeiro olhar era para ella: punha-a sobre o collo, penteava-lhe com os dedos os longos cabellos e acariciava-a, como se fosse uma filha querida.

Só me fez entrega d'esta reliquia no ultimo momento, quando eu já estava embarcado para descer o Caderery, e n'esta occasião disse ainda : « Mas eu a queria para mim! » Tambem eu lhe tinha feito presente de uma espingarda de dois canos, de polvora, chumbo e outros objectos. Assim mesmo nos acompanhou com a vista até a canoa desapparecer pelo rio abaixo.

Em Necodemos bavia ainda outra cabeça mumificada. Fôra de um guerreiro Parintintin. O Mundurucú que a poɛsula, já bastante idoso, não quiz mostrar-m'a nem conversava sobre ella Tambem eu não insisti. Alguns traziam collares de dentes de inimigos mortos por elles.

Vi meninos que o meu interprete me disse serem prisioneiros da ultima guerra. Os da aldêa não tocaram sequer n'este assumptó; receiavam talvez que lhes quizessemos tomar os seus prisioneiros.

V

Genesis Mundurucú.-Crenças e tradições.-Apparição de « Caru-Sacaebê. »>-Ingratidão dos habitantes de Acupary.-Castigo.-Necodemos berço do genero humano.

Pareceu-me vêr n'este povo singular, traços de uma civilisação antiga. Os Mundurucús vivem em republica fortemente organisada; de longa data movem guerra a seus inimigos, quando bem lhes parece; fulminam sentenças de

morte contra os feiticeiros; têm uma genesis propria, e possuem crenças e tradições que vão passando de geração em geração.

Não será este povo, pensava eu, oriundo dos Quichuas ou dos Aymaras, que, descendo dos Andes, se fixaram sobre estas vertentes? Por isto investiguei com a mais detida attenção as tradições, interrogando repetidas vezes os mais antigos da maloca, para que me dissessem, se seus avós não vieram de terras longinquas e elevadas, que demoram do lado onde o sol se esconde todas as noites? Mas elles me respondiam invariavelmente que não; que os primeiros homens que appareceram sobre a terra fundaram a maloca de Acupary. Caru-Sacaebê appareceu entre elles e lhes ensinou a caçar: até então só havia caça inferior; Caru-Sacaebê fez apparecer caça maior.

Não teve pai nem mãi; teve um filho de nome Carutaú e um companheiro de nome Rayrú, que o reconhecia por

mestre.

Um dia Caru-Sacaebê foi infeliz na caça. Voltou á Acupary, e mandou seu filho Carutaú que fosse pedir alguma ave, inambú ou perdiz, aos caçadores, que as tinham morto em abundancia.

Os caçadores, porém, recusaram, e por escarneo atiraram a Carutaú as pennas das aves, dizendo: « Teu pai tambem é bom caçador. »

Tres vezes Caru-Sacaebê repetiu o pedido; tres vezes os caçadores recusaram.

Então Caru-Sacaebê colheu as pennas que elles haviam atirado por escarneo a Carutaú, e fincou-as uma por uma em torno da maloca. E subito, com um gesto, converteu em porcos bravios todos os habitantes de Acupary, homens e mulheres, velhos, moços e crianças.

Estes animaes vorazes iam esbravejando extramalhar-se

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